Quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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O Antipodiano: XIII. Nocapi (Sem cabeça)

M.

O Antipodiano: XIII. Nocapi (Sem cabeça)

M.Selva

                                                                                             XIII. Nocapi (Sem cabeça)

Há muito não se via um pôr do sol como aquele. Na praia, com a família e os amigos mais chegados – uma cena que até então só era possível em representações as mais antigas, tão antigas que muitos consideravam lendas ou mitos. Liam afundou-se em sua rede para mais um cochilo, queria ir para casa um pouco mais tarde…

De repente, um atropelo sem igual. Apitaços dos guarda-vidas e uma multidão em frenesi. Mas como, se aquela praia era particular e se havia um número restrito de cotas, todas apenas para famílias e um controle rígido de convidados? Um raro fenômeno estava acontecendo, depois de algumas centenas de anos, na primeira praia aberta ao público em todo o planeta, em seu primeiro dia de abertura: – Prime-fall druv! (O primeiro afogamento!). Bradou em pensamento, um dos vizinhos de cota de Liam…

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Os guarda-vidas se atiraram na água a fim de resgatar a pessoa que, para eles, surgida do nada, estava se afogando. Porém, a pessoa não demonstrava nenhum sinal de pavor ou de descoordenação; ela como que apenas se deixava levar pela água, com a cabeça para baixo, como se já estivesse perdido a vida. Foi preciso dois guarda-vidas para trazê-la para a praia; a terceira, que iria dar apoio à dupla, quando percebeu que a vítima estava sem cabeça, terminou por se descontrolar e fugiu do local. Em sua fuga, gritava em alto e bom tom:

– Nocapi! Nocapi! Nocapi! Nocapi!

(Sem cabeça! Sem cabeça! Sem cabeça!)

Verdade caríssima leitora, caríssimo leitor, caríssime leitore! Que língua estranha, não? Eis aí uma língua de uma época algo distante, ou próxima. Quem sabe? De outro tempo, um tempo ainda a vir. Quem sabe, uma certeza. Ou não! Logo teremos mais informações e poderemos satisfazer sua nobre curiosidade. Imagine…

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Mas, voltando ao caso… A fuga do guarda-vidas atiçou ainda mais o frenesi dos banhistas, a maioria saiu correndo ainda antes do guarda-vidas fugitivo chegar à praia. O espaço privado de Liam foi completamente destruído, assim como vários outros; quando ele se deu conta do que estava acontecendo, os outros guarda-vidas já estavam com o corpo em segurança na praia. Até ali, eles haviam agido pura e simplesmente segundo a virtude da coragem e no cumprimento do dever; mas, quando se depararam com o que estava diante deles, eles também dispararam a correr e a gritar: – Monstro! Monstro! Monstro! (Um monstro! Um monstro! Um monstro!). O que ainda havia de pessoas no local também desandou a correr. O corpo permaneceu estendido na areia.

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Liam, ainda atordoado e sem entender o que estava acontecendo, aproximou-se do corpo. Ele praguejava algum tipo de maldição; pois, em sua cabeça, agora a praia iria ser fechada de vez sem nenhuma chance de ser reaberta até o próximo milênio. Contudo, mesmo praguejando horrores, ele se aproximava mais e mais do corpo.

O ser se mostrava esplêndido: mais de dois metros de altura, uma cor morena-escura, ligeiramente azulada, meio que para o roxo, braços e pernas musculosos, mas sem nenhum pelo. Seus olhos, nariz e boca pareciam bastante suaves e mesmo angelicais; no entanto, seu sexo ou não existia ou não era aparente; embora ele tivesse nariz, ele não parecia respirar. E o pior, ele realmente não possuía cabeça. Seus olhos, nariz e boca se localizavam no seu tronco.

Ao invés de correr como os outros banhistas e guarda-vidas, Liam ficou intrigado. Com muito medo, ele tocou a ponta do seu dedo indicador direito na pele do ser e, para seu susto, aquela pela estava a uma temperatura extremamente alta para um ser vivo, especialmente para um ser humano.

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– Seru tal? Seru-huma-ka?

(Seria tal criatura um ser humano?), perguntou-se Liam.

Liam olhou para o seu dedo indicador e este estava tão vermelho como nunca estivera. Também latejava e ardia intensamente. Ele o levou à boca e, ao mais leve contato, quase vomitou o que havia comido durante o dia – tão intensa fora a ânsia que então se apoderara de Liam. Incomodado de estar ali sozinho com aquele ser estranho, Liam se mostrava igualmente empolgado e disposto a descobrir tudo a respeito dele. Mas o que ele poderia fazer naquelas condições, àquela hora já era noite e mesmo que as luzes artificiais automáticas já estivessem aptas a serem ligadas, elas não o eram sem um comando humano e Liam não possuía tal controle. A lua cheia, porém, dava um contraste todo especial à cena e permitia a Liam uma certa segurança. Essa que nada valia para que Liam pudesse chamar alguém ou mesmo tocar naquele indivíduo extremamente quente.

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Algumas horas depois chegou Sasha, amiga inseparável de Liam, mas que não suportava a água do mar e nem mesmo a maresia. Ela estava preocupada com ele, já que haviam marcado um compromisso para o cair da noite, compromisso ao qual ele não comparecera e nem dera nenhum tipo de justificativa. Sasha, contudo, não demonstrava nenhum sinal de raiva ou ciúmes. Quando Liam a avistou, ele ficou todo retraído, como se tivesse cometido um crime, ela se aproximou e então ambos se falaram numa língua estranha.

Kom, pa esper nu ta til-nu; ta nil!

(Cara, eu estava te aguardando até agora e você nada!)

– Nu, lu loka. Problomax. No-saber que facer. Ta aju-me?

(Então, olhe ali. Um problemão, não sei o que fazer. Você me ajuda?)

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– Wao! Que isa-ka? Seru nocapi lumin-noct shrink-ax?

(Uau! O que é isso? Um ser sem cabeça que brilha no escuro e encolhe?!)

– Que? Shrink-ka? No no no, no-possi!

(O que? Encolhe? Não, não, não pode ser!)

Tempra de-le tam-bem nu-medo amena; solo ~28 grad.

(A temperatura dele também é bastante amena, apenas uns 28’…)

Que! No-possi! Brul-me dita solo toucha-le, leve-ik. E isa pos-druv, tam-bem pocas hora atras seru paru metra >2. Mort-must; nos extrai-le fora. Ta aju-me!

(Que! Não pode ser! Eu queimei meu dedo só de encostar nele, de leve. E isso depois de ele ter se afogado, também poucas horas atras ele parecia medir mais de dois metros! Deve estar morrendo, temos de tirá-lo daqui. Me ajude!). Dizia Liam, quase sem pensar, tão perturbado estava.

– No-no! Le no-druv; solo remain stase.

(Que nada! Ele não se afogou, apenas permanece em estase)

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– Isa… Que? No-entender nada de que ta diz. Rapid, nos extrai-le fora! Komit arrivu; lu loka!

(Esta… o quê? Não entendo nada do que você está dizendo… Rápido, vamos tirá-lo daqui! As comitivas estão chegando, olhe lá!). Disse Liam, apontando para as patrulhas cujas luzes já se mostravam em aproximação.

– Ok, nu vamos. Eu-has plan.

(Ok, então vamos. Tenho um plano.)

Liam agora conseguia encostar em Nocapi, mas ainda não tinha forças para erguê-lo. Sasha se aproximou e tomou para si essa tarefa, fê-la com uma facilidade que parecia estar erguendo um corte de seda levíssimo. Liam já sabia desses dotes de Sasha, mas não imaginava que ela pudesse erguer toneladas… Sasha também ativou seu escudo de invisibilidade; o que antes só era usado em brincadeiras e aventuras em lugares proibidos, agora se mostrava um instrumento de proteção para três. Sasha, carregando Nocapi e Liam saíram dali o mais rápido que puderam sob o manto de invisibilidade.

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