Quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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De Manaus para Pinhão: quando a castanheira vira araucária

Foto: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu Na mesa, mel, manteiguinha, requeijão, geleia e sequilhos feitos em casa.

De Manaus para Pinhão: quando a castanheira vira araucária

Foto: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu

Na mesa, mel, manteiguinha, requeijão, geleia e sequilhos feitos em casa. “Aqui a gente come bem, viu? Pode ficar à vontade”, diz a farmacêutica Jakelline Costa, enquanto o marido, Rafael Costa, circula pela cozinha. A hospitalidade já é bem pinhãoense, mas a história desse casal começa bem longe, em Manaus, no coração da Amazônia. De lá, eles decidiram atravessar o país, trocar a castanheira pela araucária e fincar raízes em Pinhão, no Centro-Sul do Paraná.

A mudança não foi impulso. Ex-bancário e hoje estudante de Educação Física, Rafael lembra que a primeira paixão pelo Sul surgiu em 2020, numa viagem para Florianópolis e Gramado. “Foi paixão à primeira vista. A gente amou o clima e o jeito de viver”, conta. De volta a Manaus, a rotina pesada, o calor sufocante e as longas distâncias voltaram a apertar. Jakelline, farmacêutica, enfrentava esgotamento físico e mental e sofria ainda mais com a menopausa em um clima quente e abafado.

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Quando ela recebeu propostas de trabalho de redes de farmácia do Sul, decidiu pesquisar com calma: clima, tamanho da cidade, custo de vida, segurança, escolas, saúde. Pinhão apareceu nesse mapa como uma possibilidade concreta de desacelerar. “Eu queria uma cidade menor, mais tranquila, mas com estrutura. A gente orou, pediu direção a Deus e o coração apontou pra cá”, lembra. Ela veio primeiro, por outra rede, não se adaptou à empresa, e acabou ingressando na Farmácia São João, onde tinha aprovação para outros municípios.

O projeto, porém, era de família inteira. Antes da mudança, combinaram que o irmão de Jakelline e a mãe, professora aposentada e evangélica, viriam depois. Ele trabalha com software de segurança de forma remota, o que facilitou a decisão. A mãe veio passar Natal e Ano Novo, gostou da tranquilidade e ficou. O sogro, apaixonado por sítio e criação de animais, veio conhecer, amou o município e já sonha com um pedaço de terra perto da cidade. “Estão quase fundando a ‘colônia de Manaus’ em Pinhão”, brinca a farmacêutica.

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Os filhos também entraram nesse movimento. As jovens Lívia e Vivian, de 20 anos, cursam Farmácia e transferiram a graduação para um polo de ensino em Pinhão, conciliando faculdade com estágio na área. Os meninos, de 12 e 14 anos, estudam no Colégio Decisão. Em Manaus, vinham de colégio militar e de uma infância cercada por muros, portões e medo. “Lá eles não andavam sozinhos, não iam na esquina, não andavam de bicicleta na rua”, resume a mãe. Em Pinhão, vão a pé para a escola, fazem compras no mercado, pedalam pelas ruas e recuperam uma liberdade que os pais consideram essencial para a formação deles.

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A comparação com a vida na capital amazônica é inevitável. Em Manaus, trânsito intenso, calor extremo e insegurança tornavam o cotidiano exaustivo: levar filhos à escola podia levar uma hora, o deslocamento até o trabalho, outra. “Era viver sobrevivendo, chegando em casa à noite, exaustos”, recorda Jakelline. Aqui, atravessar a cidade leva poucos minutos, e o deslocamento até Guarapuava, que muitos consideram longe, para eles “é fichinha” diante do que já enfrentaram. “Quem vive em metrópole morre de vontade de um lugar como Pinhão. Eu costumo dizer: aqui é um paraíso”, afirma Rafael.

Na saúde, a visão de Jakelline é técnica e afetiva. Em Manaus, mesmo numa cidade maior e com mais recursos, ela relata que a rede pública deixava a desejar. A família dependia de plano de saúde. Em Pinhão, ela e o filho já precisaram de atendimento, inclusive em uma lesão grave no joelho durante jogo de futebol, e foram bem acolhidos. “Aqui a saúde pública ainda funciona. Isso é muito valioso”, avalia. Ao mesmo tempo, ela aponta o que falta: um hospital mais estruturado, com mais especialidades e exames de maior complexidade, para reduzir a dependência de Guarapuava.

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Encantado com esportes, Rafael cursa Educação Física, sua segunda graduação, e já iniciou um mini projeto social. Ele utiliza tatames para oferecer aulas a crianças, ajudando a tirá-las da rua e criar novas referências. “O boca a boca dos pais vai trazendo mais alunos. É uma forma de retribuir o que a cidade nos oferece”, diz. Em casa, a preocupação é oferecer estrutura e aconchego: internet, computadores, jogos, mesa farta, café da manhã caprichado em datas especiais. “A gente cria memórias”, define Jakelline.

A adaptação cultural também vem carregada de descobertas bem-humoradas. O chimarrão virou hábito compartilhado entre colegas na farmácia; o pinhão ganhou o coração da manauara. O entreveiro agradou, desde que sem carne de porco para ela. O vocabulário rende boas histórias: em Pinhão, ela estranhou o “bingo” como sinônimo de “esquerdo”, enquanto os pinhãoenses não sabiam o que era “carapanã”, o pernilongo amazônico. “Cada lugar tem suas palavras, e isso é lindo, é cultura viva”, comenta.

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Mesmo evangélicos e ativos na Assembleia de Deus, Jakelline e Rafael olham com respeito e encantamento para manifestações como a Festa do Divino, os rodeios e o culto dos gaiteiros, onde viram senhores emocionados, pilchados, tocando gaita e mantendo uma tradição que reúne gerações. “Pinhão ainda tem algo que se perdeu em muitas cidades grandes: a cultura da família. O almoço de domingo, o encontro na casa dos pais, as atividades que agregam. Isso é muito forte aqui”, afirma ela.

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Ao olhar para os 61 anos de Pinhão, o casal manauara sabe exatamente o que deseja para a nova terra onde decidiu criar raízes: que a cidade continue segura, acolhedora e com esse clima que os conquistou, que cresça com planejamento, invista em saúde e infraestrutura, mas sem perder a essência de lugar de família, fé e tradição. “Se Pinhão continuar plantando hoje com organização e cuidado, lá na frente vai colher em todas as áreas. Pra nós, a escolha já valeu — e muito. Aqui, a nossa castanheira virou araucária”, conclui Rafael.


Reportagem publicada originalmente na edição impressa comemorativa aos 61 anos de emancipação política do município de Pinhão – PR.


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