Gosto muito da série animada do Star Wars – a guerra dos clones. Na verdade, sou fã – sem carteirinha – de tudo que integra esse universo ficcional que, de uma forma tremendamente original, apresenta uma saga cavalheiresca, na perene luta do bem contra o mal, num cenário intergaláctico.

Dessa animação, entre inúmeras reflexões que a mesma fomenta em minha moringa pensante – reflexões essas que frequentemente partilho com meus filhos – há uma que recentemente me ocorreu e que, agora, escrevinho.

Nessa série animada que nos apresenta inúmeros dramas sofridos na República Galáctica, em meio as Guerras Clônicas contra os separatistas, uma das personagens centrais é o general jedi Anakin Skywalker, com sua abusada padawan Ahsoka Tano.

Sim, todos sabemos que num futuro não muito distante o mestre Anakin irá se bambear para o lado sombrio da força e tornar-se-á o temível Darth Vader; porém, nas aventuras dessa animação, vemos quem era esse homem antes de cair em tentação e deixar-se enredar nos subterfúgios do senador Palpatine, também conhecido como Darth Sidious, um poderoso mestre Sith.

Enfim, vendo a série com meus filhos, ocorreu-me algo que até então não havia matutado: como Darth Vader, antes de se tornar um Sith, era um homem bom. Sim, um homem muito bom. Um líder profundamente preocupado com os seus soldados, um homem sensível ao sofrimento dos desvalidos da galáxia e, é claro, um sujeito com um senso de justiça aguçadíssimo que o levava muitas vezes a realizar feitos de incomparável bravura.

Um homem amado e respeitado por muitos e, é claro, pelas mesmas razões, temido e odiado por muitíssimos outros.

Mas, como todos nós sabemos, Anakin caiu em desgraça e tornou-se quem ele se tornou. O homem bom transubstanciou-se num espectro do mal.  E por quê? Porque seu coração foi sendo gradativamente tomado pelo medo e, como nos ensina o escritor inglês Samuel Taylor Coleridge, tudo que começa com alguma dose de medo, por pequena que seja, e que tenha algum quinhão de poder envolvido, por menor que seja, cedo ou tarde, o tal do medo acaba virando loucura.

Nosso admirável mestre jedi amava por demais a sua esposa, a princesa Padmé Amidala e seus filhos que estavam em seu ventre. Mas maior que seu amor era a sua falta de fé e de esperança, que habitavam seu coração, tamanho era o medo que ele tinha de perdê-los, como havia perdido a sua mãe.

Mestre Yoda e bem como o mestre Obi Wan, de forma similar a sábios estoicos, em várias ocasiões advertiram Anakin sobre a sua incapacidade de se desapegar e que, tal fraqueza, seria a causa de sua ruína, porque o apego que temos à imagem que cultivamos das coisas e pessoas, com o tempo sufoca o amor, a esperança, a fé e termina enlouquecendo todas as virtudes cardinais (a prudência, a temperança, a fortaleza e a justiça).

Nós, de forma similar ao general Anakin, somos muitas vezes apegados por demais a imagem, positiva ou negativa, acertada ou pejorativa, que fazemos de algumas pessoas, de determinadas ideias e visões de mundo e, sem nos darmos conta, de forma similar ao jedi Skywalker, acabamos por nos afastar do caminho da retidão e terminamos por nos afundar no que há de mais sombrio em nossa alma, devido ao apego, desmedido e idolátrico, que nutrimos por algo ou por alguém.

Quando caímos nessa arapuca, acabamos realizando incontáveis barbaridades em nome desse apego idolátrico que, de nossa parte, acaba sempre recebendo um nome pomposo, que obstrui nossa visão da realidade; obstáculo esse que habita no fundo dos átrios o nosso coração.

Alguns juram, de pés juntos, que as peripécias mil que fazemos, são feitas em nome da igualdade, da liberdade, da justiça social, dum mundo melhor possível, em nome do Estado Democrático de Direito, da família, da pátria, enfim, pouco importa o nome que acabemos por dar aos apegos que cultivamos em nosso coração, porque esses apegos, não são o tal do amor.

Não é amor porque, como nos ensina São Paulo (1 Coríntios XIII:4-7): “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Enfim, eis que um homem bom, por causa de seus apegos, que tomaram o lugar da virtude maior, que é o amor, teve a sua alma degradada de fio a pavio. Mas, como todos sabemos, ao final do seu arco dramático, Darth Vader foi redimido pelo amor, da mesma forma que nós, eu e você, podemos ser curados das manchas causadas por nossos apegos, que maculam o nosso coração imerso em sombras e devaneios.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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