Fundamentos psicanalíticos do sujeito neurodivergente
Dr. Manuel Moreira da Silva*
Em sua essência, a Psicanálise da Neurodivergência é parte integrante da Daseinspsicanálise, a psicanálise do ser-aí humano, ou, do ser-aí humano em sua globalidade, a um tempo em sua intimidade e em sua extimidade, em seu ser interior e em seu ser exterior, não havendo, por conseguinte, em cada ser-aí humano nenhuma separação entre o interior e o exterior.
Não obstante seu ser originário global ou total, o ser-aí humano se cinde logo ao nascer. Porquanto é aí, no mundo, ele passa a existir ou ser-no-mundo e, assim, fora do ser, de seu ser total ou global, sendo pura e simplesmente para outro. Tal cisão se exprime no Eu (no Ego, no Self, no Je) – entre o sujeito e o Outro, assim como entre o consciente e o Inconsciente –, mas também no Si mesmo (no Oneself), no interior do próprio Inconsciente e diz respeito à identidade pessoal, íntima ou originária do Si mesmo, que é o ser-aí propriamente dito. Essa a cisão entre a vivência, aí, de cada Si mesmo ou ser-aí no mundo enquanto ser vivo, onticamente determinado, e o sentido dessa vivência, que só pode ser determinado segundo a experiência ontológica ou emocional de cada um.
A cisão do Si mesmo implica o esquecimento de ser, isto é, da experiência ontológica, afetiva ou emocional, do indivíduo em sua constituição como sujeito. Ele esquece, assim, o ser mesmo e por isso foge de seu ser próprio porquanto não o reconhece como seu. Com isso, seu Eu (Ego, Self, Je) torna-se um “eu volante” (Tournier), sem conteúdo; situação em que o Si mesmo ou não se fixa em lugar algum ou se refugia dentro de si, porquanto se identifica com o Todo-Uno que era antes de seu nascimento.
Enquanto a neurodiversidade se mostra como uma cisão do Eu, a neurodivergência se dá enquanto a fratura própria do Si mesmo. Nessa medida, a neurodivergência tem por mecanismo mais próprio a cisão do intelectual e do emocional ou a do cognitivo e do afetivo, as quais vêm se impondo ao ser-aí humano ao longo das eras – tanto ao nível da filogênese, do adquirido mediante a experiência do indivíduo; quanto ao nível da ontogênese, do adquirido via experiência da espécie. Exemplos disso são, respectivamente: as chamadas Altas Habilidades e a Superdotação; o Autismo, a dislexia, o TDAH e a epilepsia; assim como uma série de alterações no funcionamento do cérebro causadas por traumas, prática de meditação de longo prazo ou uso intenso de drogas psicodélicas.
Enfim, enquanto a neurodiversidade se limita ao vértice da experiência ôntica neurodiversa, a neurodivergência se abre ao vórtice da experiência ontológica de cada sujeito neurodivergente.
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* Dr. Manuel Moreira da Silva é psicanalista, fundador e Coordenador Geral da Sociedade Brasileira de Daseinspsicanálise – Instituto de Daseinspsicanálise (SBDp-ID), professor do Departamento de Filosofia da Unicentro (Guarapuava) e pesquisador de Filosofia e Psicanálise. Contato: E-mail: manuelmoreira@efp-id.info; WhatsApp: 42 988084402.









