Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
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O Antipodiano: XII. A brecha do tempo

M.Selva XII.

O Antipodiano: XII. A brecha do tempo

M.Selva

XII. A brecha do tempo

Ao tocar uma tessela determinada e assim avançar para além do primeiro mosaico temporal diante de si, ficando pois diante de um outro, retornando posteriormente ao primeiro, o antipodiano terminou por criar uma instabilidade no movimento entre as eternidades em questão. Qual tessela, neste segundo mosaico, ele teria tocado para então retornar ao primeiro; não haveria a possibilidade de ele apenas tocar uma outra tessela qualquer relacionada com a do mosaico anterior e, assim, avançar sem provocar nenhum tipo de instabilidade? Infelizmente não sabemos o que pode ter acontecido, mas sabemos do fato de que ele avançou por uma tessela e, algum tempo depois, retornou à posição inicial diante do primeiro mosaico.

Ao que parece, o antipodiano voltou ao primeiro mosaico em razão de o que ele estava observando não fazia nenhum sentido. Pode ser que ele estivesse tão só diante de contradições e contingências, as quais lhe pareceram absurdas ou pelo menos sem um objetivo claro.

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Mas digamos que cada mosaico seja na verdade a representação possível para ele do tempo circular interdimensional, no qual cada tessela, ao invés de representar um acontecimento possível, representasse uma das retas que, na sua interconexão com as demais – ou pelo menos com uma ou duas destas – conformasse um trecho do grande círculo do tempo total.

Neste sentido, cada tessela seria uma espécie de janela – ou de buraco – que, por sua vez, representaria a abertura para – ou de – uma linha do tempo distinta, um dar-se distinto do próprio tempo e, assim, do ser que em cada caso estaria em questão.

Se isso está correto, pode ser que, no estado de ansiedade ou de pânico em que ele entrara, com a ativação de suas fibras Gamma, o antipodiano tenha ativado uma brecha do tempo. Mas isso não faz sentido, porque se ele já estava na Terra, então ele já havia se colocado sob a condição da primeira dimensão do tempo; ou seja, estava subordinado ao tempo em seu fluxo do antes ao depois ou do anterior ao posterior, assim como à lógica do antecedente e do consequente.

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Contudo, e se ele ainda não estivesse em nosso planeta ou pelo menos em nosso tempo tal como nós o experimentamos e vivenciamos, tendo contato com o livro de Rorty, assim como com Anderson e Place entre outros a partir de um tempo para nós meramente virtual, mas para ele interdimensionalmente real? Isso explicaria o fato de ele não ter interagido com nenhum humano até sua viagem à Austrália e à Nova Zelândia, ao mesmo tempo em que tenha tido, justamente nesses dois países, seus maiores dissabores. Quer dizer, ele esteve de fato na Oceania e entrara em contato com os “antipodianos” de lá, mas é igualmente possível que estes jamais tenham entrado em contato com ele – talvez nem o tenham percebido.

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Isso explicaria o fato de ele ter desaparecido justamente no contexto de seus episódios de frustração e de decepção, quando tentara encontrar o que para ele seria a colônia antipodiana. Sabemos agora que essa colônia jamais existiu na linha do tempo que é a nossa; embora ela possa existir em alguma outra linha do tempo, não temos conhecimento suficiente para saber.

De qualquer forma, sabemos que o antipodiano ou esteve em nossa linha do tempo ou com ela interagiu de algum modo; ele ainda pode inclusive nela estar, mesmo que em um ponto ou outro, que também desconhecemos. Seu desaparecimento, porém, nos possibilita aventar uma teoria bastante controversa: se ele atravessou uma tessela numa direção e retornou a essa mesma tessela antes de atravessá-la, será que ele a atravessou de fato? Seu sumiço pode significar que ele apenas perdeu o interesse por essa linha do tempo em que vivemos, estando pois a investigar outras, que nesse exato momento, tal como o concebemos, possam se lhe mostrar mais promissoras para aquilo que ele busca, seja lá o que for.

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Ora, se essa teoria é possível, é igualmente possível que ele tenha se perdido ou tenha tido um acidente, dado que a operação de tesselas parecia algo novo para ele; mas seria isso imaginável, que um ser em princípio tão poderoso e onisciente, tendo diante de si as mais diversas linhas temporais relacionadas a um e mesmo acontecimento, cometer um equívoco tão sério, mas, ao mesmo tempo, tão primário? Não devemos nos esquecer de que o ilustre visitante não sabia o que era o tempo tal como o conhecemos e nem sabia lidar com o tempo em sua própria dimensão, dado que não tinha mente e, portanto, nenhuma percepção de si mesmo como tendo um lado ou um mundo interior. De fato, para ele tudo se resumia à exterioridade de tudo o que existe e à extimidade de seu próprio ser-aí. Neste sentido, enfim, se algo aconteceu com ele, ele próprio talvez seja o último a saber.

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O antipodiano desapareceu sem deixar vestígios, a última informação que temos dele se limita à sua visita à Austrália e à Nova Zelândia; pelo menos é isso o que, do ponto de vista dos seres humanos, e de um ponto de vista puramente teórico, se pode averiguar. Outra informação que nos chegara é a de que ele teria se perdido em uma toca de coelho, fenômeno temporal interdimensional caracterizado pela sequência de caminhos que ora seguem uma linha temporal, ora outra e assim por diante, dependendo do tipo de evento que se quer investigar – isso independente de tal evento nessa ou naquela linha do tempo e, da mesma forma, independente dos eventos que lhe são alternativos.

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Acrescente-se a esse fato a possibilidade de o antipodiano, em seu retorno a uma tessela anterior – talvez a que representava a sequência dos acontecimentos com Anderson e que estava ao lado da relacionada às ocorrências com Place, por exemplo –, quando, provavelmente, o antipodiano sai da toca de coelho em que estava e, assim, entra em uma toca de rato. Algo que ainda não compreendemos muito bem, mas que pode indicar um looping temporal eterno, se não sua queda em uma linha do tempo específica, ou mesmo em um determinado momento do tempo, do qual não possa jamais sair.

Uma dúvida adicional é saber a última tessela tocada e quantas vezes ele retornou à tessela anterior, para nós, até quando pudemos saber, a referente à colônia dos antipodianos na Austrália e na Nova Zelândia. Uma informação valiosa da qual podemos partir é aquela compartilhada no capítulo VII. A colônia, a saber:

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A liberação equilibrada de dopamina para validar a coerência interna da informação ficou comprometida na maioria das vezes em que o antipodiano abrira um livro, consultava algum acervo ou conversava com alguém (sim, ele experimentou essa façanha); nas tentativas de verificação cruzada de representações com modelos preexistentes que fizera, nenhum feedback neural de reforço breve quando padrões se encaixam de modo lógico pode ser dito o caso. Falhara, pois, em termos humanos, qualquer sensação de “cadência” ou “encaixe” no fluxo dos elementos passíveis de descrição e, com isso, ainda em termos humanos, a confiança básica de que aquilo não é apenas compreensível, mas também consistente. Enfim, a latência foi exagerada e a taxa de acerto praticamente zero.

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Ora, conforme o que se diz acima, o antipodiano não conseguia validar a coerência interna das informações que encontrava, esse comprometimento ocorreu muitas vezes, inclusive quando ele conversava com alguém. Se isso aconteceu de fato é necessário comprová-lo, mas como isso seria possível se, até o momento o que temos são informações tais quais aquelas que ele conseguira, isto é, informações completamente desencontradas? É importante primeiramente definir o que o autor da informação acima define como ‘conversa’, assim como determinar o ‘alguém’ com o qual o antipodiano teria conversado, se seria apenas um indivíduo ou se seriam vários indivíduos, enfim, se seriam seres humanos ou se seriam outros seres.

De qualquer maneira, sabemos que ele teve contato pelo menos com as obras de John Anderson e de Ullin Place, com os quais concordara parcialmente; não concordara, porém, com a posição de Anderson de que a proposição “tudo o que existe … é real” fosse equivalente a esta outra: “uma situação ou ocorrência espacial e temporal que está no mesmo nível de realidade que qualquer outra coisa que existe” (Baker, A. J. Australian Realism: The Systematic Philosophy of John Anderson. Cambridge: Cambridge University Press, 1986, p. 1). Isso por dois motivos: em primeiro lugar, porque isso tornaria a primeira proposição demasiado genérica, algo com o qual ele também tinha dificuldades; em segundo lugar, porque na segunda proposição havia um termo completamente estranho ao antipodiano, do qual ele desconhecia a referência, isto é, a noção de ocorrência temporal.

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O que também vale para a proposição segundo a qual “certos tipos de estados mentais são idênticos a certos tipos de estados cerebrais”, situação bastante propícia para a excitação de várias de suas fibras cerebrais a um só e mesmo tempo, quer dizer, para a produção de emoções as piores possíveis naquele contexto; por exemplo: surpresa, dúvida, frustração, decepção, desprazer, raiva etc. Algo, nesse caso, desencadeado pela expressão ‘estados mentais’.

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O pior momento, porém, foi quando o antipodiano se deparou com a proposição de que “a consciência é um processo que ocorre no cérebro” (Place, Ullin T. – “Is Consciousness a Brain Process?”. In Chalmers, David (org.) – Philosophy of Mind: classical and contemporary readings. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 55-60). Em função de sua imaginação e de suas fantasias, emersas a partir da excitação das respectivas fibras Ψᵍ (Psi-G) Ψᶠ (Psi-F), o antipodiano começou a imaginar e a fantasiar que algo como um verme ou um parasita estivesse alojado em seu precioso cérebro, no caso uma espécie de Tênia Solium ou uma ameba comedora de cérebros, a Naegleria fowleri.

Não obstante, como também sabemos que tudo o que o antipodiano imagina ou fantasia acontece, pode ser que algo assim tenha de fato acontecido; o que igualmente, pelo menos para nós, seres humanos, se mostra como inverossímil. Primeiro porque, se ele é em verdade um ser interdimensional, não sabemos nem mesmo se ele é capaz de sair de sua dimensão de modo verdadeiro; segundo porque, como um ser interdimensional, como ele poderia ter uma infecção desse tipo?

De qualquer modo, tudo isso é muito absurdo para darmos o devido crédito, e embora tudo isso seja verdadeiro, a verdade mesma foge a uma compreensão meramente formal e exterior; o que não significa, de modo algum, permanecer à deriva ou renunciar ao ato investigativo. Sim, caríssimas, caríssimos, caríssimes, trata-se de uma investigação da qual a única prova que temos em mãos constitui-se em um personagem de livro filosófico, mas, para nós, um personagem que é, antes de tudo, uma ficção.

Abstraindo-nos do fato de que, em Rorty, e portanto no tempo linear que é o nosso, o antipodiano é tão só uma ficção, o relato acima em torno da infecção ilumina de modo sagaz o caminho da investigação. Isso porque ele explicaria a confusão cognitiva e emocional do antipodiano quando de sua estadia na Austrália e na Nova Zelândia – esse o acontecimento que pensávamos ter ocorrido de fato e de direito, mas que, agora, infelizmente, é necessário colocarmos em dúvida.

Mas este, até onde sabemos, foi um evento real do qual participaram algumas pessoas sérias que nos serviram de testemunhas e, no dizer delas, não havia nada de especial neste ser – por exemplo, algo que poderia distingui-lo por completo em relação aos seres humanos ou, ainda, algum tipo de cor, figura, luz ou característica semelhante que pudesse denunciar sua origem interdimensional. Infelizmente, essas mesmas pessoas não foram capazes de alguma descrição mais pormenorizada, inclusive não nos foi dada nenhuma informação sobre sua possível fala; o que é consistente com outra informação conseguida por nós de que ele não fala como nós falamos e nem consegue nos ouvir, embora seja capaz de ler nossos livros e nossas obras audiovisuais apenas pelo modo como tais obras, pura e simplesmente, excitam suas fibras cerebrais.

É fato que em sua estadia naqueles países, o antipodiano fizera várias tentativas de verificação cruzada de representações com modelos preexistentes desenvolvidos previamente; contudo, não houve um único feedback neural de reforço breve quando padrões se encaixam de modo lógico. Falharam, pois, todas os modelos então assumidos como possibilidades lógicas do que poderia acontecer em um ambiente, talvez, tão inóspito a ele. Se o antipodiano morreu ou ficou perdido em alguma dimensão temporal, em alguma toca de coelho ou toca de rato, isso – neste momento – nos é completamente vedado.

Ao tocar a tessela da possibilidade de os humanos terem visitado seu planeta, o antipodiano foi transportado imediatamente para o mosaico do registro ficcional – para nós – de Rorty, quando então toca a tessela dos “antipodianos” da Oceania. Diante do novo mosaico, ele toca a tessela correspondente a John Anderson e uma realidade completamente outra se abre ao antipodiano, que assim experimenta sua primeira frustração ou decepção. Se ele toca mais alguma tessela diante dessa realidade, não o sabemos; sabemos, porém, que ele, de algum modo, retorna ao mosaico dos realistas australianos e, um por um, vai tocando as tesselas que se lhes correspondem – o resultado é, em cada caso, desastroso.

Quantas vezes o antipodiano repetiu esse processo, também não o sabemos; até onde ele foi depois de cada tessela tocada no mosaico dos antipodianos da Oceania, isso igualmente se mostra um enigma para nós. Não sabemos, pois, o quão profundamente ele se inseriu nas diferentes linhas do tempo concernentes aos terráqueos ou em qual direção de cada linha avançara, o que vira, o que presenciara e mesmo o que pode ter acontecido com ele. Talvez seja justamente aqui, nesse movimento de vai-e-vem, que o ilustre visitante se perdera, ou se dissolvera; o buraco de coelho se mostrava adequado ao que o antipodiano tinha por objetivo investigar, mas o vai-e-vem produzira uma toca de rato ou, pior, uma brecha temporal interdimensional.

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