O Portal Fatos do Iguaçu inicia uma série de três reportagens sobre a violência contra a mulher. Ao longo da série, serão apresentados dados, formas de violência, mecanismos de proteção e o trabalho realizado no município de Pinhão para acolher as vítimas e prevenir novos casos.
Nesta primeira reportagem, os números estaduais ajudam a dimensionar a gravidade do problema, enquanto informações da Secretaria Municipal da Mulher revelam uma realidade que também está presente no município. Desde março de 2026, aproximadamente 40 mulheres procuraram diretamente a Secretaria em razão de situações relacionadas à violência.
O número, entretanto, não representa a totalidade dos casos registrados em Pinhão. Outras mulheres procuram diretamente a Delegacia de Polícia, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), os serviços de saúde e os demais órgãos que integram a rede municipal de atendimento.
Paraná registrou mais de 6,6 mil ocorrências em um mês
Dados apresentados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná apontam que, somente em janeiro de 2026, foram registradas 6.687 ocorrências de violência doméstica contra mulheres no Estado. No mesmo mês de 2025, haviam sido contabilizados 6.722 registros.
Embora tenha ocorrido uma pequena redução, inferior a 1%, os números mostram que mais de 215 ocorrências foram registradas, em média, a cada dia no Paraná.
Os feminicídios apresentaram uma redução mais expressiva. O Paraná contabilizou 87 vítimas em 2025, diante de 109 casos registrados em 2024, conforme dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), reunidos pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A diminuição foi de aproximadamente 20%.
A queda no número de feminicídios, contudo, não significa que as demais formas de violência estejam diminuindo na mesma proporção. O feminicídio é a consequência mais extrema de um ciclo que pode começar com controle, humilhações, ameaças, isolamento, perseguição e violência patrimonial, evoluindo para agressões físicas, violência sexual e morte.
Violência não está restrita a uma classe social

Em entrevista à jornalista Nara Coelho, a secretária municipal da Mulher, Dianna Miotto, afirmou que a violência contra a mulher não está relacionada exclusivamente à vulnerabilidade econômica.
Hoje, a violência não é mais algo que acontece apenas em uma classe social mais baixa. Ela está em todas as classes sociais, independentemente de essa mulher estar ou não em situação de vulnerabilidade
Na avaliação da secretária, um dos fatores que contribuem para a permanência da violência em Pinhão é a cultura machista, historicamente presente tanto na área urbana quanto nas comunidades rurais.
A chefe do Setor de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Analice Sviercoswski, explicou que muitas vítimas permanecem durante anos em relacionamentos violentos antes de conseguirem reconhecer a situação e procurar ajuda.
“São mulheres que vivem nesse ciclo há muito tempo. Algumas procuram ajuda depois de 18 ou 20 anos de casamento. Elas aprenderam a entender determinadas atitudes como uma forma de amor e, somente agora, com maior acesso à informação, começam a perceber que estão em um ciclo de violência”, relatou.
Essa demora em buscar atendimento é um dos fatores que dificultam a compreensão da verdadeira dimensão do problema. Medo do agressor, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha, isolamento e falta de uma rede de apoio podem levar a mulher a permanecer em silêncio por meses ou anos.
Cerca de 40 mulheres procuraram a Secretaria desde março

Segundo Analice, aproximadamente 40 mulheres procuraram diretamente a Secretaria Municipal da Mulher desde março de 2026, quando o setor começou a organizar um arquivo interno dos atendimentos.
Parte delas permaneceu em acompanhamento e foi inserida em grupos, cursos e outras atividades destinadas ao fortalecimento da autoestima e da autonomia financeira. Quando necessário, também são realizados encaminhamentos para o CREAS e para os serviços de saúde, atendimento psicoterapêutico, assistência social e concessão de benefícios eventuais.
Dianna ressaltou que o levantamento inclui somente as mulheres que chegaram diretamente à Secretaria.
“Estamos falando das mulheres que chegaram aqui. Há aquelas que procuram o CREAS, a Delegacia ou outros serviços. A Secretaria da Mulher é uma das portas de entrada, mas não é a única”, explicou.
O Centro de Referência de Atendimento à Mulher Vítima de Violência (CRAM) foi criado legalmente por meio do Decreto Municipal nº 100/2024. No entanto, o serviço ainda não foi implantado de forma concreta no município, pois não possui equipe própria nem estrutura de atendimento. Dessa forma, atualmente, as mulheres não podem procurar diretamente o CRAM.
Os atendimentos e encaminhamentos continuam sendo realizados pela Secretaria Municipal da Mulher e pelos demais órgãos que integram a rede municipal. O decreto prevê que, quando efetivamente estruturado, o Centro deverá oferecer acolhimento, atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico, além de desenvolver ações preventivas e atuar de maneira articulada com os demais serviços.
Rede de proteção está em processo de estruturação
Atualmente, Pinhão conta com uma rede de atendimento formada por diferentes serviços, entre eles a Secretaria da Mulher, o CREAS, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), a Procuradoria da Mulher os serviços de saúde e os órgãos de segurança pública.
De acordo com Analice, o município trabalha na formalização dos fluxos de atendimento e na estruturação da rede de proteção, com definição das responsabilidades de cada setor e discussão conjunta dos casos.
O atendimento acontece. A partir do momento em que a mulher pede ajuda, ela é atendida. O que estamos fazendo é formalizar os fluxos para que os encaminhamentos se tornem cada vez mais eficazes
A organização desse trabalho exige cuidado, diálogo entre os serviços e acompanhamento das providências adotadas. O objetivo é evitar que a mulher precise repetir sua história em diferentes órgãos e garantir que ela encontre proteção e atendimento de acordo com suas necessidades.
Autonomia financeira pode ajudar a romper o ciclo
A dependência econômica é uma das dificuldades enfrentadas por mulheres que desejam deixar um relacionamento violento. Por isso, os cursos e grupos mantidos pela Secretaria também são considerados parte das ações de enfrentamento.
Segundo Dianna, algumas mulheres atendidas nunca tiveram oportunidade de estudar ou aprender uma atividade profissional porque foram impedidas pelo companheiro.
“Quando oferecemos um curso, mesmo que seja de panificação, por exemplo, também estamos trabalhando o enfrentamento à violência. Algumas mulheres conseguiram sair desse ciclo e precisam aprender uma atividade para conquistar renda e autonomia”, explicou.
A Secretaria mantém aproximadamente 15 grupos de mulheres, com encontros mensais em diferentes localidades. As atividades incluem artesanato, culinária, informações sobre direitos e momentos de diálogo. Conforme as representantes do órgão, esses encontros também criam vínculos de confiança e frequentemente resultam no relato de situações de violência.
Prevenção começa na escola
Uma das iniciativas desenvolvidas pelo município é o programa Maria da Penha nas Escolas, realizado em cumprimento à legislação municipal. Em 2026, o trabalho está sendo desenvolvido com estudantes dos quartos e quintos anos das escolas municipais.
Antes das atividades com os alunos, os professores participaram de uma formação para abordar o assunto e para identificar possíveis situações reveladas pelas crianças. Em sala de aula, o conteúdo é trabalhado por meio de uma cartilha em formato de história em quadrinhos.
Para Analice, conversar com as crianças é uma estratégia de prevenção a longo prazo, pois a violência doméstica afeta toda a família.
“Não conseguiremos realizar hoje um trabalho que acabe imediatamente com a violência. Precisamos pensar no futuro e plantar uma semente para que ela diminua. As crianças também sofrem quando convivem com a violência dentro de casa”, afirmou.
Denúncias não revelam toda a dimensão do problema
As bases públicas consultadas não apresentam, de maneira facilmente acessível e consolidada, o número anual de ocorrências de violência doméstica exclusivamente em Pinhão. Por essa razão, não é correto aplicar a média estadual à população do município ou apresentar estimativas como se fossem dados oficiais.
Além disso, o número de boletins de ocorrência não corresponde necessariamente à quantidade real de agressões. Muitos episódios nunca chegam ao conhecimento dos órgãos públicos.
O aumento das denúncias em determinado período também precisa ser analisado com cautela. Ele pode indicar crescimento da violência, mas também pode representar maior acesso à informação, fortalecimento dos serviços e mais confiança das vítimas para procurar ajuda.
Em Pinhão, o trabalho realizado pela Secretaria Municipal da Mulher e pelos demais serviços da rede representa um avanço. A efetiva implantação do CRAM, já criado por decreto, poderá ampliar e especializar o atendimento oferecido às mulheres em situação de violência.
A consolidação e a divulgação periódica de dados municipais — como o número de ocorrências, as solicitações de medidas protetivas, as reincidências e os encaminhamentos realizados — também contribuiriam para dimensionar melhor a realidade local e orientar as políticas públicas.
Onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência podem procurar a Secretaria Municipal da Mulher, o CREAS, a Delegacia de Polícia ou os demais serviços públicos da rede de atendimento.
A Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — funciona gratuitamente durante 24 horas, todos os dias, para prestar orientações, informar sobre os serviços disponíveis e registrar denúncias. Em emergências ou risco imediato, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.
Esta é a primeira de uma série de três reportagens especiais do Portal Fatos do Iguaçu sobre a violência contra a mulher.









