Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
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Uma joia de família: a história da Relojoaria Pérola e da geração que decidiu continuar o brilho

Plantar uma semente é, antes de tudo, um ato de fé.

Uma joia de família: a história da Relojoaria Pérola e da geração que decidiu continuar o brilho

Plantar uma semente é, antes de tudo, um ato de fé. Ver essa semente tornar-se uma araucária frondosa e, depois, dar frutos que reconhecem suas raízes e desejam continuar o plantio é a verdadeira realização. Assim é a trajetória de Írio Hoffmann, que nos anos 1990 abriu uma pequena porta para consertar relógios e, três décadas depois, ao lado da esposa, Cirene Lisboa Hoffmann, vê os três filhos — Daiane Amanda, Victor Gabriel e o caçula, Lucas Gustavo — envolvidos, planejando e construindo o futuro da Relojoaria Pérola. Hoje, Lucas é designer de joias e já assinou e expôs sua primeira coleção autoral.

Lucas Gustavo, designer de joias | Foto: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu

A memória afetiva de Lucas começa cedo, no balcão e nas festas do interior. Aos 11 anos, num Natal, o pai lhe deu a lição que moldaria o ofício: “não tenha vergonha de atender”. O menino disse “bom dia” e descobriu, no acolhimento dos clientes, que o atendimento vai muito além da venda: é gesto, escuta, respeito. Esse ethos — aprender no amor, como ele diz — vem de casa e do comércio familiar, mas ganhou camadas quando Lucas saiu para “ver o mundo”.

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Antes de cravar a decisão de permanecer na empresa da família, Lucas tentou a vida no futebol. Rodou por Joinville e Cruzeiro, experimentou o treino duro e o ofício que transforma prazer em obrigação. Na pandemia, aos 16 para 17 anos, encerrou a carreira nos gramados e voltou o foco à loja — não sem antes circular por outras experiências. Trabalhou numa cooperativa de crédito e, ali, aprendeu algo que levaria de volta para a Pérola: prospectar gente, conversar de verdade, entender necessidades. “Cooperativa é relacionamento”, resume. E relacionamento, ele percebeu, também é a alma de um comércio que quer crescer além do “amigo do amigo”.

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A história da Relojoaria Pérola tem marcos claros. Írio começou em 1996, apenas com serviços e seis pulseiras de couro. A formalização veio em 18 de outubro de 2000, quando o CNPJ permitiu negociar com marcas e estruturar a empresa; a partir daí, a loja evoluiu do “ofício de consertar” para um mix de serviços e produtos. A família cresceu dentro do negócio: Daiane, a primogênita, ajudou até os 17; Victor sempre foi o braço administrativo; Lucas, afinado com o atendimento e os serviços, tornou-se o rosto mais frequente nas redes — por pura afinidade, ele brinca. No time atual, somam-se a eles a Eliseth (atendimento) e a Gabriela (marketing).

Houve tropeços e viradas de chave. A tentativa de manter duas unidades — uma delas na Avenida — não resistiu a 2020/2021. O retorno ao endereço da Francisco Dellê reuniu pai e dois filhos num “divisor de águas”: ou os três remavam juntos ou era hora de seguir outro rumo. Remaram. Foi quando Lucas também descobriu a joalheria 3D. Diante da aposentadoria de um fornecedor, a família decidiu internalizar o processo: em 2020 e 2021, ele cursou modelagem digital, fundição e acabamento com um mestre de Soledade (RS). Por um tempo, produziram sob encomenda muito específica, respeitando a curva de aprendizagem. Em 8 de fevereiro de 2024, abriram o CNPJ exclusivo da joalheria — a semente de um novo galho.

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O passo seguinte foi autoral. Em 2025, entre reforma de loja e horas de bancada, nasceu a primeira coleção: “Se Eu Tiver Que Esperar” — um nome que carrega a ideia de que “é justo que muito custe aquilo que muito vale”. Com pedras naturais lapidadas por um parceiro da Paraíba e peças em ouro e prata, a coleção reuniu 25 criações com cravações precisas e um enredo cultural assumidamente pinhãoense. A trilha do lançamento? Milongas e xotes. A curadoria visual e simbólica teve a mão sensível de Daiane; a viabilidade, o pulso administrativo de Victor; o cuidado com a operação, o amparo de Írio e Cirene. “Foi a primeira vez que nós cinco trabalhamos juntos do começo ao fim”, conta Lucas — e isso diz tudo sobre o caráter de “joia de família” do projeto.

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Nem tudo, porém, é brilho sem atrito. A convivência diária de pai e filhos gera debates, desgaste, ajustes. “Existe a voz da experiência e a imaginação da juventude”, admite Lucas, sem romantizar. Mas, como na ourivesaria, o polimento nasce do atrito certo: é ele que revela o desenho. E o desenho dessa família parece alinhavado: Pinhão é a casa e será sempre a sede; a expansão é sonho de todos, sem abdicar das raízes. “Algum de nós cinco estará aqui”, diz. Daiane mora fora e tem outra profissão, mas pertence à fundação do negócio — e segue parte dele.

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Designer por ofício, Lucas transita entre razão e sensibilidade. A bagagem do esporte e da economia lhe deu método; a mãe, Cirene, e a irmã lhe afloraram a escuta e a empatia necessárias para transformar histórias pessoais em joias singulares. Nas referências, ele mira alto — Cartier, Tiffany — e aponta uma brasileira inspiradora, a H. Stern; mas não se ilude: “não há nada de novo debaixo do sol”. O novo, para ele, está em combinar ideias, lapidar detalhes e ouvir o cliente até a peça “dizer quem é”.

Aos 21 anos, com o irmão aos 24 e a irmã aos 32, Lucas olha para Pinhão com otimismo e senso de pertencimento. Vê uma cidade jovem, mais moderna e aberta, pronta para receber tecnologia e produtos de ponta — e pede aos jovens que puderem: fiquem, participem, ajudem a decidir os próximos passos. A Relojoaria Pérola — nascida para educar os filhos — hoje educa gerações de clientes naquilo que Írio ensinou no primeiro dia: atender bem é um ato de respeito. O resto, como na boa ourivesaria, é paciência, trabalho e brilho que não se apaga.

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Reportagem publicada originalmente na edição impressa comemorativa aos 61 anos de emancipação política do município de Pinhão – PR.

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