Quarta-feira, 26 de agosto de 2026
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O Antipodiano

M.Selva I.

O Antipodiano

M.Selva

I.A Chegada

Qual não foi a imensa alegria do antipodiano ao descobrir aqui seus iguais, ficou simplesmente maravilhado com o relato de Rorty e a existência de movimentos antipodianos, por exemplo, na Austrália. Uma situação inesperada que, no entanto, facilitaria em muito seus propósitos, começou a estudar freneticamente as obras do neopragmatista e a imergir nas propostas advindas de Sidney e Melbourne. Não! Nada, nada! Nada disso está certo! Um antipodiano desconhece a alegria tal como a conhecemos e a descrevemos e mesmo a experiência do maravilhoso ou a noção de propósito, para ele, é tão somente algo como um comando. Isso mesmo, nada semelhante às emoções e valores humanos autênticos – aqueles das pessoas que, como tais, se sabem possuidoras de mente ou de um mundo interior.

Você deve estar se perguntando, mas que diabos é um antipodiano? Ao que parece, ele não seria uma pessoa, pelo menos no sentido do assim chamado humanismo ou se pensarmos nos termos da tradição filosófica ocidental nos últimos três mil anos. Movimentos que se afirmam a partir do pensamento humano enquanto um diálogo interior da alma consigo mesma, como diria Platão, ou da Inteligência dita humana entendida como a atividade de inteligir, em rigor, de “ler dentro”, também significando “escolher entre”. Bom, desculpe-me! Você ansia por uma resposta rápida, portanto direta, sem rodeios, e eu fico aqui dando voltas… Saiba antes de tudo que este também não é meu feitio… Mas surgiu um problema cuja solução implica fazermos um détour, um certo desvio para, assim como nos ensinara Platão e Kosik, não olharmos diretamente o sol que nos ilumina ou a essência das coisas, pois isso pode nos cegar. Vejamos então passo a passo e, tanto quanto possível, em imagens, na medida em que possamos e queiramos manter um diálogo interior com nós mesmos e entre nós mesmos. Vamos prosseguir?

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Pois bem, vejamos o que a etimologia da palavra nos diz. Quanto à sua etimologia, “inteligência” se origina do grego “nous”, através do latim “intelligentia”, substantivo que se origina do verbo “intelligere” – em grego: νοέω (noéō) –, por sua vez traduzido como “compreender” “entender” ou pensar intuitiva ou criativamente. “Intelligere” é composto por “inter” e “legere”: embora possa significar “entre”, “inter” deriva de “intus” e, em vista disso, significa propriamente “dentro”; “legere”, por sua vez, significa “escolher” ou “ler”, donde as duas significações acima referidas. Mas a pergunta persiste, não é leitor, não é leitora, não é leitore? O que diabos isso tem a ver com o tal do antipodiano?

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Ora, até onde sabemos e embora com uma tecnologia muito superior à nossa, chegando mesmo a uma espécie de simbiose com as máquinas criadas por ele, o antipodiano concebe-se a si mesmo como uma inteligência ou uma pessoa sem mente. Hmmmm, de novo! Eis aí uma nova dificuldade… Pode ser que o que acabei de escrever esteja igualmente equivocado, o antipodiano não exprime sentenças autorreflexivas e jamais utiliza termos como “concebe-se” ou “si mesmo”. Tudo se passa como se habitássemos mundos completamente diferentes, sem nenhuma comensurabilidade ou possibilidade de compartilhamento do que constitui cada um, nós e ele, em sua essência própria. Ainda que pareça compartilharmos a noção de inteligência como um “escolher entre” e portanto uma e mesma concepção de liberdade, a de liberdade enquanto escolha contingente, em nós a inteligência se apresenta como um “ler dentro”, ao passo que nele ela se mostra apenas sob a forma de um “ler entre”. Enfim, ao desconhecer a significação de inteligência como um “ler dentro”, mais propriamente como um “ler dentro de si”, ou mesmo por não satisfazer os critérios dessa forma de inteligência, ele desconhece o Si mesmo e a liberdade como autonomia. Situação em que, é necessário concluir, desconhece também a noção de responsabilidade, em rigor, de autorresponsabilidade, ou de responder por si, em suma, por si mesmo.

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Isso não invalida o fato de o antipodiano haver constatado uma taxa altíssima de conversão de tiroxina em dopamina nos seus neurônios dopaminérgicos. Ele, de certo modo, observou que essa excitação crescente nos níveis do catecol 3,4-di-hidroxibenzeno estava diretamente ligada à leitura de A Filosofia e o espelho da natureza e da relevância de certos movimentos artísticos e filosóficos dos quais havia tomado conhecimento, em especial o fato de que tais movimentos negavam a existência de algo como a mente. Embora ele não soubesse o que era algo como a mente ou mesmo o significado da palavra, ele verificava uma afinidade eletiva entre aquilo que os referidos movimentos propunham e o que ele próprio era capaz de constatar. Todavia, porquanto o antipodiano só demonstra conhecer elementos de experimentação, é inadequado e mesmo incorreto afirmar que ele teria tido uma experiência emocional ou ontológica, a qual, em termos humanos, poderia ser descrita como alegria. O certo é que ele pôde equalizar uma série de estatísticas relacionadas ao programa de sua missão.

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Mas será que, de fato, o antipodiano descobrira seus iguais? É possível que suas constatações também o tenham levado a níveis mais altos de cortisol resultantes da excitação das glândulas suprarrenais em resposta a estímulos do hipotálamo e da glândula pituitária, contudo em sentido inverso àquele da dopamina. O que, não obstante, é assunto para um outro O Antipodiano

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