Terça-feira, 1 de setembro de 2026
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Especial: CREAS atende média de 20 novos casos de violência contra a mulher por mês em Pinhão

Na terceira e última reportagem da série especial do Portal Fatos do Iguaçu, equipe relata como funciona o acolhimento, aponta dificuldades da rede e destaca que mulheres conseguem romper o ciclo e reconstruir a própria vida

Mulher vista de costas caminhando por um corredor em direção a uma área externa iluminada, em imagem alusiva à busca por acolhimento e proteção diante da violência.

Informação, acolhimento e apoio ajudam a romper o ciclo. Ligue 180. Em emergência, 190  . Imagem meramente ilustrativa.

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) atende, em média, 20 novos casos de mulheres vítimas de violência doméstica por mês em Pinhão. Em alguns períodos são registrados 18 casos; em outros, o número chega a 23 ou 24 mulheres.

Em 2025, o serviço atendeu 248 mulheres diferentes vítimas de violência. Os dados demonstram que o problema está presente diariamente no município e representa uma das maiores demandas acompanhadas pela equipe técnica do CREAS.

Nesta terceira e última reportagem da série especial do Portal Fatos do Iguaçu sobre a violência contra a mulher, a jornalista Nara Coelho conversou com profissionais que atuam diretamente no acolhimento e acompanhamento das vítimas.

Como medida de segurança, seus nomes não serão divulgados. As informações e declarações serão atribuídas à equipe técnica do CREAS.

Atendimentos representam cerca de 2% do eleitorado feminino

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Pinhão possui 11.997 eleitoras com mais de 18 anos. Embora o eleitorado feminino não represente necessariamente a totalidade exata das mulheres adultas residentes no município, o número pode ser utilizado como referência para dimensionar a proporção dos atendimentos realizados.

As 248 mulheres diferentes atendidas pelo CREAS em 2025 correspondem a aproximadamente 2,07% desse universo. Em termos proporcionais, isso significa que, para cada grupo de aproximadamente 48 eleitoras adultas do município, uma mulher foi atendida pelo serviço em razão da violência naquele ano.

Em 2026, a média de 20 novos casos mensais representa cerca de 0,17% do eleitorado feminino adulto a cada mês. Caso essa média se mantenha durante os 12 meses, serão aproximadamente 240 novos atendimentos no ano, volume equivalente a cerca de 2% das 11.997 eleitoras — ou um atendimento para cada grupo de aproximadamente 50 mulheres.

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A comparação não significa que exatamente uma em cada 50 mulheres do município será vítima de violência, pois trabalha com o número de atendimentos realizados por um serviço específico. Ainda existem casos que chegam diretamente à Delegacia de Polícia, à Secretaria Municipal da Mulher, aos serviços de saúde e a outros órgãos. Também há situações que nunca são denunciadas.

Os próprios profissionais alertam que a subnotificação permanece elevada.

Essa é a quantidade que chega até nós. Sabemos que o número de situações que permanecem veladas, sem denúncia, é muito maior

equipe técnica do CREAS

Os dados do eleitorado são consolidados mensalmente pelo Tribunal Superior Eleitoral a partir do Cadastro Nacional de Eleitores. TSE — Estatísticas do eleitorado

Casos chegam de diferentes formas

As mulheres atendidas podem chegar ao CREAS por encaminhamento da Delegacia de Polícia, do Poder Judiciário, do Conselho Tutelar, da Secretaria da Mulher e de outros serviços da rede. O Centro também recebe denúncias espontâneas, comunicações feitas pelo WhatsApp e encaminhamentos originados no Ligue 180.

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Em algumas situações, a violência contra a mulher é identificada durante o atendimento de uma criança ou adolescente. Ao conversar com a criança, os profissionais descobrem que a mãe, a irmã ou outra mulher da família está sendo vítima de agressões.

Embora o CREAS devesse atuar principalmente após a identificação da violência e os encaminhamentos dos órgãos competentes, a equipe relata que também recebe denúncias e precisa verificar situações no próprio território.

Quando a mulher ainda não registrou boletim de ocorrência, os profissionais podem acompanhá-la até a Delegacia de Polícia, prestar orientações e auxiliar na solicitação de medida protetiva. Depois, o serviço realiza o acompanhamento psicossocial e os encaminhamentos necessários.

Nenhuma mulher fica sem atendimento. Acolhemos, verificamos sua situação e fazemos os encaminhamentos para os demais serviços

equipe técnica do CREAS

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Violência está presente em todas as classes sociais

Os atendimentos realizados pelo CREAS mostram que a violência contra a mulher não está restrita às famílias em situação de vulnerabilidade econômica.

A maior parcela do público atendido possui renda mais baixa, mas isso também está relacionado à própria natureza do serviço socioassistencial. Mulheres com melhores condições financeiras podem contar com atendimento particular, apoio familiar ou possibilidade de deixar temporariamente o município.

“Recebemos casos de pessoas que nunca haviam sido atendidas pela rede. A violência está presente em todos os públicos e em todas as classes sociais”, afirmou a equipe.

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Segundo os profissionais, mulheres de classes socioeconômicas mais altas também passaram a falar com maior frequência sobre a violência. Durante muito tempo, algumas permaneceram em silêncio por vergonha, preocupação com a imagem social ou receio de prejudicar o nome da família.

Falta de apoio pode manter mulher no relacionamento

Após o acolhimento inicial, a equipe procura identificar se a vítima possui familiares ou pessoas de confiança que possam ajudá-la. A existência de uma rede de apoio pode ser determinante para o rompimento do ciclo.

Quando a mulher não tem para onde ir, pode continuar no relacionamento por medo de não conseguir manter os filhos ou garantir a própria sobrevivência.

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Em determinadas situações, o município pode conceder aluguel social pelo período inicial de três meses, com possibilidade de prorrogação por mais três, conforme a avaliação do caso.

Quando a permanência no município representa risco e as alternativas locais não são suficientes, a mulher e os filhos podem ser encaminhados para um serviço de acolhimento em outra cidade. O contato é realizado com a estrutura regional, que verifica a disponibilidade de vagas em casas destinadas à proteção de mulheres ameaçadas.

Nesses espaços, as vítimas recebem atendimento e apoio para procurar trabalho, matricular os filhos na escola ou na creche e reconstruir a vida com segurança e autonomia.

Dependências financeira e emocional dificultam rompimento

A dependência financeira continua sendo uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres. Muitas sobrevivem com recursos de programas sociais ou dependem integralmente da renda do companheiro.

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O medo de que os filhos passem necessidade pode fazer com que a vítima permaneça no relacionamento, mesmo reconhecendo a violência.

A equipe ressalta, entretanto, que a dependência emocional pode ser tão grave quanto a financeira.

“A mulher pode acreditar que não será capaz de cuidar dos filhos ou conduzir a própria vida. Essa dependência emocional, muitas vezes, é ainda mais difícil de romper

 equipe técnica do CREAS

“Há também casos em que a vítima possui renda própria e condições materiais para deixar o agressor, mas continua no relacionamento por dependência emocional, medo, manipulação ou pressão familiar.

A equipe relatou que algumas famílias não acolhem a mulher porque consideram normal o comportamento do agressor ou não querem assumir a responsabilidade de receber a vítima e os filhos.

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Violência pode ser aprendida e repetida

O machismo, a reprodução de comportamentos familiares e o uso abusivo de álcool e outras drogas estão entre os fatores observados nos casos atendidos.

Segundo os profissionais, muitos homens reproduzem comportamentos presenciados durante a infância, quando viram o pai agredindo a mãe. Da mesma maneira, mulheres que cresceram vendo a mãe permanecer em uma relação violenta podem ter mais dificuldade para reconhecer o abuso.

“A criança tem os pais como referência. Se ela cresce convivendo com a violência, pode passar a considerá-la normal e repetir esse comportamento na vida adulta”, explicou a equipe.

Os casos costumam aumentar após os finais de semana, período em que o maior consumo de álcool e outras drogas pode agravar conflitos já existentes. A equipe ressalta, contudo, que essas substâncias não são a causa única da violência, embora possam potencializar comportamentos agressivos.

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Crianças também são atingidas

Mesmo quando não sofrem agressões diretamente, as crianças são afetadas pela violência vivenciada dentro de casa.

A equipe relatou o atendimento de uma criança que deixou de frequentar a escola porque tinha medo de que algo acontecesse com a mãe durante sua ausência. A violência foi identificada quando os profissionais começaram a investigar as razões da infrequência escolar.

Esse tipo de situação demonstra que a violência doméstica ultrapassa a relação entre o casal e produz consequências emocionais, sociais e educacionais para toda a família.

Em alguns casos, a necessidade de proteger os filhos leva a mulher a reconhecer a gravidade da situação e procurar ajuda. Em outros, a preocupação com as crianças e a pressão para manter a família unida dificultam o afastamento do agressor.

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Cerca de três em cada dez revogariam a medida protetiva

Uma das dificuldades observadas pela equipe é a revogação de medidas protetivas. Embora o CREAS ainda não possua um levantamento estatístico consolidado, os profissionais estimam, com base na rotina do serviço, que aproximadamente três em cada dez mulheres solicitam posteriormente a retirada da medida.

Por não se tratar de um dado sistematizado, o percentual deve ser interpretado como uma percepção técnica da equipe, e não como uma estatística oficial do município.

Entre os motivos estão a dependência financeira e emocional, o medo, as promessas de mudança feitas pelo agressor e a pressão de familiares. Existem casos em que uma mesma mulher solicita e revoga a medida várias vezes antes de conseguir romper definitivamente o relacionamento.

O retorno ao agressor não deve ser tratado como culpa ou falta de vontade da vítima. O ciclo da violência envolve períodos de tensão, agressão, arrependimento, promessas e aparente mudança de comportamento.

Depois da agressão, ele pede desculpas, promete mudar, dá presentes e passa um período agindo de outra forma. Depois, a violência volta a acontecer. Esse ciclo se repete até que a vítima consiga rompê-lo

 equipe técnica do CREAS

Rede atende, mas ainda trabalha de forma fragmentada

A avaliação dos profissionais coincide com uma das principais questões apresentadas nas duas reportagens anteriores: Pinhão possui diferentes serviços de atendimento, mas ainda precisa formalizar o funcionamento da rede e estabelecer um fluxo integrado.

CREAS, Secretaria da Mulher, saúde, Delegacia, Conselho Tutelar, Poder Judiciário e demais órgãos realizam atendimentos e encaminhamentos. Entretanto, nem sempre existe uma devolutiva sobre o acompanhamento feito por cada setor.

“Os serviços atendem, mas muitas vezes trabalham separados. Encaminhamos uma mulher e nem sempre sabemos como está o atendimento no outro local. Falta diálogo e um fluxo formalizado”, avaliou a equipe.

A ausência dessa comunicação pode levar à revitimização, fazendo com que a mulher precise repetir diversas vezes o relato das agressões.

Atendimento na Delegacia precisa de espaço reservado

Outro aspecto apontado pela equipe é a necessidade de um espaço mais reservado e acolhedor para as mulheres registrarem as ocorrências na Delegacia de Polícia.

Segundo os profissionais, em algumas situações, a vítima precisa relatar a violência em um ambiente no qual outras pessoas podem ouvir sua história. Depois de contar o ocorrido de forma privada no CREAS, ela é obrigada a repetir informações dolorosas sem a mesma privacidade.

A equipe considera que um ambiente específico contribuiria para preservar a vítima, evitar constrangimentos e tornar o atendimento mais humanizado.

Profissionais também enfrentam riscos

Os nomes dos entrevistados foram preservados  devido aos riscos enfrentados durante o trabalho.

A equipe relatou episódios de ameaças, intimidações, filmagens e danos ao prédio do CREAS. Alguns agressores culpam os profissionais pelo registro da ocorrência, pela concessão de medidas protetivas ou pelas consequências judiciais da violência.

Em determinadas situações, os técnicos precisam da presença policial para retirar a vítima e seus pertences da residência. O contato direto com os agressores faz com que os profissionais adotem medidas de segurança durante o atendimento.

Apesar dos riscos e do volume de trabalho — que também envolve crianças, adolescentes, pessoas idosas e outras vítimas de violações de direitos —, a equipe afirma que nenhuma mulher deixa de ser atendida.

Trabalho com agressores busca evitar reincidência

O enfrentamento também exige ações destinadas aos autores da violência. Em Pinhão, o Conselho da Comunidade desenvolve um grupo reflexivo com homens que respondem por violência doméstica.

Os participantes são levados a refletir sobre seus comportamentos, o machismo, as relações familiares e os efeitos do uso abusivo de álcool e outras drogas. Quando necessário, também podem ser encaminhados para serviços de saúde.

De acordo com a equipe do CREAS, a reincidência entre os participantes é baixa, o que demonstra a importância de trabalhar não apenas com as vítimas, mas também com os autores.

Sem reflexão e mudança de comportamento, o agressor pode repetir a violência com a mesma vítima ou em um novo relacionamento.

Mulheres conseguem reconstruir a vida

Embora os números e relatos revelem uma realidade preocupante, a equipe fez questão de destacar que muitas mulheres conseguem romper o ciclo e reconstruir a própria história.

Os profissionais acompanham vítimas que passaram décadas vivendo sob agressões, ameaças e controle, mas conseguiram deixar o relacionamento, procurar trabalho, cuidar dos filhos e retomar seus projetos.

“Quando a mulher sai do ciclo, começa a compreender que existe uma vida melhor e que ela tem o direito de ser feliz”, afirmou a equipe.

Uma das mulheres acompanhadas permaneceu durante cerca de 30 anos em uma relação violenta e precisou reconstruir a vida praticamente do zero. Atualmente, aos 49 anos, conquista autonomia e supera medos que a acompanharam por décadas.

Para a equipe, apresentar essas experiências é essencial para que outras vítimas não sintam que estão condenadas a permanecer na violência.

“É muito importante mostrar que existem mulheres que conseguem romper, reconstruir a vida e voltar a viver. Elas precisam saber que há caminhos e que são maiores do que a violência que enfrentam”, concluiu.

Onde buscar ajuda

Foto: Nara Coelho/Fato do Iguaçu

Mulheres em situação de violência podem procurar o CREAS, a Secretaria Municipal da Mulher, a Delegacia de Polícia, os serviços de saúde ou os demais órgãos da rede municipal.

O Ligue 180 funciona gratuitamente, durante 24 horas por dia, para prestar orientações, informar sobre os serviços disponíveis e registrar denúncias. Em situações de emergência ou risco imediato, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.

Esta é a terceira e última reportagem da série especial do Fatos do Iguaçu sobre a violência contra a mulher.

Editoria Especiais
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