M.Selva
II. A descoberta
Após algum tempo na Terra, ainda atordoado com as novidades, praticamente a primeira descoberta mais relevante que o antipodiano fez, no concernente ao seu propósito aqui, foi a existência de certos relatos e até mesmo uma possível colônia antipodiana nos confins da Galáxia. Quer dizer, nos confins da Galáxia para ele, cujo planeta se localiza – em relação à Terra – nos antípodas do nosso, portanto do outro lado da Galáxia em termos astronômicos. Donde, na verdade, sermos nós mesmos, os terráqueos, os antipodianos dele, nesse caso, em que pese o assim chamado conhecimento universal, exatamente o contrário em termos de cultura, valores e compreensão daquele de onde vivia.
O antipodiano não se conteve ao ler as seguintes linhas em A filosofia e o espelho da natureza, de Richard Rorty, mais especificamente no segundo capítulo, Pessoas sem mentes, em sua primeira sessão, Os antipodianos:
Muito distante daqui, do outro lado de nossa galáxia, havia um planeta sobre o qual viviam seres como nós […]. Esses seres não sabiam que tinham mentes. Tinham noções como “estar querendo”, “estar pretendendo”, “sentir-se pessimamente” e “sentir-se maravilhosamente”. Mas não tinham nenhuma noção de que estas significavam estados mentais […] totalmente diferentes de “sentar-se”, “estar resfriado” e “estar sexualmente excitado”. […] Não explicavam a diferença entre pessoas e não-pessoas por noções como “mente”, “consciência”, “espírito” ou qualquer coisa desse tipo. […]. Acreditavam na imortalidade para si próprios, e alguns poucos acreditavam que isso seria partilhado pelos animais de estimação ou pelos robôs, ou por ambos. Mas essa imortalidade não envolvia a noção de uma “alma” que se separava do corpo.
Para ele, tais informações comprovariam o fato de terem sido os terráqueos quem já visitara Antipodeia, seu planeta natal, em algum momento. Do contrário, aquele conhecimento tão exato sobre seus habitantes não poderia ter sido produzido – um conhecimento tão específico e dizendo respeito a algo tão delicado no concernente às redes neurais antipodianas e à sua permanência para além da mera inscrição corporal. Todavia, ele jamais tivera qualquer tipo de informação que comprovasse a hipótese de visitas extrantipodianas; isso, no entanto, se explicava pelas podas neurais que, de quando em quando, ocorria em praticamente todos as redes neurais antipodianas.
Uma situação que afetava todos os sistemas relacionados à interação social, a qual deixava permanecer, porém, pedaços de informação que, como um grande quebra-cabeças, eram postos de lado como inutilizáveis. Neste sentido, as informações contidas no livro de Rorty preencheriam uma lacuna que há muito paralisava todo e qualquer esforço real no avanço de uma constituição transantipodiana.
Desse ponto de vista, embora bastante antigo, algo de certo modo arqueológico, aquele livro representava a realização do elemento mais crucial e justificava, assim, todos os custos de sua missão até aqui e todos os investimentos ainda por vir. Aproveitando-se, pois, do fato de que lia uma cópia eletrônica, o antipodiano a enviou imediatamente para os seus superiores.
Chamou-lhe atenção, no entanto, a discussão rortyana sobre a questão do assim chamado mundo interior, sobre a alma, em rigor, a de quem teria ou não teria uma alma. Aquilo parecia irremediavelmente falso, seria inclusive um sacrilégio algum antipodiano colocar-se a questão de um lado interior, de algo que, ao nível de sua expressão no pensamento e na linguagem antipodiana – essa tão bem descrita por Rorty –, pudesse ser e permanecer privado, restrito a cada e em cada pessoa, não compartilhado com outrem de modo incondicional.
Outra situação que lhe parecia insustentável consistia no fato de que, para ele, não havia diferença substancial entre pessoas biologicamente constituídas, animais e inteligências artificiais, mas tão só diferenças de grau e de inscrição corporal em seu planeta. Algo do qual, em seu modo de colocar a questão, os antipodianos estariam como que na vanguarda civilizatória; quer dizer, na vanguarda de uma plena integração de todas as redes neurais de seu planeta, a partir da qual todos os existentes poderiam se comunicar de maneira direta numa só e mesma linguagem.
O fato importante, porém, é que ele não entendia de modo algum termos como “alma”, “consciência”, “espírito” ou expressões como “imortalidade para si próprios” e “noção de uma ‘alma’ que se separava do corpo”. Neste ponto, ele considerou ter sido prematuro o envio do livro para seus superiores; contudo, também ponderou estar apenas no início de suas investigações e que a lógica daquele texto era decididamente impenetrável.
O antipodiano olhou para cima, com a cabeça meio inclinada e meio de lado, ficou assim por um bom tempo… como que inerte. Diante de seus olhos se postavam imagens, na verdade questionamentos assaz rigorosos, sobre a que Rorty estaria se referindo quando escrevia que os antipodianos tinham noções como “estar querendo” ou “pretendendo”, “sentir-se pessimamente” ou “maravilhosamente”, mas nenhuma de que estas significavam estados mentais totalmente diferentes de “sentar-se”, “estar resfriado” e “estar sexualmente excitado”.
Ele simplesmente não entendia por que motivo um autor aparentemente tão honesto e tão consistente quanto à descrição da linguagem antipodiana nos âmbitos da neurologia e da bioquímica poderia fazer asseverações tão discrepantes quanto aquelas acima. Na verdade, para o antipodiano, no que se referia ao conhecimento de suas conexões sinápticas (talvez o que Rorty designasse estados mentais), não havia nada como as primeiras noções cuja propriedade o filósofo terráqueo imputara aos nativos de Antipodeia.
É fato que algumas das noções aludidas por Rorty se prestariam muito bem a uma comparação com certas atividades antipodianas – por exemplo a noção de “consciência”, para ele pura e simplesmente “saber-com”, se aparentava ao modus operandi do processo de integração das redes neurais de seu planeta, no sentido da constituição de uma forma de comunicação direta numa só e mesma linguagem para todos os existentes. Não obstante, quando lhe ocorriam momentos como esse, o antipodiano permanecia naquele estado por horas, às vezes até por dias, sem saber do que se tratava.
Mas do que se tratava quando ele permanecia em tal estado? Eis aí uma pergunta praticamente impossível de se responder sem se levar em conta a existência de um mundo interno, de um meio psíquico interno ou de um espaço psíquico interior, de um Si mesmo. O mais longe a que se pode chegar sem a consideração pelo menos da hipótese desta existência, logo, em se levando em conta que os antipodianos são pessoas sem mente, é que o antipodiano entrou em tilt. Procedimento análogo ao do mecanismo de segurança do jogo Pinball, que é desativado quando o jogador sacude ou inclina a máquina demais. O que, literalmente, faz o antipodiano parar de funcionar, necessitando, pois, de algo como uma reinicialização.









