M.Selva
XXV. Confissões cruzadas, 2. O tempo do espelho 2
[…. Continuação]
“Para dizer mais claramente, ou mais obscuramente, já que não somos adeptos sem mais da teoria das ideias claras e distintas, percebe que, lá no fundo de seu poço noturno, você se identifica com o seu personagem? Não será que essa ligação não foi senão uma “fantasia bem formada”, cujo elemento principal se realiza no campo mesmo de um espelho que está para além de toda natureza morta? Enfim, por que incomodar as autoridades com um acontecimento cuja natureza vivente não pode ser senão a do sonho; isso, a menos que você prefira que seja a da alucinação ou a do delírio – esses menos afeitos a uma pragmática do desejo? Digo essas coisas no espírito de sua própria filosofia e no de sua apropriação da psicanálise…
“Aprendemos na escola que a vírgula é a elipse do verbo, não é verdade? E o que diz o seu interlocutor – de modo mais preciso, o antipodiano – não é precisamente a confirmação disso? “Tudo o que existe é real e tudo o que é real é tautologia”; isso significa que, para ele, o real (enquanto tudo o que existe) e a tautologia são uma única e mesma coisa. E o que está na base disso senão o espelho, o qual, por sua vez, como tal, não é nem o real nem a tautologia? Percebe que essa elucubração maluca faz sentido e pode ser justamente o seu acerto de contas consigo mesmo? Do contrário por que o antipodiano diria a você a belíssima penúltima frase, a saber: “o espelho é uma ínfima parte do mosaico que nos permite apreender o todo em suas múltiplas configurações”?
“Até parece Hegel falando…. E quem, em santa consciência, diria que Hegel é destituído de mente, consciência ou algo do tipo; mesmo os leitores de A órbita dos planetas, talvez o texto o mais enfurnado na experiência empírica da filosofia de todos os tempos? O mais interessante é que a afirmação do antipodiano – citada no parágrafo anterior – concorda em número, gênero e grau coma sua filosofia, senhor Rorty, embora invertendo-a em certos aspectos. Neste sentido, podemos dizer que a mente ou a alma, a consciência ou o que quer que tal espelho seja, não são senão “uma ínfima parte do mosaico que nos permite apreender o todo em suas múltiplas configurações”. Se isso é verdade, então você há de convir que há outras ínfimas – e porque ínfimas, infinitas – partes do mosaico que “nos permite apreender o todo em suas múltiplas configurações”. Eis aí o Belo próprio de uma poética adequada ao nosso tempo. Mas o que seria o mosaico, já que este também é apresentado como distinto do todo?
“Note que o todo é apreendido ou pelo menos passível de ser “apreendido em suas múltiplas configurações”. Se isso não é filosofia, em rigor, lógica hegeliana, o que seria então? Uma dialética do que é destituído de mente ou de estados mentais e do que é assim constituído? E por que, justamente no final, o seu antipodiano te ameaça com o surpreendente “Considere-se avisado!”? A palavra está contigo….
“Com meus melhores votos,
U.Eco,
Sforzesco, 23 de agosto de 1998”
[Correspondência privada, encontrada dobrada, em 2023, com o nome do autor ligeiramente apagado, na parte interna da sobrecapa de “Sob o selo de uma eternidade efêmera”, juntamente com o trecho de uma outra carta, à qual a presente responde]








