Há uma velha anedota que nos conta que, certa feita, o filósofo Hegel estava em seu leito, enfermo, e um de seus discípulos veio até ele para mostrar ao mestre que sua teoria estava equivocada e apresentou-lhe os fatos que demonstravam isso. Hegel então olhou para o jovem e disse-lhe que se os fatos não estão de acordo com sua teoria, pior para os fatos.

Se essa historieta é historicamente verídica eu não sei dizer, mas, com toda certeza, ela nos apresenta uma lição ontologicamente verdadeira. Mas antes de tecermos qualquer comentário impertinente, permitam-me contar outro causo.

Esse causo é uma historieta similar a anterior, porém, não tem o glamour de ter como personagem central um aquilatado filósofo alemão. Dito isso, vamos lá: certa feita, um aristocrata turco do século XVII teria ido passar uma temporada na França e, bebericando um vinho aqui, outro acolá, acabou se apaixonando por um vinho branco seco produzido pelo Chateau Carbonnieux, que ficava na região de Graves, em Bordeaux.

Gostou tanto que levou boleiras de garrafas do tal vinho para Turquia. Apresentou a bebida para os membros da corte e eles, também, se apaixonaram pela bebida.

Porém, todavia e, entretanto, como todos nós sabemos, o Corão Sagrado proíbe o consumo de bebidas alcoólicas, o que dificultaria a importação do precioso produto.

Abre parêntese: e é por isso que Deus de verdade transforma água em vinho e não o contrário. Fecha-se etilicamente o parêntese.

Para contornar a situação e, com ela, o Corão Sagrado, o Sultão passou a importar muitas e muitas caixas do referido vinho, porém, todas as garrafas que tinham por destino o velho império Turco, recebiam um rótulo diferenciado. Neste, estava escrito: “Eau Minerale de Carbonnieux”. Água mineral de Carbonnieux. Pronto. Problema resolvido.

O trem tinha cheiro de vinho, gosto de vinho, dava tonturinha de vinho, mas o rótulo diz que não. Isso, nas garrafas, que tem cara de vinho, seria apenas e tão somente água mineral.

Tanto num caso, como no outro, temos aquela velha e surrada mania de levianamente colocarmos as palavras, ideias e imagens, inapropriadas e desproporcionais, no lugar da realidade concreta; de sobrepor uma ideologia – uma visão deformada da realidade – no lugar da verdade.

E quanto mais o caboclo faz isso, mais difícil se torna a reversão dessa situação porque, palavras ocas, ideias furadas e ideologias capengas são muletas mentais que, após um certo tempo de uso, meio que se fundem na personalidade do sujeito. Podemos dizer que, com o tempo, elas se tornam algo similar a uma segunda pele.

Ou, como nos ensina Juan Cesar Muller: quando contamos uma mentira, deliberada ou não, e esquecemos que a proferimos, e continuamos a repeti-la, passamos a crer que ela é verdade e, o nome preciso que se dá a isso seria neurose. Uma mentira há muito esquecida que passamos a crer que é verdade.

De todo esse matagal de equívocos que se fundem com a carcaça mental de muitos sujeitos, me permitam apenas utilizar um exemplo que, pessoalmente, considero uma peça fundamental nessa encrenca toda que se faz presente no mundo atual. No caso, seria o relativismo moral e cognitivo.

Detalhe: não confundamos o relativismo moral e cognitivo com o relativismo metodológico. Fazer isso é molecagem.

O problema não está apenas na impossibilidade lógica de tal concepção que, no seu cerne, é autocontraditória. O problema maior está no fato de que a dita cuja corrompe o nosso senso das proporções e, com o tempo, degrada nossas faculdades cognitivas e, de quebra, ferra a nossa inteligência; e isso, por sua deixa, nos priva da procura abnegada pela verdade e acaba por nos exilar do reino da liberdade, pois, se tudo é relativo, logo será aceito como “consenso” aquilo que for afirmado com maior força de persuasão, não aquilo que tiver maior grau de probabilidade.

Para ficar mais claro, permitam-me um exemplo tosco, porém, útil. Se tudo é relativo, então todas as crenças são iguais e teriam o mesmo valor. Logo, perante o altar do relativismo moral e cognitivo, religiões como o Cristianismo teriam o mesmíssimo valor que seitas como o “Palo maior” e o “Narco Satanismo”. Ora, se todo ponto de vista seria apenas a vista de um ponto, o resultado é esse mesmo: o reino do absurdo, onde os indivíduos, sem se dar conta, passam a crer que eles são a fonte da verdade e base de sustentação da realidade. Diante dele, do sujeito, tudo é relativo; apenas seu palavrório furado e sua entorpecente ideologia seriam absolutas.

E mergulha-se nisso, porque ignora-se soberbamente que sob as etiquetas, que fixamos em garrafas de vinho e nas pessoas, existe a tal da realidade. Realidade essa que é mais ampla que nós e, como diz São Paulo, na qual vivemos, existimos e somos. E relativizá-la, só porque ela não confirma nossas ideias e ideologias, é como serrar o galho onde estamos sentados.

Por essas e outras que as pessoas que dizem que tudo é relativo, e vivem com a palavra “tolerância” na boca, babam de raiva frente a existência de qualquer um que não “reze” na mesma cartilha que elas. Com certeza, tais almas, perturbadas até o tutano, aprenderam direitinho a lição ensinada pelo patrono da educação brasileira, que dizia que devemos ser “tolerantes” com todos, menos com nossos inimigos, seguindo os passos de Che Guevara, um exemplo de amor ao próximo segundo o mesmo patrono do pau oco.

Palavras ocas, coletivos histéricos, ideologias escrotas, todas fomentadas pelo relativismo moral e cognitivo e seu império de “tolerância”.

Enfim, por isso cremos que Lima Barreto estava certíssimo quando dizia que devemos fazer troça de tudo; troça em cima de troça, até que todo esse absurdo revele o seu incomensurável ridículo e, desse modo, nos vacinarmos contra esse mal.

É isso. Fim do causo.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

Critique, elogie, esculhambe, avacalhe, só não fique indiferente.

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