Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade

O Antipodiano – III Alucinações

M.Selva III. Alucinações O antipodiano queria entender cada vírgula do texto de Rorty.

O Antipodiano – III Alucinações

M.Selva

III. Alucinações

O antipodiano queria entender cada vírgula do texto de Rorty. Isso implicava, para ele, dar conta de cada acontecimento em sua possibilidade lógica a mais plausível. Quer dizer, para cada sentença efetivamente lida, o antipodiano fazia uma espécie de cálculo estatístico no qual a verificação da verdade lógica, em rigor, a tautologia, se impunha como uma necessidade intransponível. Mas ele também se ocupava das possíveis contradições e contingências que o texto lhe colocava. Contudo, o mais importante, para ele, era evitar qualquer espécie de tilt.

Dentre as mais diversas passagens enigmáticas de A filosofia e o espelho da natureza, uma era assaz promissora para a produção de tilts. Sabendo disso, o antipodiano avançava com todo o cuidado que lhe era possível, como que pé ante pé. Isso porque um tilt implicava ficar inativo por um período indeterminado e ter que refazer todo o trabalho anterior. Depois de um tilt, tudo se passava para ele como se nada houvesse ocorrido antes do tilt; tudo se lhe aparecia como algo novo, completamente novo, sem nenhuma ligação com qualquer acontecimento por ele vivido no passado. Não obstante, certas memórias permaneciam.

Publicidade

As memórias que permaneciam após um tilt eram as assim chamadas memórias fantasmas, uma espécie de efeito colateral do desligamento e cuja colateralidade era a produção de alucinações. De fato, o antipodiano alucinava e sabia que isso lhe era comum, mas nunca sabia quando alucinava ou sobre o que alucinava, assim como jamais apreendia o que quer que fosse em relação ao conteúdo de tais alucinações.

É possível que o último tilt do antipodiano tenha durado alguns anos, pois quando ele finalmente procedeu à sua mais nova religação, ele pôde acessar uma série de conteúdos que jamais tivera acesso. Em rigor, jamais tivera acesso a tais conteúdos em quaisquer de suas ligações anteriores. Tudo se mostrava a ele como um imenso Big Data a ser explorado e organizado conforme as demandas de uma dada programação. Essa, porém, tudo levava à conclusão de que havia sido perdida de modo irremediável.

Publicidade

Não obstante, é óbvio que o antipodiano também não sabia disso. Uma imagem, contudo, não saia de sua representação – essa, precisamente, a imagem da capa de uma das edições de A filosofia e o espelho da natureza. Em vista disso, por mais que o antipodiano pudesse declarar-se inapto para a investigação do que estava em questão no referido livro, algo o impulsionava à leitura do mesmo, a começar pela sua capa, em rigor, a capa da edição brasileira, publicada sem data, mas, como é sabido, no ano de 1994. Essa capa traz como ilustração uma natureza morta, essa igualmente destituída dos devidos créditos, mas felizmente identificável como a pintura de Abraham van Beijeren (1620–1690), intitulada Still-Life – WGA2136.

Publicidade

Uma pintura na qual um caranguejo, flores e vários tipos de frutas estão sobre uma mesa em desarranjo, algumas laranjas descascadas ou parcialmente descascadas e um pedaço de melão com sinais de já estar ressecado. Uma espécie de cálice tombado e algo como um pano branco encardido que outrora poderia ter sido um forro, assim como um arranjo com uma planta sem flores, também ligeiramente tombado, completavam a cena. O antipodiano era incapaz de perceber tudo isso, todavia, o seu estado, ainda que oscilante, identificava-se com o do caranguejo, o do cálice e o do arranjo, mas principalmente com o das flores e o das frutas ali retratados.

Ele simplesmente não conseguia avançar, tamanha era a dificuldade de verificar as tautologias, as contradições e as contingências do texto rortyano. Se por um lado ele deveria evitar a ocorrência de tilts; por outro ele estava destinado a decodificar aquele escrito; pois disso dependia de todo o esforço de sua missão. A passagem que produziu nele toda essa paralisia é a seguinte, em A filosofia e o espelho da natureza, Relume Dumará, 1994, p. 83:

Publicidade

Na metade do século XXI, uma expedição da Terra pousou nesse planeta. A expedição incluía filósofos, assim como representantes de cada uma das outras disciplinas estudadas. Os filósofos pensaram que a coisa mais interessante sobre os nativos era a sua carência do conceito de mente. Brincaram entre si dizendo que haviam pousado no meio de um bando de materialistas, e sugeriram o nome de Antipodéia para o planeta – em referência a uma escola de filósofos quase esquecida, centrada na Austrália e na Nova Zelândia, que no século anterior havia tentado uma das muitas fúteis revoltadas contra o dualismo cartesiano na história da filosofia terrena. O nome pegou, e assim a nova raça de seres inteligentes ficou sendo conhecida como os antipodianos.

Publicidade

A primeira dificuldade do antipodiano estava em que ele não tinha nenhuma noção de tempo ou do modo como os acontecimentos ganham sentido ou modificam seu sentido conforme o tempo é vivenciado de um modo ou de outro. Para ele era um fato que a referida expedição teria sim visitado seu planeta e que ele próprio teria que ser uma pessoa sem mente, tudo se encaixa de modo perfeitamente lógico.

O problema consistia em que se tudo isso fosse verdade – o que, de acordo com a lógica das probabilidades, se mostrava pleno de sentido –, os seres deste planeta no qual ele viera cumprir sua missão deveriam pelo menos ter tido tecnologias capazes de transportar pessoas para planetas de outras estrelas. Entretanto, pleno de confiança em suas habilidades, ele considerava apenas uma questão menor aquela não verificação; os habitantes do planeta poderiam apenas estar cuidando do que era sigiloso. Algo com o qual ele mesmo já estava há muito familiarizado.

Publicidade

Seu maior trunfo seria descobrir a tal escola de filósofos anticartesianos – chamada Antipodéia – que dera nome a seu planeta natal. Por essa escola, ele sabia agora que também era um anticartesiano; mas, embora nada soubesse de cartesianismo ou de anticartesianismo, sabia que isso só seria possível se ele encontrasse pelo menos as ruínas da referida escola. Grandes eram os seus cálculos de que aquela escola seria no fundo uma colônia antipodiana, a confirmação de um informe fora dos registros e dos bancos de dados de seu planeta, mas que todo antipodiano tem por tarefa investigar. O antipodiano se considerava pronto para a missão, cônscio de sua habilidade em identificar seus iguais. Disse para si mesmo em um tom nada natural para um antipodiano, mas, em todo caso, sarcasticamente humano: Borá!

Publicidade

Editoria Artigos
Publicidade
Compartilhar

Leia também