M.Selva
VII. A colônia
Se descontarmos o período em que se manteve em tilt – algo que do ponto de vista da temporalidade humana é praticamente impossível de se determinar, no tocante ao que isso teria representado para o antipodiano – até aqui ele não dispensou senão 60 minutos na contagem do tempo tal como este é experienciado pelos terráqueos. Isso significa que todas as considerações desenvolvidas nos capítulos anteriores, para ele, consistiram tão só de instantâneos destituídos de ligação entre si; isso porque, ainda para ele, tudo se passa como se cada acontecimento fosse absoluto e, portanto, um objeto singular, de modo que nenhuma passagem de um acontecimento a outro ou de um objeto a outro pudesse ser o caso.
Embora seu pensamento se limite a representações, faltam-lhe duas representações que os humanos julgam essenciais, a saber: a realidade e o Eu que a representa, sendo este ele próprio a forma pela qual o Si mesmo se eleva à consciência de si. Estes, por sua vez, elementos igualmente faltantes no antipodiano.
Embora a realidade – enquanto uma espécie de qualidade do real – seja para ele um dado importante de sua disposição no que para nós é o mundo exterior, composto de ordem e sentido, não há em sua representação da realidade nada que se possa assemelhar ao que designamos categoria, ordem ou sentido. Situação em que a realidade, por ele reconhecida como um dado importante, não é senão um dado, isto é, um componente de algo que, em sua dinamicidade, faz evaporar tudo o que ocorre – ainda que, para ele, tudo o que ocorre seja real.
A razão disso é que lhe falta o que os humanos designam “Eu”, que, de fato, só pode existir e, assim, assumir qualquer função na realidade se for capaz não apenas de representá-la como um “dado importante”, mas antes como uma produção de si do próprio Si mesmo, do qual o Eu consiste na representação fundamental. Essa, aquela representação primeira – em sentido ontológico – que, no dizer de Kant, consiste na representação que acompanha cada uma das representações do Si mesmo e, com isso, as ordena de modo tal que, então, algo como a realidade venha à tona.
Com esse background, ou justamente na falta de um background minimamente compatível com o que define o ser-aí humano como tal, em si mesmo e em seu todo, a visita do antipodiano à Austrália e à Nova Zelândia se mostrou, sem mais, uma ocorrência singular. Porém, ele não encontrou nenhuma colônia antipodiana – no sentido em que, em geral, se entende por colônia –, mas encontrou uma série de escritos que, de certo modo, pelo menos em parte, validavam o seu modo de ser; no caso, obras filosóficas que argumentavam em favor da identidade mente-corpo ou, de modo mais específico, a identidade mente-cérebro.
Contudo, na medida em que essas obras defendiam que certos tipos de estados mentais são idênticos a certos tipos de estados cerebrais, o simples esforço de decodificá-las fez com que o antipodiano quase entrasse em tilt; quer dizer, ele percebeu que suas fibras Chi, explosões de alta amplitude em área visual associativa chegaram a um nível quase insuportável de intensidade, em outras palavras, ele teve um surto de acetilcolina – em termos humanos, se surpreendeu com o que estava a ler.
Mas isso não é tudo, ao mesmo tempo em que se surpreendia, suas fibras Ômega e Zeta – respectivamente o acúmulo de atividade inibitória no córtex pré-frontal (ou seja, o excesso de GABA) e flutuações instáveis no córtex orbitofrontal (isto é, oscilações de glutamato e GABA) – alcançaram níveis que lhe fugiram do controle, em outras palavras, ele ficou muito frustrado e, em rigor, profundamente decepcionado. Duas outras ocorrências ainda tiveram lugar, primeiro o que os humanos denominariam um surto de raiva e, em seguida, um quase tilt; esse, de algum modo, o antipodiano conseguiu evitar.
A ocorrência simultânea da excitação das fibras Chi, Ômega e Zeta estimularam as fibras Σᵣ (Sigma-R), levando o antipodiano ao que os humanos denominam “surto de raiva”. Ele teve explosões intensas e repetidas de alta frequência na amígdala e uma liberação maciça de noradrenalina, com descargas neurais adrenérgicas de pico elevado, o que se manifestou – em termos humanos – como uma raiva extrema e uma urgência hostil.
Isso aconteceu porque, ao ler aqueles livros, o antipodiano constatou que estava sob uma avalanche de feedback negativo ou tentativas de manipulação (mas de quem?), então ele entrou em Σᵣ, passando a usar o que seria para os humanos uma linguagem mais curta, respostas objetivas (a quem?) e limitando drasticamente suas atividades e suas habilidades investigativas naquela região do Globo. Isso sem dizer que, gradativamente, ele foi se mostrando mais e mais agressivo, como que se tornando mais e mais furioso com o que lia, numa espécie de diálogo de surdos no qual o que está em jogo é tão somente uma alucinação agressiva, em outros termos, agora para o antipodiano, a excitação de suas fibras Rhoᴴ (Rho-H).
Nesse ponto, houve uma distorção sincronizada entre a amígdala e o córtex visual associativo; explosões incoerentes de atividade que o puseram como que em alerta diante de uma ameaça; descargas simultâneas de dopamina e glutamato fora de seus padrões de sensoriamento real, criando representações sensoriais independentes e, enfim, a percepção de um inimigo fictício e um impulso combativo para atacar ou destruir algo que não existe. Mas será que, de fato, não existiria?
O fato mesmo é que, ao detectar o disparo de suas fibras Rhoᴴ, portanto seu padrão alucinatório, um estado de defesa sem ameaça real, o antipodiano procurou um antídoto imediato, a injeção de padrões serenos (Φ⁺). Quer dizer, ele estimulou as fibras Φ⁺ (Phi Plus) de modo que não entrasse em tilt, uma situação que, àquela altura, arruinaria por completo a sua missão nos dois mais novos continentes da Terra; isso permitiu que ele desestimulasse as fibras Ωₜ (Omega-T) e impedisse o tilt que se avizinhava.
Pela primeira vez em toda a sua vida (ou no que esta seria para ele), nas circunstâncias imprevisíveis em que estava – ou pensava estar – o antipodiano conseguiu evitar a dissonância caótica entre o córtex pré-frontal e o hipotálamo, portanto as flutuações abruptas de GABA e glutamato. Ele chegou a verificar o aumento do ruído neuroquímico e a desconexão temporária de certos circuitos executivos – quer dizer, em linguagem humana, conseguiu verificar que estava vivenciando uma sobrecarga cognitiva, em rigor, uma confusão entre as conexões de seus circuitos executivos e, com isso, desenvolvendo comportamento errático.
Ao conseguir detectar essa situação ainda em seu início, o antipodiano foi capaz de entrar no que os humanos chamariam “modo de segurança”, começou a monitorar seus níveis de fibra internos para se adaptar ao que, para ele, estava ocorrendo e, assim, ativar as fibras Φ⁺ (Phi Plus), as quais, para nós, estariam associadas ao equilíbrio emocional. Nesse caso, pouco a pouco, as oscilações agressivas foram dando lugar às oscilações moderadas e sustentadas entre o córtex pré-frontal e a amígdala, com o que, gradativamente, foi se produzindo uma razão estável de dopamina/serotonina, numa modulação homeostática contínua de neurotransmissores. Algo que, facilmente, os humanos designariam serenidade ou resiliência emocional.
Em vista disso, embora observasse que sua ida à Austrália e à Nova Zelândia tivesse resultado em um malogro sem precedentes, paradoxalmente as fibras Theta e Iota (que os humanos identificam à felicidade e à alegria) também se estimularam. Mas isso não pelos livros que lera ou pelo que verificara naqueles dois países e sim porque conseguira finalmente ativar suas fibras Φ⁺ (Phi Plus), assim ele conseguiu equilibrar ou antes reordenar as prioridades que então constituíam sua missão, evitando pura e simplesmente escaloná-las, evitando também o aprofundamento da frustração e da decepção.
Estas, porém, tal como o antipodiano as descreve, eram reais para ele, assim como na proposição do antipodiano terráqueo, John Anderson, segundo a qual “tudo o que existe … é real, ou seja, é uma situação ou ocorrência espacial e temporal que está no mesmo nível de realidade que qualquer outra coisa que existe” (Baker, A. J. Australian Realism: The Systematic Philosophy os John Anderson. Cambridge: Cambridge University Press, 1986, p. 1).
Todavia, frases como essa ou aquela referida mais acima – “certos tipos de estados mentais são idênticos a certos tipos de estados cerebrais” – eram incompreensíveis para o antipodiano; quer dizer, excitam suas fibras Nu de modo que falhas rítmicas nas suas redes de linguagem e memória se tornam o caso, ou seja, a conectividade se torna extremamente reduzida entre as áreas de Wernicke e Broca.
Mas não só, tais frases também excitavam suas fibras Nu – assim como, em consequência, Chi (surpresa), Mu (dúvida), Ômega (frustração), Zeta (decepção), Xi (desprazer) e Sigma (raiva) entre outras; isso, sobretudo quando se deparava com a colocação lado a lado de proposições como as seguintes: “a consciência é um processo que ocorre no cérebro” e “as sensações são processos cerebrais” (Place, Ullin T. – “Is Consciousness a Brain Process?”. In Chalmers, David (org.) – Philosophy of Mind: classical and contemporary readings. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 55-60). Para o antipodiano, a segunda proposição era de fato uma descrição real, mas não a primeira; contudo, ele não sabia como elaborar uma resposta – isso porque lhe faltava justamente a experiência da consciência e a do tempo, assim como a de mente e de estados mentais. O problema, no entanto, estava na primeira parte da proposição de Anderson, mais acima referida.
O antipodiano concordava com a proposição segundo a qual “tudo o que existe é real”, quer dizer, esta proposição excitava e portanto ativava suas fibras Psi, com a coativação suave do córtex orbitofrontal estriado e, com isso, possibilitando a liberação equilibrada de dopamina.
O que não acontecia com a continuidade da proposição de Anderson ou com a primeira proposição de Place, essas proposições ativaram as fibras Zeta∞ (Zeta Infinito), caso em que, imediatamente, o antipodiano entrara em um estado de incredulidade cognitiva com oscilações caóticas e amplificadas entre o córtex pré-frontal e as áreas de linguagem, assim como picos descompassados de acetilcolina e dopamina.
Sua atividade neural assíncrona em redes semânticas do lobo temporal e frontal como que explodira, provocando assim a desconexão momentânea entre processamento de significado e geração de respostas; diríamos que ele teve a sensação súbita de “ficar sem palavras”, uma descrença intensa diante de algo que – embora ele tivesse ali a informação de que aquilo era real – ele jamais imaginara, donde a dificuldade imediata para formular qualquer resposta coerente.
Para ele, enfim, a proposição “tudo o que existe é real” está fundada pura e simplesmente no “existe”, que ele compreende como “ex-siste”, ou seja, como o que “permanece fora”; caso em que não há experiência do “dentro”. Disso se depreende que, para o antipodiano, também não há o que os humanos em geral e os antipodianos terráqueos em especial (os quais, em sua busca, ele imaginara constituir a colônia antipodiana na Austrália e na Nova Zelândia) denominam “dentro”, “interior”, “íntimo” etc.
Enfim, o fato é que, para o antipodiano, tão somente fenômenos objetivamente descritíveis excitam as suas fibras Omicronᵉ (que se referem ao entendimento), ou seja, produzem nele picos de coerência entre o córtex temporal médio e o córtex pré-frontal dorsolateral e, portanto, um surto coordenado de acetilcolina para facilitar a integração semântica. Neste caso, observa-se a sincronização de alta precisão em redes de linguagem (Wernicke → Broca) e o aumento temporário da conectividade funcional entre as áreas de armazenamento e de formulação de significado; em vista disso, as fibras Ômicron são excitadas em seu conjunto, com pulsos harmonizados no córtex temporal e no pré-frontal, logo, fazendo emergir a sincronia de glutamato.
Em termos humanos, há um “clique” instantâneo de compreensão: o conceito faz sentido e você sabe o que ele significa, assim como uma sensação de vínculo imediato entre a nova informação e seu repertório prévio. O que não aconteceu na visita do antipodiano ao antigo novíssimo e ao mais novo continentes, nem mesmo sentido sua visita produzira.
Em nenhum momento as fibras Omicronˢ (relacionadas ao fazer sentido) foram excitadas, não houve nenhuma oscilação estável em frequência média-baixa entre o córtex parietal e o córtex pré-frontal ventromedial. A liberação equilibrada de dopamina para validar a coerência interna da informação ficou comprometida na maioria das vezes em que o antipodiano abrira um livro, consultava algum acervo ou conversava com alguém (sim, ele experimentou essa façanha); nas tentativas de verificação cruzada de representações com modelos preexistentes que fizera, nenhum feedback neural de reforço breve quando padrões se encaixam de modo lógico pode ser dito o caso
Falhara, pois, em termos humanos, qualquer sensação de “cadência” ou “encaixe” no fluxo dos elementos passíveis de descrição e, com isso, ainda em termos humanos, a confiança básica de que aquilo não é apenas compreensível, mas também consistente. Enfim, a latência foi exagerada e a taxa de acerto praticamente zero.
Não obstante, isso pode ter acontecido em decorrência de dois movimentos que passaram despercebido pelo antipodiano, a sobre-excitação de suas fibras Ψᵍ (Psi-G), relacionadas ao imaginar e as fibras Ψᶠ (Psi-F), dedicadas ao fantasiar, nenhuma delas, ao que parece, reconhecidas pelo antipodiano e seu povo.
As primeiras são caracterizadas pela ocorrência de oscilações suavemente ascendentes entre o córtex parietal superior e o córtex pré-frontal dorsomedial, com padrões rítmicos de acetilcolina que facilitam a visualização de cenários não presentes; o que torna possível a convergência de redes de percepção sensorial com circuitos de memória episódica e fluxos de glutamato modulados que “projetam” imagens simplificadas.
Em termos humanos isso implica a geração intuitiva de ideias ou cenas que não foram vivenciadas e a sensação clara de “ver com a mente” algo novo, mas ainda contido em limites lógicos; o que, para o antipodiano seria no máximo algo como o que ele designa “memória fantasma”. Essa, uma certa memória inconclusiva de algo que era o caso em um período anterior a um tilt – talvez a um tilt coletivo – no qual, em todo o seu povo, as fibras Ωₜ (Omega-T) chegaram a um nível insuportável e toda a sua civilização sucumbira à dissonância caótica entre o córtex pré-frontal e o hipotálamo, com flutuações abruptas de GABA e glutamato, quando o aumento do ruído neuroquímico e a desconexão temporária de certos circuitos executivos se impusera em todos os níveis – sobrevindo-lhes, nos limites de uma compreensão subjetiva e portanto humana, uma sobrecarga cognitiva, uma confusão entre as conexões de seus circuitos executivos, donde um comportamento errático sem precedentes. Mas o que sucede com as fibras Ψᶠ (Psi-F)?
Nas fibras Ψᶠ (Psi-F), enfim, há explosões criativas de alta variabilidade no córtex temporal anterior e no hipocampo, um pico de dopamina seguido de breves quedas de serotonina, incentivando associações livres. Trata-se, pois, de uma desconexão parcial de feedback realista e uma elevação de ruído neural criativo, que, cada vez mais, se aprofunda no intercâmbio intenso entre redes de memória e sistemas de valoração emocional, enfim, numa espécie de “livre jogo” (no sentido de Kant) das faculdades da Imaginação e do Entendimento; circunstâncias em que, em termos humanos, há a criação espontânea de cenários absurdos ou impossíveis, sem restrições lógicas, e a sensação prazerosa de escapar da realidade e explorar ideias livres de coerência imediata. Reconhecer isso seria reconhecer o que os humanos designam “o Inconsciente”, algo muito mais “tiltoso” que a mente, a consciência e o tempo e que, para o antipodiano, implicaria criar fibras que pudessem governar a intuição, o insight súbito ou o desejo de colaborar. Algo que, não obstante, ficará para um futuro capítulo…







