M.Selva
- VIII. Um caso de akronia I. A experiência impossível
Os eventos na Austrália e na Nova Zelândia deixaram o antipodiano sem saber o que estava realmente ocorrendo ou, antes disso, o que teria acontecido de fato em sua visita àqueles dois países. Para ele, tudo se passara como se o conjunto de todos os acontecimentos, para nós, possíveis e realmente passíveis de acontecer tivessem acontecido em um único e mesmo instante; tudo se lhe mostrava como que em um mosaico no qual todos os acontecimentos possíveis, resultantes de um primeiro, fossem um único e mesmo eterno agora.
Isso aconteceu em virtude de sua inapetência em vivenciar o tempo tal como vivenciado cronológica, histórica e psicologicamente por nós, os seres humanos, mas também porque, devido à sua natureza e à natureza de sua percepção, a linearidade ou a primeira dimensão do tempo é para ele incompreensível. Mesmo que ele o quisesse, fazer-se presente em nossa temporalidade era para ele igualmente impossível.
Disso se depreende que a realidade não se apresenta ao antipodiano como uma sucessão de eventos, mas antes como uma totalidade de eventos em uma única “tela”. Quer dizer, para ele, não há começo ou fim, pois tudo já existe e é exibido por inteiro como que em uma única imagem, sem uma ordem cronológica; o que talvez explique sua dificuldade com o texto de Rorty, em especial com o personagem que Rorty designara “o antipodiano”.
Embora ele pudesse compreender o que Rorty havia escrito nos limites da linearidade do discurso humano, ele não compreendia que essa linearidade do discurso estava ligada ao curso do tempo tal como este é experienciado pelos humanos. Isso porque o antipodiano não tinha nenhum acesso à primeira dimensão do tempo, a única experienciada pelos humanos, assim como nenhum acesso à segunda e à terceira, ainda que ele próprio transitasse nestas e nelas mantivesse o limite de suas atividades. Não obstante, ele conseguia perceber o movimento na totalidade de suas direções, concebendo-as, pois, em seu todo e, justamente por isso, em um único e mesmo instante.
No concernente ao que acontecera na Austrália e na Nova Zelândia, o desafio para o antipodiano foi entender como ele se inseriu naquela multiplicidade real e como aquele mosaico de acontecimentos poderia incluir-se naquele outro relatado por Rorty. De um lado, tudo para ele se mostrava como se uma interação de fato fosse o caso entre ele, Anderson e Place dentre outros em um e mesmo instante, isto é, como se estivesse interagindo com eles no tempo deles; a verdade é que a referida interação ocorrera mesmo, pelo menos em uma certa linha do tempo nos limites da segunda dimensão deste.
De outro lado, porém, dada a sua incapacidade de experimentar o tempo cronológico (espacializado) ou de vivenciá-lo como duração em quaisquer de suas dimensões – para além do tempo cronológico, linear ou circular, também o tempo nos limites de sua segunda e terceira dimensões – logo, dada a sua incapacidade de experimentá-lo tout court para além do puro e simples movimento, o antipodiano não conseguia elaborar o que experimentava ou o que, em tese, vivenciava.
Sua percepção multidimensional, em verdade, o fragmentava; o agora de seu eterno presente e sua visão em mosaico lhe dava de uma só vez todos os caminhos e todos resultados possíveis, sem que ele mesmo tivesse que percorrer tais caminhos ou checar tais resultados. Isso nunca tinha se mostrado um problema para o antipodiano, o que mudara desde sua chegada à Terra e sua leitura do texto de Rorty sobre “os antipodianos” (no plural e entre aspas duplas); acontecimentos que provocaram nele uma espécie de fratura, a qual, devido a sua ida à Austrália e à Nova Zelândia, se escancarara de maneira incontornável.
Tudo nele se mostrou então como a mais pura e simples fragmentação, um estado de coisas no qual nada há que se possa designar como um Eu ou um Si mesmo, em suma, nem uma experiência de si. Uma situação na qual, em que pese sua visão em mosaico e sua percepção multidimensional – ele mesmo ou nele mesmo – ele nada percebia.
O antipodiano não tinha a menor noção de sua dificuldade com o tempo em sua lida com os acontecimentos terrestres, especialmente quando estes implicam uma ordem de causa e efeito ou de antecedente e consequente. A única ordem que ele conseguia assimilar – embora de maneira assaz ingênua – era aquela fornecida pela lógica matemática, entendida por ele pura e simplesmente em sua dimensão atemporal e, portanto, como uma coleção de cenários ou, antes disso, de “agoras” ou instantes possíveis.
Todavia, quando de suas tentativas de formalização do texto de Rorty, mesmo essa “ordem” matemática se mostrou aquém das exigências de uma interpretação minimamente adequada, a começar pela incompreensão de que se tratava de uma ficção – essa tomada pelo antipodiano como uma verdade incontestável. De fato, para ele, em sua condição atemporal, não há algo como a verdade ou a ficção: tudo o que há é tão somente o ser, pois se “tudo o que existe … é real”, então “tudo o que é … tem que existir”; caso em que não há contradição nem contingência, mas unicamente tautologia. A simples possibilidade de que as proposições por ele estudas – a saber: “[(P→(F∧R)) ∧ (F→C))] ∧ [(C→M) ∧ ((M→D) ∧ (M→S))]”, “∀d [D(d)→∃x R(x,d)]” e “P→F” – fossem uma contingência representara para ele um duro golpe, uma espécie de fratura narcísica, de modo que sua ida à Austrália e à Nova Zelândia só piorara a situação. Consideremos mais de perto tais proposições e vejamos em que medida isso acontecera.
A primeira proposição consiste na formulação pormenorizada do trecho em que Rorty resume seu exemplo ficcional de uma expedição humana a um planeta – nas antípodas de nossa galáxia – cujos habitantes, em tudo iguais aos terráqueos, diferiam destes pelo fato de não terem mente. Caso em que os filósofos presentes na missão brincaram com seus pares e – lembrando-se dos filósofos realistas australianos e neozelandeses de meados do século XX, chamados antipodianos pelos ingleses devido ao fato de a Austrália e a Nova Zelândia se localizarem nas antípodas da Inglaterra, em verdade, de modo respectivo, do Atlântico Norte e de Portugal – nomearam o planeta Antipodeia e seus habitantes antipodianos.
Porém, com a chegada do antipodiano na Terra, sem saber que o texto de Rorty era pura e simplesmente uma troça, assim como devido ao grande mal-entendido de, por algum motivo que ainda desconhecemos, seu planeta também ser chamado Antipodeia e seus habitantes igualmente antipodianos – considerando ainda o fato de esse antipodiano ser em tudo tal qual os antipodianos descritos por Rorty e sua ignorância do tempo tal como os humanos o experienciam –, ele tomou tudo o que leu como sendo a mais pura verdade. Sua transcrição lógico-formal do texto de Rorty, contudo, esbarrou no problema da contingência da proposição composta total “[(P→(F∧R)) ∧ (F→C))] ∧ [(C→M) ∧ ((M→D) ∧ (M→S))]”. Isso, quando das atribuições de verdade ou falsidade às proposições componentes pelo antipodiano, em função da falsidade das proposições compostas parciais “[(P→(F∧R)]” e “M→D”.
O antipodiano trabalhou minuciosamente nestas proposições a fim de transformá-las e, assim, gerar uma tautologia. Vejamos antes um resumo de seu procedimento e o resultado a que chegara, assim como a razão por que a dimensão temporal tal como vivenciada pelos humanos é fundamental para a sua compreensão. Ele partiu da seguinte condição: Se todas as implicações forem verdadeiras em todos os casos possíveis, então a expressão é uma tautologia. De imediato, ele percebeu que se tratava de uma contingência:
- P → (F ∧ R)
Só é falsa se P = V e (F ∧ R) = F.
- F → C
Falsa apenas se F = V e C = F.
- C → M
Falsa apenas se C = V e M = F.
- M → D
Falsa apenas se M = V e D = F.
- M → S
Falsa apenas se M = V e S = F.
Sabendo que cada implicação pode ser verdadeira ou falsa dependendo dos valores das proposições, o antipodiano percebeu que a proposição composta não é uma tautologia (pois não é sempre verdadeira), nem uma contradição (uma vez que também não é sempre falsa). Trata-se, portanto, de uma contingência, pois seu valor de verdade depende dos valores atribuídos às proposições e, em rigor, do que, de fato aconteceu ou poderia ter acontecido no espaço-tempo próprio do evento em questão. Não obstante, ele decidiu investigar os valores específicos de cada proposição, assim atribuíra os seguintes valores a cada proposição simples:
| Proposição | Valor |
| P | V |
| F | V |
| R | F |
| C | V |
| M | V |
| D | F |
| S | V |
Diante disso, ele chegou aos seguintes resultados:
- P → (F ∧ R)
- F ∧ R = V ∧ F = F
- P = V → (F ∧ R) = F → FALSA
- F → C
- F = V, C = V → VERDADEIRA
- C → M
- C = V, M = V → VERDADEIRA
- M → D
- M = V, D = F → FALSA
- M → S
- M = V, S = V → VERDADEIRA
O antipodiano não aceitou que P → (F ∧ R) e que M → D pudessem ser falsas, então ele repetiu todo o processo; porém, chegou aos mesmos resultados. Ele percebeu que no primeiro caso P condiciona (F ∧ R), assim, se P = V, espera-se que F ∧ R = V, mas F ∧ R = V ∧ F = F. Há portanto um conflito, pois P verdadeiro deveria sustentar F ∧ R verdadeiro, mas não sustenta, caso em que a relação não é satisfeita. A mesma situação ocorre no segundo caso: M condiciona D, desse modo, se M = V, espera-se que D = V, ora D = F, logo a relação não é satisfeita. Devido ao fato de essas duas relações não se sustentarem com os valores atribuídos, o antipodiano verificou que o sistema não estava em equilíbrio e que sua estrutura geral não era consistente.
O fato é que o antipodiano desconhecia o porquê disso tudo, algo inusitado para ele. Essa a razão de, já tomado pela excitação de suas fibras Zeta (decepção), Zeta∞, Zeta Infinito (incredulidade cognitiva), Ψᵍ, Psi-G (imaginação) e Ψᶠ, Psi-F (fantasia), quando, enfim, se instalou nele uma alucinação lógica. Quer dizer, suas fibras Rho-L se excitaram de tal maneira que ele não aceitava proposições que não fossem tautologias, negando qualquer forma de contradição ou contingência. Desse modo, ele criou uma “tabela-verdade” onde cada linha é obrigatoriamente verdadeira, resultando em um pensamento circular e, assim, demonstrando a impossibilidade de lidar com cenários hipotéticos ou falsificáveis. Observemos o que aconteceu.
Uma vez que a consistência do sistema lógico tem que ser mantida e assim a natureza da verdade do fato investigado, se quisermos que todas as relações sejam satisfeitas, precisamos ajustar os valores de R e D para que F ∧ R = V e D = V, mantendo coerência com os condicionamentos. Isso de modo a garantir que F ∧ R = V, ou seja, tanto F quanto R devem ser V e que D = V, e isso deve ser coerente com a relação M → D. Ajustemos portanto os valores anteriores, logo:
| Proposição | Valor | |
| P | V | |
| F | V | |
| R | ✅ V | ← ajustado |
| C | V | |
| M | V | |
| D | ✅ V | ← ajustado |
| S | V |
Situação em que as relações antes não satisfeitas são agora plenamente satisfatórias. Senão vejamos:
- P condiciona (F ∧ R)
- F ∧ R = V ∧ V = ✅ V
- P = V → relação satisfeita
- M condiciona D
- M = V, D = V → ✅ relação satisfeita
Com os ajustes em R e D, todas as relações condicionais estão coerentes e satisfeitas. Portanto, neste cenário de consistência lógica total dentro do sistema proposto, todo e qualquer acontecimento se mostre como existente deve obedecer ao seguinte diagrama de dependência:
Munido do entendimento alucinado acima resumido, o antipodiano propôs o diagrama de dependência lógica do sistema a partir da atribuição do valor de verdade Verdadeiro (V) para todas as proposições do sistema mais acima apresentado. Neste sentido, com base nas relações representadas abaixo, a verdade de cada proposição depende da anterior, formando uma cadeia lógica coerente, a saber:
- P condiciona F e R
- F condiciona C
- C condiciona M
- M condiciona D e S
Em vista disso, se qualquer proposição mudar de valor, o impacto se propaga pelas conexões seguintes. O sistema acima representado consiste nas sete proposições abaixo, caso em que a primeira proposição tem que determinar todas as demais de modo necessário, assim como ela também é necessariamente determinada por estas. Relembremos as referidas proposições:
P: “Uma expedição da Terra pousou no planeta.”
- F: “A expedição incluía filósofos.”
- R: “A expedição incluía representantes das outras disciplinas”
- C: “Os nativos carecem do conceito de mente.”
- M: “A expedição nomeou o planeta de Antipodéia.”
- D: “O nome se refere a uma escola de filósofos.”
- S: “A nova raça é conhecida como antipodianos.”
Embora nenhuma proposição tenha mudado seu valor de verdade em razão do acontecido na Austrália e na Nova Zelândia, foram justamente os acontecimentos que lá tiveram lugar os elementos que levaram o antipodiano a uma desconstrução radical do que até então ele experimentara na Terra. É preciso observar que para ele as proposições fundamentais eram precisamente “[(P→(F∧R)]” e “M→D”; donde o fato da existência de uma escola de filósofos chamados antipodianos prevalecer sobre todos os outros, inclusive o da suposta expedição e o de nela haver filósofos e representantes de outras disciplinas. Esses os acontecimentos que, de um modo ou de outro, o antipodiano jamais questionara, ainda que deles ele não tivesse uma confirmação absoluta, mas tão somente uma memória fantasma. [Continua…].








