M.Selva
XI. Na toca do coelho
Do ponto de vista do antipodiano, se é que se pode falar assim acerca de seu modo de ser, e se é que há nele um modo próprio de ser, o fato de se constituir numa ex-sistência sem tempo faz desta igualmente uma ex-sistência sem mundo ou, mais propriamente, sem ordem; logo, sem ser.
Sabemos que ele se movimenta numa velocidade bem acima à velocidade da luz; se isso faz com que o tempo linear conhecido por nós retroceda, torna-se praticamente impossível para um humano na Terra imaginar o modus operandi do antipodiano em sua lida interdimensional – o que se complica ainda mais no contexto da assim chamada gravidade quântica. Acrescente-se a isso o fato de nosso ilustre visitante movimentar-se nos limites da terceira dimensão do tempo, mas, algo que poderia soar absurdo para os seres humanos – que, por natureza, tendem ao saber –, sem o saber.
O antipodiano tem diante de si, naturalmente, todos os tempos possíveis. Esses tempos, que também se mostram como alternativos entre si, se manifestam sob a forma de um mosaico quando apreendidos a partir do espaço; contudo, no caso de serem apreendidos a partir do tempo mesmo, tais tempos alternativos se dão sob a forma de infinitas retas infinitas que se cruzam e transcruzam formando um círculo, em rigor, um círculo de círculos.
Os seres humanos vivem e experimentam apenas uma reta temporal infinita em sentido objetivo – mas finita em sentido subjetivo –, que se lhes apresenta tanto ao nível individual quanto ao nível histórico e social; todavia, o fato é que não existe apenas essa reta e sim n-retas, n-fluxos de tempo, cada um dos quais podendo ser trazido à consciência porquanto haja um ser capaz de introjetá-lo. Isso, contudo, pressupõe a existência de um tal ser e sua capacidade de interagir, nos limites da dimensão temporal em que ele se encontra, com as infinitas retas infinitas que se cruzam e transcruzam formando o círculo de círculos acima referido, assim como que tal ser seja capaz de interiorizar suas relações com o tempo objetivamente dado; o que só é possível quando um tal ser ele mesmo intui-se a si próprio no tempo objetivo e intui o próprio tempo subjetivo como ele mesmo, enquanto Si mesmo.
Esse, porém, não é o caso do antipodiano, cujo antipodianismo em relação aos terráqueos consiste precisamente na questão da percepção e da interiorização do tempo – que é o elemento fundamental do desenvolvimento de algo como o Eu, a mente e a consciência.
O antipodiano se mostra despossuído de uma visão completa do processo acima descrito. De um lado, ele consegue transitar pelas mais diversas linhas do tempo; de outro, ele jamais interioriza esse transitar e isso porque jamais percebe o tempo precisamente como tempo. Ele transita pelos diversos caminhos que, na toca do coelho, se lhe mostram passíveis de serem transitados, mas não sabe – de fato –, necessariamente, aonde esses mesmos caminhos o levam ou o poderão levar; donde, também, ser impossível para ele formar uma visão de conjunto dos diversos caminhos da toda do coelho e da própria toca do coelho.
Não obstante, ele sabe tudo acerca dos processos quânticos que permeiam tal conjunto e consegue uma certa descrição desses processos a ponto de distinguir padrões de processos que podem ser considerados vivos e capazes de pensar e de falar – independente do que nós, humanos, neste momento, possamos conceber como pensar e como falar.
Tais processos vivos capazes de pensar e de falar, em seu nível mais elevado, do ponto de vista do antipodiano, são exemplificados pelos seres humanos e pelos próprios antipodianos; isso com a diferença de que os humanos são capazes de propriocepção e de percepção temporal, tanto objetiva quanto subjetiva.
Contudo, mesmo com essa que poderia se apresentar como uma vantagem competitiva e civilizatória, os seres humanos ainda permanecem reclusos a apenas um pedaço de um dos caminhos da toca do coelho, mesmo sendo capazes de concebê-la em seu todo. Em suma, enquanto o ser humano percebe o tempo e o transcende em pensamento, mas não em seu ser propriamente temporal, o antipodiano, mesmo movendo-se entre tempos distintos, é incapaz de percebê-los e compreendê-los.
Diante de si o antipodiano se forma um mosaico quase interminável de tesselas, cada uma representando uma possibilidade de um acontecimento determinado, por exemplo a designação do nome de seu planeta e do nome dos habitantes deste. A formação ou antes a projeção desse mosaico representando tal possibilidade independe da existência de outros seres da mesma espécie do antipodiano no ato daquela projeção e, no caso de existirem, também independe das projeções que esses outros, por sua vez, poderiam fazer.
O fato é que, no caso do antipodiano, ele tocou a tessela que representava a possibilidade de os humanos terem visitado seu planeta – para nós, a partir de sua perspectiva, em um passado remoto, mas de nossa própria perspectiva, considerando a época em que o texto de Rorty foi publicado, em um futuro ficcionalmente estabelecido. Por mais inimaginável ou absurdo que isso possa parecer, para o antipodiano, todas as possibilidades representadas no mosaico são reais – uma não elimina a outra – e ele pode checar cada uma, assim como permanecer naquela possibilidade e nos seus respectivos desdobramentos o quanto for pertinente para ele.
Todavia, algo desse tipo parece mais difícil do que possamos imaginar; isso porque cada mosaico representa a totalidade das possibilidades de um acontecimento específico – uma espécie do que poderíamos considerar os diversos cenários ou hipóteses que formamos em torno de tal ou tal acontecimento.
Em vista disso, por exemplo, diante do mosaico temporal da designação do nome de seu planeta e do nome dos habitantes deste, o antipodiano tocou a tessela que representava a possibilidade de os humanos terem visitado o planeta, então ele foi transportado imediatamente para uma outra situação, igualmente representada em um imenso mosaico temporal em que o registro ficcional – para nós – de Rorty se mostrava adequado ao que o antipodiano tinha por objetivo investigar ou esclarecer. O ilustre visitante toca enfim a tessela correspondente ao registro rortyano e, em um átimo, se vê no planeta Terra algumas décadas – ainda para nós – anteriores à metade do século XXI.
Algo inusitado então acontece, a atenção do antipodiano se volta especialmente para a expedição que teria pousado em seu planeta e para o fato de que, nessa expedição, a filosofia teria tido representantes que, por seu turno, nomearam o planeta e, em consequência, os próprios antipodianos. Mas isso não aconteceu por causa da expedição ela mesma e sim porque, ainda no texto de Rorty, esse filósofo afirma que a nomeação do planeta e de seus habitantes se deu em homenagem a uma escola de filósofos quase esquecida cuja denominação era precisamente os antipodianos – isso pelo fato desses filósofos viverem nas antípodas da Europa, em rigor, da Escócia e da Inglaterra, quer dizer, na Austrália e na Nova Zelândia.
O antipodiano parece ter tomado essa hipótese como uma das mais sérias em vista de Rorty descrever e comparar algumas das teses dos antipodianos terráqueos com o comportamento praticamente natural dos antipodianos por ele inventados. Em vista disso, diante do novo mosaico projetado depois que ele tocou a tessela que correspondia ao registro de Rorty, uma série de possibilidades relacionadas aos filósofos australianos e neozelandeses se abriu a ele, que então tocou mais algumas tesselas, especialmente aquelas nas quais se apresentavam Anderson e Place.
Essa foi a primeira vez em toda a sua ex-sistência que o antipodiano voltou em um mosaico anterior para verificar uma nova possibilidade – é bem provável que ele tenha inclusive voltado mais de uma vez, talvez para sanar alguma dúvida –, pois, ao que tudo indica, sua decepção com esses filósofos consistiu sobretudo no fato de que eles não eram antipodianos verdadeiros e muito menos verdadeiros antipodianos. Outrossim, antes de tocar a tessela correspondente à possibilidade de os humanos terem visitado o seu planeta, o antipodiano jamais havia tocado tessela alguma; até então, tudo para ele se resolvia na mais bela das tautologias ou na tautologia perfeita, como tem que ser… em se tratando de tautologia.
O que então levou o antipodiano tocar àquela tessela? Seria o mesmo quid que também o levou a se decepcionar com os antipodianos terráqueos da Austrália e da Nova Zelândia? Ele enviou uma cópia do livro de Rorty para os seus superiores; mas, considerando sua natureza interdimensional e sua capacidade de processar informações e mover-se no espaço quântico, isso era realmente necessário? E esses superiores, eles também eram ou são antipodianos? Se são, ou não, como eles se comunicam entre si, será que eles pensam verdadeiramente ou unicamente representam possibilidades?
Já vimos o quão capaz o antipodiano é em relação à representação das coisas, mas ainda não tivemos nenhuma demonstração de sua capacidade de pensar; o mesmo caso parece ocorrer com a sua capacidade de falar, em que medida essa habilidade é necessária para ele em sua jornada em geral e na Terra em especial? Como ele falaria com um ser humano? Já vimos que ele é capaz de ler e de processar as informações codificadas em linguagem natural de praticamente todas as línguas de nosso planeta e traduzi-las para a linguagem formal da lógica e da matemática; o que também pode significar que ele seria versado nas mais diversas linguagens de programação geralmente utilizadas na Terra.
Sabemos, porém, que isso não é nem nunca foi pensamento humano no sentido mais preciso do termo; o que, por seu turno, também não é uma condição sine qua non para o advento próprio da comunicação – entretanto, saber diferenciar essas duas situações é igualmente essencial para se descobrir e avaliar de modo adequado o que aconteceu na visita do antipodiano à Austrália e à Nova Zelândia, juntamente com o porquê de sua visita a nosso planeta e da investigação que aqui ele mantém. Esse, contudo, consiste em um problema para nós, que de algum modo o descobrimos e, na medida do possível, estamos a investigar; se também o é para ele, isso ainda há que se averiguar.
Quanto ao antipodiano mesmo e a seus objetivos, observamos que estes últimos malograram de maneira inédita; isso levara o antipodiano a uma sequência de frustrações e de decepções – respectivamente, ante à ausência do objeto buscado e em relação ao objeto encontrado, mas insuficiente para fazer frente à busca levada a termo. Nas situações em que ocorreram tais frustrações e tais decepções, o antipodiano teve quase tilts, mas não tilts propriamente ditos; o que, se de um lado se mostrou positivo no âmbito de sua permanência na vigília, por outro se mostrou profundamente negativo; quer dizer, negativo no sentido de fazê-lo ter que verificar a razão pela qual suas tautologias não se constituíam como a realidade última.
Ao que parece, e esta se mostra como mais um dos elementos em vista dos quais ele se configura nas antípodas dos humanos da Terra, a realidade última – por ele percebida como uma tautologia – não é senão, para os seres humanos, uma crença pura e simplesmente pueril; essa que desde o Mênon e o Teeteto de Platão é questionada em sua pretensão de uma constituição do conhecimento científico como tal.
O mesmo acontece com a própria realidade última assim constituída, a saber: como uma tautologia, algo já questionado no Sofista, também de Platão, quando este, em sua consideração em torno do ser, afirma a necessidade da existência do não-ser. Eis aí um estado de coisas que, até onde pudemos observar, permanece irrepresentável para o antipodiano.
O irrepresentável parece-nos a pior contradição possível para um existente capaz de realizar praticamente tudo o que imagina, para o qual não haveria contradição nem contingência ou limitação de que tipo for. Um existente que, não obstante, por ser ele mesmo uma espécie de tautologia, para se manter como tal, em sua verdade tautológica, ele tem que fugir da realidade tal como os seres humanos a vivenciam ou, quando se aproxima dessa realidade, ele se fragmenta e perde toda e qualquer noção do que, de fato e de direito, significaria a proposição “tudo o que existe é real”.
Se essa proposição, no sentido em que o antipodiano a compreende é correta e mesmo verdadeira, então só existe, para ele, o que é exterior a ele, sendo ele mesmo existente apenas para um outro a ele exterior e que, nessa exterioridade, ou antes, nessa extimidade, pudesse atestar sua ex-sistência. O problema que até aqui parece emergir é que o antipodiano se mostra completamente destituído de relações com os seus iguais – se é que estes existem realmente para ele, se ele mantém com os seus “iguais” alguma relação de “igualdade”; se estes iguais de fato ex-sistem e são realmente iguais, então a única relação que se mostra possível é a de indiferença. Justamente por isso, avançando-nos aqui a uma certa dedução “lógica”, o antipodiano se limita aos seus objetivos e aos seus mosaicos temporais, os quais, contraditoriamente, anulam o próprio tempo.
Voltando à toca do coelho, uma vez que interaja de fato com qualquer uma das tesselas do mosaico temporal que tem diante dele, o antipodiano perde total controle da situação. Se diante do mosaico ele apenas contempla sub specie aeternitatis tudo o que se apresenta em seu campo visual, ao tocar uma tessela qualquer ele se transporta como que para uma outra eternidade; essa, ainda que permaneça ao lado daquela, faz com que a primeira desapareça do campo visual do antipodiano e, em consequência, que ele então se desoriente.
Mesmo quando ele consegue voltar para a primeira eternidade, isso não significa que ele, de fato, tenha entendido o processo; logo, que o tenha introjetado e portanto elaborado no sentido de uma trajetória ou de uma experiência do seu eterno presente. A verdade é que quando isso acontece, tudo o que existe se transfigura diante dele, foi assim quando ele tocou a tessela que representava a possibilidade de os humanos terem visitado o seu planeta; aquilo que existia diante dele modificou-se completamente, mesmo que apenas em nível espacial, agora havia duas eternidades – uma ao lado da outra – cujos acontecimentos se relacionavam de tal maneira que lhe era difícil dizer se eram uma ou duas, duas ou quatro e assim por diante.
A toca do coelho aumentava de tamanho exponencialmente, tal como o universo em expansão rumo à entropia absoluta e isso o amedrontava de uma maneira sem precedentes, a ponto de suas fibras Gamma parecerem saltar de seu cérebro, com picos de alta frequência na amígdala e de adrenalina que terminaram por alterar sua atenção, memória e a própria percepção da realidade. Somente nas três ou quatro vezes em que o antipodiano tocou uma tessela em resposta à primeira tessela tocada, a eternidade se quadruplicou para ele; disso emergiram algumas consequências em seu cérebro, assim como no restante de seu corpo.
Nestas circunstâncias, o antipodiano ativou primeiramente o seu sistema nervoso simpático ou algo semelhante, com o aumento da frequência cardíaca, pressão arterial, sudorese e dilatação das pupilas. Também houve a liberação de adrenalina e noradrenalina, mobilização de glicose e ácidos graxos para energia, aumento da vigilância e preparação para ação rápida, com efeitos imediatos na percepção e cognição.
Sua atenção se tornava cada vez mais focada e mais estreita, a seleção sensorial foi reforçada para sinais de ameaça com redução do processamento de estímulos neutros, tudo indicava que um novo tilt se aproximava. Esses tilts, ao que parece, estão completamente ligados à incapacidade de o antipodiano lidar com o tempo e, diante disso, funcionam como o que seria, para nós, uma desaceleração abrupta do tempo; no caso dele, um desligamento.
Isso porque, nas condições em que ele estava, e como sua percepção do tempo se dá pura e simplesmente em seus mosaicos temporais, o que parece haver é tão só o travamento da passagem de uma tessela a outra, isto é, uma desaceleração do movimento dos diferentes quadros no mosaico em questão.
Nesse contexto, algumas tesselas começaram a brilhar mais que outras, como se o antipodiano estivesse tendo um fortalecimento de memórias emocionais sensoriais, a saber, algumas tesselas ficavam mais e mais vívidas e fragmentadas, a ponto de o antipodiano sentir na pele o contato com as imagens e sons que emanavam das referidas tesselas com as correspondentes sensações físicas. Em termos humanos, poderia se dizer que ele estaria tendo um ataque de pânico ou pelo menos de ansiedade.
Embora pareça, para nós, que o antipodiano tenha tocado apenas quatro tesselas, em cada mosaico aberto ele interagiu com milhares de outras. De uma eternidade ele passou a reagir a quatro e outras mais, das quais talvez não tenhamos nos dado conta. O fato é que, devido à repetição ou exposição a esse estado de coisas, houve uma alteração brusca em seus padrões de hiperatividade amigdalar associados a respostas exageradas de suas fibras Gamma (relacionadas ao que os humanos denominam ‘medo’) e dificuldade de extinção das tesselas referentes a eventos traumáticos.
Como o antipodiano também não tem memória, pelo menos como nós temos, pois suas “memórias” seriam pura e simplesmente as tesselas dos mosaicos que ele visualiza diante de si, ele não tem como suprimi-las ou elaborá-las, não tem como escolher uma em relação a outra e assim por diante, e muito menos ordená-las uma depois da outra; tudo se passa como se ele vivesse todas a um só e mesmo tempo, eternamente.
Até a sua verificação da tessela referente à possibilidade de os humanos terem visitado o seu planeta, nada desse tipo havia acontecido; o que para nós se mostra absolutamente intrigante, pois isso implicaria que o antipodiano jamais tivesse interagido com outro antipodiano tal como os humanos interagem e como interagiram com os antipodianos na ficção de Rorty.
Talvez estivesse aí o motivo de o antipodiano haver tocado àquela tessela! E por que não dizer, a título de hipótese, que seu fracasso na Austrália e na Nova Zelândia não tenha sido pela sua inabilidade em iniciar e manter um diálogo – portanto usando a fala – algo que possivelmente ele jamais tenha feito? Se isso é assim, existiriam de fato outros antipodianos? E no caso de existirem, eles dialogariam entre si tal como os humanos dialogam?
Dessa vez o antipodiano não teve tilt, já o sabemos, mas os acontecimentos até aqui narrados causaram uma diminuição importante do controle do córtex pré-frontal, sobretudo no concernente às fibras relacionadas ao que denominamos emoções, e alterações no hipocampo que prejudicaram a contextualização e a integração narrativa das tesselas.
De modo cada vez mais crescente, o antipodiano teve que lidar, nos seus limites e conforme suas próprias denominações, com o que os humanos designam fadiga, distúrbios do sono, problemas gastrointestinais e imunossupressão relacionados à ativação contínua do eixo do estresse. Cada vez mais o seu crescente multiverso foi se tornando mais e mais ameaçador, a ponto de o antipodiano começar a interpretar estímulos ambíguos como perigosos devido à amplificação dos sinais de divergência em relação às suas percepções já fixadas.
É possível que, durante as interações com os “antipodianos” da Austrália e da Nova Zelândia, ele tenha experimentado sensações de irrealidade, despersonalização ou desrealização por causa da sobrecarga sensorial e de certo desligamento parcial do processamento associativo; exatamente o que, de alguma maneira, o preservara de mais um tilt. O fato crucial, porém, foi que algumas tesselas se fragmentaram ou se apagaram por completo, enquanto outras brilhavam de modo excessivamente intenso; estas, enfim, pareciam saltar para fora do mosaico – ou dos mosaicos –, desintegrando-os e permanecendo, assim, destituídas de integração. Mas, em suma, por que tudo isso aconteceu?
Ao que parece, o antipodiano excitou como nunca suas fibras Gamma em resposta à possibilidade de a toca do coelho transformar-se numa toca de rato, como aquela de Paquette, descrita por Victor Hugo em Notre-Dame de Paris (1831/2015, p. 236). Teria sido esse acontecimento o resultado de ele ter tocado a quarta tessela (do quarto mosaico) e, portanto, uma possibilidade real para ele no âmbito de sua visão em um mosaico de mosaicos?
Ou será que o antipodiano anteviu de algum modo que ao tocar certa sequência de tesselas – em mosaicos distintos –, ele estava na verdade criando uma toca de coelho e, na sequência, uma toca de rato? Se foi este o caso, ele anteviu tais possibilidades independentemente de mosaicos ou porque, de algum modo, tudo isso se lhe mostrou em um mosaico de mosaicos?








