Cuidar da saúde mental não significa eliminar a tristeza, o medo, a raiva ou os momentos de silêncio. Significa reconhecer as próprias emoções, desenvolver maneiras mais saudáveis de enfrentar os problemas cotidianos e procurar ajuda quando o sofrimento se torna persistente.
Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo psicólogo Ricardo Almeida durante o episódio do podcast Falando de..., exibido na quarta-feira, 26 de agosto de 2026, pelo canal da TV Fatos no YouTube.
Com apresentação da jornalista Nara Coelho, a conversa abordou os desafios do cuidado emocional, a aceleração da vida contemporânea, a importância da convivência, o envelhecimento da população, a dificuldade dos homens em falar sobre sentimentos e os caminhos para acessar os serviços públicos de saúde em Pinhão.
Ricardo Almeida é formado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e pós-graduado em Gerontologia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Com 17 anos de experiência na área pública, trabalhou por 15 anos no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e, desde 2024, integra a equipe da Secretaria Municipal de Saúde.
Atualmente, realiza atendimentos individuais e coletivos, participa de projetos voltados a diferentes públicos e desenvolve palestras sobre saúde mental.
Uma sociedade conectada, mas com dificuldades para conviver
Durante a entrevista, Nara e Ricardo discutiram um dos paradoxos da atualidade: embora as pessoas estejam permanentemente conectadas pelas redes sociais e pelos aplicativos, muitas demonstram dificuldades para conversar, ouvir e conviver presencialmente.
A pressa também passou a fazer parte das atividades mais simples do cotidiano. Mensagens de áudio são reproduzidas em velocidade acelerada, o silêncio é preenchido pelo celular e até os momentos de descanso podem ser acompanhados por uma sensação de culpa.
Para Ricardo, o tédio e o ócio estão desaparecendo da vida cotidiana porque as pessoas sentem que precisam produzir ou consumir informações o tempo inteiro. Essa aceleração pode dificultar a compreensão das próprias emoções.
A nossa mente precisa entender que somos seres humanos e que é necessário viver todas as fases, todos os sentimentos e todas as emoções
O psicólogo ressaltou que a socialização é um dos pilares da saúde mental. Sair de casa, participar de grupos, praticar atividades físicas e estabelecer relações com outras pessoas contribuem para a qualidade de vida em todas as idades.
Solidão e solitude não são a mesma coisa
Ricardo também chamou a atenção para a diferença entre solidão e solitude.
A solitude representa a capacidade de permanecer sozinho de maneira consciente e saudável, aproveitando a própria companhia. A solidão, por outro lado, pode estar relacionada ao isolamento, ao sofrimento e à ausência de vínculos significativos.
Segundo o psicólogo, o autoconhecimento ajuda a pessoa a perceber quando está apenas desfrutando de um momento consigo mesma e quando o isolamento começa a produzir sofrimento.
Essa diferença torna-se especialmente importante entre as pessoas idosas. Grupos de convivência, atividades físicas e projetos comunitários podem ajudar a romper o isolamento e criar novas relações depois de acontecimentos como a aposentadoria, a saída dos filhos de casa ou a perda do companheiro.
Procurar um psicólogo ainda enfrenta preconceito
Outro ponto central da conversa foi o preconceito que ainda existe em relação ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
De acordo com Ricardo, muitas pessoas continuam associando a procura por esses profissionais à ideia de “loucura”. Esse estigma pode atrasar o atendimento e agravar situações que poderiam ser acompanhadas desde o início.
O psicólogo comparou o cuidado mental à procura por especialistas de outras áreas da saúde. Assim como alguém busca atendimento quando apresenta um problema em determinado órgão do corpo, também deve procurar profissionais preparados para auxiliar na compreensão dos pensamentos, emoções, comportamentos, vícios e dificuldades de relacionamento.
O autoconhecimento é aquilo que sai de dentro para fora. É conhecer o que temos para poder oferecer ao mundo e às outras pessoas
Para Ricardo, procurar ajuda não representa fraqueza. É uma atitude de cuidado e uma oportunidade para ampliar o que ele denomina de “repertório emocional”: a capacidade de oferecer respostas diferentes aos problemas que se repetem ao longo da vida.
Emoções não devem ser ignoradas
Durante o programa, o psicólogo explicou que sentir raiva, medo, tristeza ou estresse faz parte da experiência humana. O sinal de alerta aparece quando essas condições se tornam crônicas, repetitivas e passam a interferir na rotina, nos relacionamentos e na capacidade de tomar decisões.
“Está tudo bem sentir raiva, medo ou estresse. O que não pode acontecer é isso se tornar crônico”, destacou.
Quando a pessoa não consegue mais encontrar sozinha alternativas para enfrentar determinada situação, é importante procurar ajuda profissional.
Ricardo também defendeu que um diagnóstico não deve ser transformado na identidade do paciente. Ao diferenciar as expressões “eu sou” e “eu estou”, ele explicou que uma condição emocional ou um transtorno não resume a totalidade de uma pessoa.
“Eu não sou depressivo; eu estou depressivo. O ‘sou’ e o ‘estou’ são diferentes”, exemplificou.
A afirmação reforça que o sofrimento precisa ser reconhecido e tratado, mas não deve funcionar como um rótulo permanente sobre quem enfrenta um problema de saúde mental.
Homens ainda encontram dificuldades para falar sobre sentimentos
A resistência masculina ao autocuidado também ganhou destaque. Segundo Ricardo, muitos homens foram educados para acreditar que demonstrar emoções, pedir ajuda ou falar sobre sofrimento seria um sinal de fraqueza.
Essa formação cultural pode fazer com que adiem exames, evitem consultas e não compartilhem suas angústias nem mesmo com familiares próximos.
Para o psicólogo, reconhecer emoções e conversar sobre elas não reduz a masculinidade. Pelo contrário, aproxima o homem da família e permite que ele compreenda melhor os próprios comportamentos e os sentimentos das pessoas que convivem com ele.
O autoconhecimento, conforme explicou, permite que a pessoa tome decisões sem depender constantemente da aprovação dos amigos ou do grupo social.
“Quando eu sei quem sou, conheço minha identidade e sei para onde quero ir, consigo assumir o cuidado comigo mesmo”, afirmou.
Envelhecimento exige preparação individual e políticas públicas
Especialista em Gerontologia, Ricardo Almeida também analisou os desafios relacionados ao envelhecimento da população.
Segundo ele, o aumento da expectativa de vida exige mudanças na estrutura urbana, na oferta de profissionais especializados, nos serviços públicos e na maneira como a sociedade enxerga as pessoas idosas.
Durante a conversa, o psicólogo utilizou o termo “envelhecência” para descrever o período de preparação para a velhice. Assim como a adolescência representa uma transição para a vida adulta, a envelhecência seria uma fase de aprendizado sobre como envelhecer com autonomia, identidade e qualidade de vida.
Essa preparação envolve pensar na aposentadoria, construir vínculos fora do ambiente de trabalho, manter atividades de interesse pessoal e refletir sobre como se deseja viver a terceira idade.
Ricardo alertou que a aposentadoria pode provocar uma ruptura importante. Além da atividade profissional, algumas pessoas perdem parte das relações sociais mantidas no ambiente de trabalho. Por isso, a criação de novos vínculos deve começar antes do afastamento profissional.
Ele também ressaltou que a realidade de Pinhão apresenta um desafio adicional: as grandes distâncias entre a área urbana e as comunidades rurais podem dificultar o acesso dos idosos às atividades, aos grupos e aos serviços.
Esporte e convivência ajudam a combater o isolamento
Como exemplo da importância da participação social, Ricardo mencionou a experiência dos idosos de Pinhão nos Jogos de Integração dos Idosos, realizados em Guaratuba.
O encontro reuniu mais de 700 participantes e demonstrou, segundo o psicólogo, como o esporte, os desafios e a convivência podem fortalecer a autonomia e a autoestima.
Ele observou que muitos idosos acabam colocando as próprias necessidades em segundo plano para cuidar dos netos ou permanecer disponíveis para os filhos. Embora a relação familiar seja importante, a pessoa idosa também precisa reservar espaço para seus interesses, amizades e projetos.
Feridas emocionais podem ser ressignificadas
Ao abordar perdas, luto e acontecimentos traumáticos, Ricardo afirmou que os processos emocionais precisam ser vividos. A tentativa de apressar o luto ou impedir que alguém manifeste tristeza pode dificultar a elaboração da experiência.
O luto não está relacionado somente à morte. Também pode surgir após a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, uma mudança brusca ou o encerramento de uma etapa importante da vida.
Para explicar o processo de recuperação, o psicólogo utilizou a metáfora de uma cicatriz. Quando a ferida está aberta, ela provoca dor. Depois de cicatrizada, a marca permanece, mas pode ser observada sem o mesmo sofrimento.
O mesmo pode acontecer com as feridas emocionais. A pessoa não apaga o que viveu, mas pode atribuir um novo significado à experiência.
Traumas nós não esquecemos. O que conseguimos é ressignificar, dar outro significado, até chegar ao ponto de falar sobre o assunto sem sentir a mesma dor
O perdão e o autoperdão também foram apresentados como partes desse processo. Segundo Ricardo, guardar ressentimentos pode manter a pessoa emocionalmente presa ao acontecimento que a machucou. Perdoar não significa negar o que aconteceu, mas impedir que aquela experiência continue determinando o presente.
Fé como um dos pilares da vida emocional
Ricardo falou ainda sobre a importância da fé em sua trajetória pessoal e profissional. Para ele, espiritualidade, convivência familiar, socialização e organização financeira podem funcionar como pilares de sustentação emocional.
O psicólogo ressaltou que a fé não deve ser confundida apenas com religião. Ela também pode estar relacionada à confiança em si mesmo, ao reconhecimento do próprio potencial e à construção de um sentido para a vida.
Como acessar os serviços em Pinhão
Na parte final do programa, Ricardo apresentou alguns dos trabalhos desenvolvidos pela equipe multiprofissional da Secretaria Municipal de Saúde.
Entre as iniciativas citadas estão os grupos destinados a pais de pessoas autistas, pacientes com fibromialgia e participantes dos projetos FisioAlegria e Saúde 60+.
A equipe reúne profissionais de Psicologia, Fisioterapia, Nutrição e Serviço Social, que realizam atendimentos, visitas e atividades coletivas em parceria com as equipes das Estratégias Saúde da Família (ESFs).
Para acessar esses serviços, a orientação é procurar a unidade de saúde de referência do bairro ou da comunidade. Após a avaliação, o paciente poderá receber o encaminhamento adequado para os profissionais ou grupos disponíveis.
Levantamento busca informações sobre os idosos
Ricardo também reforçou a importância da participação das pessoas com 60 anos ou mais no levantamento realizado pelo Município sobre as condições de saúde e vulnerabilidade da população idosa.
As informações serão utilizadas no processo para que Pinhão busque o reconhecimento como Cidade Amiga da Pessoa Idosa, iniciativa relacionada à Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os idosos que ainda não responderam aos questionários por meio dos agentes comunitários de saúde devem procurar a unidade de referência.
Segundo o psicólogo, os dados poderão ajudar na elaboração de projetos, na ampliação das equipes e na busca por recursos destinados à população idosa.
“O passado não é destino”
Ao encerrar sua participação no Falando de..., Ricardo Almeida deixou uma mensagem sobre a possibilidade de reconstruir a relação com experiências difíceis.
O passado não é destino; o passado é referência
Segundo ele, acontecimentos antigos podem ser trabalhados por meio do autoconhecimento e do acompanhamento psicológico. Mesmo quando as respostas encontradas não são exatamente as desejadas, elas podem ajudar a pessoa a desenvolver novas formas de lidar com problemas que se repetem.
A principal orientação deixada pelo entrevistado foi clara: reconhecer o sofrimento e procurar ajuda são atitudes essenciais para cuidar da saúde mental e construir uma vida com mais consciência, autonomia e qualidade.
Da Redação, com entrevista de Nara Coelho/TV Fatos.
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