M.Selva
XXV. Confissões cruzadas, 1. O espelho do tempo
“[…]. Estávamos no final de 1993 e havíamos acabado de decidir os trâmites finais da publicação da edição brasileira de A filosofia e o espelho da natureza, lembro-me como se fosse hoje. Naquela noite a discussão foi até tarde, houve um pequeno entrevero sobre a capa definitiva do livro – uma natureza morta de Abraham van Beijeren (1620–1690), intitulada Still-Life – WGA2136. Depois da reunião que bateu o martelo sobre a edição, embora cansado, eu fiquei sem sono; me deitei, mas me limitei a rolar de um lado para outro na cama. Percebi que minha esposa estava se incomodando, então permaneci bem quietinho.
“Poucos segundos depois, o telefone tocou. Levantei-me rápido antes que minha esposa acordasse por completo. O telefone tocava freneticamente, ao atendê-lo, tudo começou a se passar como se eu estivesse em contato com outro mundo. Do outro lado da linha, alguém falou algo assim:
– Minhas fibras Zeta (decepção) ficaram extremamente excitadas quando a verificação de suas proposições não retornou tautologia alguma. Em consequência, minhas fibras Rho-L (alucinação lógica) se excitaram de tal maneira que não me era possível aceitar proposições que não fossem tautologias, negando qualquer forma de contradição ou contingência. Por isso, tornou-se necessário corrigir suas proposições sobre a expedição a Antipodea. Outrossim, você representa o espelho da natureza como uma natureza morta, mas se esquece de que todos os elementos da imagem são eles próprios dinâmicos e, portanto, vivos. Tudo o que existe é real e tudo o que é real é tautologia, o espelho é uma ínfima parte do mosaico que nos permite apreender o todo em suas múltiplas configurações. Considere-se avisado!
“Falou isso e desligou abruptamente. Confesso que gelei. Não consegui dizer uma palavra sequer. Não fazia ideia do que aquela voz estava dizendo. Confesso ainda que ela parecia meio robotizada, desses robôs que ganham cada vez mais espaço no cinema e na TV. Porém, o que me amedrontou de verdade foram as referências a Antipodea, um planeta imaginário localizado nas antípodas de nossa galáxia, lar de um povo igualmente imaginário, os antipodianos, seres destituídos de mente ou de consciência de si mesmos, que utilizei (a título de elogio) para exemplificar os problemas da consciência e do conhecimento no âmbito das filosofias moderna e contemporânea. Confesso também que nada entendi quando ele falou que eu represento ‘o espelho da natureza como uma natureza morta’, numa referência, acredito, à capa da primeira edição brasileira que ainda não havia sido publicada. Fiquei aterrorizado, pois havia acabado de autorizar a publicação daquela capa. E no final, ele afirma com voz grave: ‘Considere-se avisado!’.
“Acionei meus advogados no Brasil e nos Estados Unidos. Ninguém sabia nem conseguiu descobrir nada. Então acionamos a Companhia telefônica. Você não vai acreditar, mas eu direi assim mesmo. Embora a Companhia não mantivesse as gravações dos telefonemas, havia o registro dos números ou lugares de origem e destino, assim como das datas e das horas. Era como se aquela ligação nunca tivesse ocorrido. Havia apenas as informações referentes ao meu número, à data e à hora correspondentes. No lugar do ano aparecia 5984…
“Sempre seu,
- Rorty,
Carmel-by-the-Sea, 17 de julho de 1998”
[Trecho recuperado de parte de uma correspondência privada, dentro de um livro de literatura fantástica, intitulado “Sob o selo de uma eternidade efêmera”, comprado em um sebo virtual no ano de 2023]









