Há uma cena no primeiro episódio, se não me engano, da série “O Mecanismo”, que considero um trem porreta pra caramba. A cena é mais ou menos assim: um dos diretores da PETROBRASIL estava realizando algumas alterações num relatório. Alterações essas que foram feitas com todo aquele linguajar técnico, sobre um suposto problema tremendamente específico – daqueles que são extremamente difíceis de serem averiguados por alguém de fora – que passaria despercebido aos olhos de leigos como eu e você, amigo leitor.

Tal manobra Mandrake estava sendo realizada para justificar um determinado aumento nas despesas para, num ato de contabilidade criativa, fazer sobrar uns bons trocados que seriam entregues a alguém na forma de propina, para fazer as pessoas “certas” sorrirem.

Acho essa cena simplesmente espetacular porque dá ao cidadão comum uma imagem clara e cristalina de como se faz para desviar borbotões e mais borbotões de uma empresa Estatal, do erário público, do raio que o parta, sem dar na pinta. Dificilmente alguém iria investigar o aumento de gastos motivado por uma causa tecnicamente tão sem sal.

Cenas similares a essa, imagino eu, devem ocorrer aos montes de norte a sul desta terra de desterrados, fragmentada em um emaranhado de prefeituras, cada uma com seu jeitão próprio de ser e com seus incontáveis e insondáveis segredos. Que medo.

Sobre essas maquinações infernais é importante lembrarmos que, como nos ensina René Guénon, uma das características essenciais do poder é o segredo. Sem um certo grau de ocultação não há exercício do poder. Isso vale para tudo. Desde o jogo de cartas marcadas das relações internacionais até, obviamente, as disputas pela posse da chave do cofre do erário do “cunhepe do fuepe”, o segredo é uma peça de fundamental importância.

Trocando em miúdos: não podemos, jamais, pressupor que sabemos tudo a respeito do universo político, seja a respeito dos grandes entreveros ideológicos, seja sobre as miudezas da política do dia a dia, sempre haverá uma gama significativa de informações que apenas serão conhecidas por nós muito tempo depois e, muitas outras que, possivelmente, jamais saberemos; e se viermos a saber, já será tarde demais para pensar em fazer alguma coisa a respeito.

Sim, cedo ou tarde a verdade vem à tona a respeito das inúmeras tretas e maracutaias que tomam um lugar de destaque no teatro das disputas pelo poder, porém, poucos são aqueles que estão dispostos a escarafunchar os fatos para encontrar-se com ela, a tal da verdade. São poucos porque, na maioria das vezes, o que se procura junto aos fatos, na maioria dos casos, não é a verdade, essa abençoada que nos liberta de nossos equívocos e enganos, nada disso. O que se procura, na grande maioria das vezes, é algo que nos traga uma sensação de relativo conforto e segurança – mesmo que essa seja vaga – frente aos acontecimentos que estão sendo encenados diante de nossas ventas.

Também, sempre é bom lembrar que, como nos ensina São Tomás de Aquino, a verdade é filha do tempo. Sempre. Mas nós, infelizmente, sempre estamos apressados. Como estamos! E somos apressadinhos não porque estamos ansiosos para conhecer a verdade. Nada disso. O que nós queremos, na maioria das vezes, é ter razão na hora que vamos discutir com os nossos amigos no boteco, ou quando vamos tretar com os nossos desafetos nas redes sociais.

Ora, esse tipo de motivação é uma baita de uma armadilha. Uma bela arapuca. Digo isso porque quando nossa motivação é somente ter a dita cuja da razão em uma contenda de momento, de fato, nós nos dedicamos muito na procura das informações necessárias para esse intento. Porém, tais informações são procuradas não para que possamos esclarecer nosso entendimento e ampliar nossa compreensão, mas sim e tão somente, para confirmar as nossas convicções e podermos fazer pose de vencedor, mesmo que elas, as ditas cujas das nossas convicções, sejam um amontoado de toscos equívocos.

E não são poucos os indivíduos que chamam a esse tipo de obstinação – de defender uma convicção furada e inconsequente, fundada em uma visão ideológica deturpada e maliciosa da realidade – de coerência; a coerência de um amontoado de enganos e equívocos criticamente críticos, ideologicamente cimentados numa consciência apoplética se contorcendo em agonia.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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