Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
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O Antipodiano – IV. Grandeza e miséria de uma existência sem tempo

 M.Selva   IV. Grandeza e miséria de uma existência sem tempo Pronto para sua expedição à Austrália e à Nova Zelândia, o antipodiano deparou-se com uma situação inusitada.

O Antipodiano –  IV. Grandeza e miséria de uma existência sem tempo

 M.Selva

IV. Grandeza e miséria de uma existência sem tempo

Pronto para sua expedição à Austrália e à Nova Zelândia, o antipodiano deparou-se com uma situação inusitada. Ele simplesmente não conseguia identificar o tempo cosmológico em suas três dimensões: seja em sua interação com as dimensões correlacionadas do espaço, igualmente cosmológico, na conformação do espaço-tempo tal como os humanos o conhecem e o experienciam; seja em sua interação com a dimensão tripartite do tempo histórico assim experenciado a partir do advento do sujeito moderno e da assim chamada modernidade.

Seu único trunfo era a matemática, que, de um lado, poderia remediar sua inaptidão na lida com o tempo e, de outro, certamente lhe permitiria a construção das tabelas-verdade com as quais estava apenas parcialmente familiarizado e das quais necessitava para as suas investigações do paradeiro da presumida colônia antipodiana na Terra. O fato era que o antipodiano também se mostrava inapto para construir tabelas-verdade de acontecimentos terrestres cujos resultados não fossem pura e simplesmente tautologias. Porque desconhecia o significado de contradição e o de contingência, ele se mostrava cada vez mais perdido em suas verdades tautológicas.

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Embora o antipodiano se obrigasse a checar in loco cada informação recebida ou encontrada em suas andanças pelo planeta Azul, isso não resolvia o problema da verificação das proposições que se lhe mostravam necessárias para a sua jornada. Se de um lado ele era extremamente rápido e preciso em tudo o que fazia, de outro suas habilidades se limitavam à lógica e à matemática, especialmente à mecânica, isto é, sua extrema capacidade em lidar com o movimento dos corpos não possuía, em contrapartida, a capacidade de medir ou descrever adequadamente a duração – isto é, o tempo – e a sequência dos eventos daquele movimento.

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Suas maiores dificuldades, porém, consistiam em identificar tanto a mais simples ou a mais próxima quanto a mais grandiosa ou a mais distante ocorrência histórica na Terra; dificuldades cuja solução exigia a compreensão e a vivência de uma dimensão da qual o antipodiano irremediavelmente desprovido – essa a dimensão da intuição de si mesmo como tempo. Isso, em parte, devido às rotações e translações distintas de seu planeta natal em comparação com as do planeta Azul; em parte, devido à fixação muito particular na percepção do movimento, em especial o da luz, e à mais completa desatenção à duração, sobretudo à da percepção.

O que, após milênios de construção e experimentação de tecnologias imersivas no e de interface com o movimento, transformou por completo a percepção antipodiana de todo e qualquer movimento. Essa, todavia, não era precisamente toda a verdade.

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De fato, para o antipodiano tudo se mostrava imediatamente instantâneo – eu sei, caríssimo leitor, caríssima leitora, mas não há outro modo de dizer isso – tudo se passava como se ele habitasse pura e simplesmente um eterno presente. Em outros termos, sua percepção – ou o que pudesse ser assim designado – ocorria nos limites de uma constante universal exatamente como a da velocidade da luz, donde sua incapacidade de perceber o tempo nos quadros da experiência humana.

Considerado a partir do ponto de vista da percepção humana, para o antipodiano tudo ocorre de modo tão rápido que é como se ele jamais percebesse o tempo ou se percebesse no tempo – ou ainda, como tempo. Seu sistema nervoso, enfim, à diferença do humano, se desenvolvera única e exclusivamente voltado para fora e, nesse caso, pode-se dizer, se assemelharia mais ao de um animal – com todos os sentidos extremamente aguçados – que ao sistema nervoso do Homo Sapiens. Quer dizer, embora saiba, o antipodiano jamais põe em questão o que sabe e, justamente por isso, não sabe que sabe; da mesma forma, embora sinta e com uma extrema agudeza, jamais sente que sente. Tudo se passava como se nele jamais houvesse dúvida ou incerteza, mesmo em sua problemática relação com o tempo.

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Em verdade, o antipodiano reduz a duração do tempo ao puro e simples movimento da coisa; o que nos lembra Aristóteles, em De anima III, 5, 430 a18-25, quando afirma:

[…]. E a ciência em atividade é o mesmo que o seu objeto, ao passo que a ciência em potência é temporalmente anterior em cada indivíduo, embora em geral nem mesmo quanto ao tempo seja anterior, pois não é o caso de que ora pensa, ora não pensa. Somente isto quando separado é propriamente o que é, e somente isto é imortal e eterno (mas não nos lembramos porque isto é impassível, ao passo que o intelecto passível de ser afetado é perecível, e sem isto nada se pensa.

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E ainda, a título de complemento, em De anima III, 7, 431 a1-7:

A ciência em atividade é idêntica ao seu objeto. A ciência em potência é temporalmente anterior no indivíduo, mas, em geral, não é anterior sequer quanto ao tempo. Pois tudo vem a ser a partir do que é em atualidade. E é evidente que o objeto perceptível faz o perceptivo em potência ser em atividade, pois nem é afetado, nem é alterado. Por isso, esta é uma outra forma de movimento; pois o movimento é a forma do inacabado, ao passo que a atividade propriamente dita – a do acabado – é outra.

Pelo menos do ponto de vista psíquico, ou do que o valha, o intelecto antipodiano se caracteriza como sempre em ato, portanto sem voltar ao estado de potência ou de passividade. Assim, tal como a ciência em atividade, ele não é anterior nem mesmo ao tempo – não sendo, pois, da mesma forma, posterior a este –, caso em que não é afetado pelo temporal, mas, separado dele, também não o experimenta verdadeiramente.

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Desse modo, ainda em comparação com a ciência em atividade, o intelecto antipodiano se limita, enfim, à atividade do acabado, quando, pois, se distingue tanto do movimento como a forma do inacabado quanto do tempo. Não obstante, isso cobra seu preço quando, diante da necessidade de interagir com os humanos – direta ou indiretamente – o antipodiano pode lograr êxito sequer em suas traduções dos textos humanos a partir da linguagem natural humana para a linguagem do cálculo de predicados. Isso como consequência de sua dificuldade com o tempo e, assim, também com a contradição e a contingência.

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Prova disso, a ser apresentada a seguir, é que – em sua tradução da passagem citada na seção III. Alucinações, retirada de A filosofia e o espelho da natureza, Relume Dumará, 1994, p. 83 –, o antipodiano abstrai precisamente dos elementos temporais. Na medida em que sua tradução lógico-matemática desse texto não se mostra uma tautologia, ele perde a dimensão da experiência propriamente dita, isto é, a investigação de suas condições geográficas, sociais e individuais sob o quadro referencial do tempo historicamente determinado no planeta Terra. Haveria uma saída para o antipodiano nestas circunstâncias?

Editoria Artigos
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