M.Selva
XXV. Confissões cruzadas, 3. Entretempos e espelhos 1
Desde que meus olhos permanecem abertos, diante de minhas estelas, sobrevém-me a verdade – a qualidade do meu ver. Tudo o que eu posso ver no instante mesmo em que eu vejo, eu vejo de uma vez por todas – sem jamais mudar, com todas as possibilidades elas mesmas reais. Por isso, em geral, nada tem que ser confirmado; pois tudo que se apresenta nas estelas existe e tudo que existe é real – tudo o que é real é uma tautologia. Contudo, naquela estela em particular, quando adentro a ela, vejo tautologia nenhuma. Entretanto, o que não é tautologia não pode ser real e sim manipulação da realidade.
Mas, se é uma manipulação da realidade, por que ela aparece em uma estela? Se aparece, então ela é real e tem que ser real e não manipulação. Além disso, tudo o que está ali, naquela estela e em seus mosaicos particulares, excita de tal modo minhas fibras que não há como não ser real. De minha parte, a única coisa que é de fato manipulação é a contingência e a contradição, isso não existe e por isso não é real. Contudo, se também a contingência e a contradição consistem em estelas do mosaico, neste caso, é a manipulação uma parte da realidade ou, de modo mais preciso, real? Na verdade, manipulação e realidade excitam as mesmas fibras nervosas em meu sistema, então não há como elas serem coisas diferentes.
Eis aqui, diante de mim, as estelas da minha realidade; inclusive a que tem por conteúdo a descrição daquele livro sobre meu povo e meu planeta. Seu autor produz uma situação indizível, mas plena de sentido; mas como o indizível pode ser pleno de sentido e não puro sem-sentido? Uma situação assim, nada tautológica, em uma estela – como isso é possível? O que não é tautológico não é real, simples assim; entretanto, se é assim mesmo, por que o não tautológico excita as mesmas fibras que o tautológico? Na ligação ele se impacta, parece não saber quem eu sou; sendo justamente ele quem escreve sobre mim e meu povo. Na estela contígua, ele quer saber a origem da ligação, não se dando conta de que tudo ocorre no instante em que nosso olhos se abrem.
Em minhas estelas há muitas outras coisas igualmente malucas, não as questiono. Em algumas delas eu estou entre pessoas que viajam em carruagens de fogo para lugares extremamente perto um do outro, mas elas têm medo do que elas próprias designam buracos de minhoca, simples tocas de rato que não levam a lugar algum se não houver entre elas certas ligações; isto é, se não forem transformadas em tocas de coelho. Nas estelas eu entro em um destes e me perco; caio em uma toca de rato e, por isso, tenho que fazer outras para me encontrar. São quatro tocas de rato que se transformam em uma toca de coelho, mas as pessoas não percebem isso. Elas querem apenas ganhar o que denominam dinheiro.
[Continua…]









