Terça-feira, 1 de setembro de 2026
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Especial: Violência contra a mulher vai além da agressão física e exige fortalecimento da rede de proteção em Pinhão

Na segunda reportagem da série especial do Portal Fatos do Iguaçu, procuradora da Mulher destaca a necessidade de informação, atendimento integrado e ações que evitem a revitimização

Foto em plano médio da vereadora e procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Pinhão, Vilma Kictky. Ela tem cabelos loiros curtos e sorri levemente, vestindo um blazer azul-marinho sobre uma blusa estampada. Ao fundo, desfocado, vê-se a fachada da Câmara de Vereadores.

A vereadora e procuradora da Mulher de Pinhão, Vilma Kictky, reforça a urgência de ampliar a rede de proteção e qualificar o atendimento para combater todas as formas de violência contra a mulher. Foto: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu

A violência contra a mulher não se limita às agressões físicas e pode estar presente em diferentes situações do cotidiano, muitas vezes sem que a própria vítima consiga identificá-la. Controle financeiro, ameaças, humilhações, gritos, imposições e isolamento também fazem parte de relacionamentos abusivos e podem anteceder formas mais graves de violência.

Nesta segunda reportagem da série especial sobre o tema, o Portal Fatos do Iguaçu conversou com a vereadora e procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Pinhão, Vilma Kictky, sobre a realidade do município, a organização da rede de atendimento e as ações desenvolvidas pela Procuradoria da Mulher.

Segundo a vereadora, tornar visíveis as diferentes formas de violência é fundamental para que as mulheres consigam reconhecer quando estão vivendo um relacionamento abusivo e saibam onde procurar ajuda.

Violências ainda permanecem invisíveis

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Vilma Kictky afirmou que a discussão não pode ficar restrita à violência doméstica ou à agressão física, pois as mulheres enfrentam diferentes tipos de violência, muitos deles naturalizados pela sociedade.

Quando falamos de violência contra a mulher, não podemos nos referir somente à violência doméstica. Existem vários outros tipos de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis aos olhos da sociedade

Vilma Kictky

A experiência da vereadora junto aos grupos de mulheres dos bairros e das comunidades rurais mostra que algumas vítimas vivem situações violentas sem compreender que determinadas atitudes também representam formas de abuso.

“Às vezes, a mulher está passando por algum tipo de violência e não tem consciência disso. O homem quer decidir tudo, os gritos estão sempre presentes, ocorre um puxão de cabelo, uma ameaça ou o controle das finanças da família. Muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por causa da dependência financeira”, explicou.

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De acordo com Vilma, quando ocorre a agressão física, geralmente a mulher já enfrentou outras etapas do ciclo da violência. Por isso, a informação precisa estar presente de forma permanente nos encontros comunitários e nas atividades destinadas ao público feminino.

Rede pode ajudar mulher a romper o ciclo

A dependência econômica, a falta de apoio e a necessidade de acompanhamento psicológico estão entre os fatores que podem dificultar o rompimento de um relacionamento violento.

Para a procuradora, uma rede organizada pode oferecer suporte para que a mulher reconstrua sua vida, tenha acesso ao mercado de trabalho e receba atendimento psicológico, social e jurídico.

“Se ela conta com uma rede que possa apoiá-la, inseri-la de alguma forma no mercado de trabalho, orientá-la e encaminhá-la para atendimento psicológico, terá melhores condições de sair dessa situação”, afirmou.

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A vereadora também ressaltou que o enfrentamento não pode ser responsabilidade de apenas um órgão. O trabalho exige a participação conjunta dos setores públicos, das instituições privadas e da sociedade.

É um desafio que não pode ser enfrentado sozinho. Precisamos unir forças, criar espaços de discussão e organizar uma rede que tenha diálogo e um fluxo de atendimento definido

Vilma Kictky

Município ainda não possui fluxo formalizado

Durante agosto, a Procuradoria da Mulher conversou individualmente com representantes dos órgãos que atuam no atendimento às vítimas. Foram ouvidos o Ministério Público, o Poder Judiciário, a Secretaria Municipal da Mulher, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e outros integrantes da rede.

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Segundo Vilma, as visitas mostraram que Pinhão possui diferentes portas de entrada para as mulheres que procuram ajuda. Entretanto, ainda não há um fluxo municipal formalizado que estabeleça como cada serviço deve atuar e para onde a vítima deve ser encaminhada em cada situação.

Atualmente, o CREAS é um dos equipamentos fundamentais para o atendimento das mulheres vítimas de violência no município.

“O município precisa fortalecer a rede e criar um fluxo de atendimento. A mulher tem várias portas de entrada para pedir apoio, mas é preciso organizar esses encaminhamentos para que ela não corra o risco de ser revitimizada”, explicou.

A revitimização pode acontecer quando a mulher precisa repetir diversas vezes, em diferentes locais, o relato da violência sofrida. Além de aumentar o sofrimento emocional, a falta de comunicação entre os serviços pode dificultar ou atrasar os encaminhamentos necessários.

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Procuradoria propõe criação de fórum de acompanhamento

Após ouvir os diferentes órgãos, a Procuradoria da Mulher elaborou uma minuta com sugestões para melhorar a articulação da rede. O documento será apresentado aos setores envolvidos para avaliação.

Entre as propostas está a criação de um fórum municipal de acompanhamento e enfrentamento à violência contra a mulher. O espaço permitiria a realização de reuniões periódicas, a avaliação dos fluxos de atendimento e o acompanhamento dos dados sobre as mulheres atendidas.

“A proposta é que a rede se comunique mais, realize reuniões e acompanhe o fluxo e o número de pessoas atendidas mensalmente. Temos indicativos de que o trabalho acontece, mas ainda de forma truncada, o que pode levar à revitimização”, afirmou Vilma.

A vereadora destacou que a iniciativa não pretende interferir no trabalho já desenvolvido, mas colaborar com sua organização e seu fortalecimento. Ela reconheceu como avanço a criação da Secretaria Municipal da Mulher e defendeu a efetiva implantação do Centro de Referência de Atendimento à Mulher Vítima de Violência (CRAM).

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O CRAM foi criado legalmente pelo Decreto Municipal nº 100/2024, mas ainda não possui estrutura própria nem equipe técnica constituída. Por isso, não funciona, atualmente, como um local onde as mulheres possam procurar atendimento direto.

“Torcemos para que o CRAM seja efetivado dentro da Secretaria da Mulher. Com uma equipe técnica, a mulher terá mais facilidade de acesso às orientações e aos atendimentos jurídico e psicológico. Isso também fortalecerá o fluxo e a comunicação entre os serviços”, ressaltou.

Procuradoria atua como órgão de apoio

A Procuradoria da Mulher está inserida na rede como um órgão de apoio e representa a participação do Poder Legislativo nas discussões e ações de enfrentamento.

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Entre suas atribuições estão o acolhimento inicial, a orientação sobre os serviços disponíveis, a fiscalização das políticas públicas, a proposição de iniciativas e a aproximação do Legislativo com as mulheres dos bairros e das comunidades rurais.

Para Vilma, a atuação da Procuradoria também é importante para despertar a consciência das mulheres sobre seus direitos e ajudá-las a reconhecer situações de violência.

“A Procuradoria precisa estar próxima das comunidades, oferecendo apoio, informação e espaços de diálogo. Precisamos falar sobre esse tema de maneira diária e constante

Autor Vilma Kictky

Encontros aproximam Procuradoria das comunidades

A Procuradoria da Mulher organizou uma agenda anual de atividades, tendo o enfrentamento à violência como um dos temas prioritários. Entre as ações estão encontros mensais com grupos de mulheres das áreas rural e urbana.

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A proposta é levar informações e criar um espaço no qual as participantes possam compartilhar suas experiências, dificuldades e necessidades. As atividades também buscam valorizar a trajetória e a contribuição das mulheres para suas famílias e comunidades.

Um dos encontros foi realizado no dia 27, no bairro Bitur, com a palestra “O feminino: a beleza de ser quem você é”. A atividade contou com interpretação em Libras para ampliar a participação e a acessibilidade.

“O encontro celebrou a história de cada mulher e fortaleceu sua trajetória. Criamos espaços para que elas possam falar e se reconhecer como cidadãs, como pessoas que realizam e contribuem muito com a cidade, a família e a comunidade”, relatou a vereadora.

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Informação também é uma forma de prevenção

Para a procuradora da Mulher, a proximidade com as comunidades permite não apenas levar orientações, mas também conhecer as dificuldades enfrentadas em cada território.

A proposta é contribuir para a formação de um coletivo no qual as mulheres possam discutir suas necessidades, conhecer seus direitos e fortalecer a participação social.

“Precisamos estar próximas, levando informação, valorização e oferecendo um espaço para que elas se encontrem, compartilhem suas alegrias e dificuldades e formem um coletivo forte na luta pela garantia de seus direitos”, concluiu Vilma.

O fortalecimento da rede, a implantação efetiva do CRAM, a definição de um fluxo municipal e a comunicação permanente entre os órgãos são apontados como passos necessários para que as mulheres encontrem atendimento mais rápido, integrado e humanizado.

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Esta é a segunda de uma série de três reportagens especiais do Fatos do Iguaçu sobre a violência contra a mulher.

Editoria Especiais
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