(IN)DISPONÍVEL

Por Prof.ª Silvia Patrícia Marques*

Vivi minha infância e adolescência no interior, lembro-me de acordar sempre por volta das seis da manhã, recordo-me que o trabalho da lavoura, criação de animais, quintal, horta e arvoredo, era duro, por isso, adultos e crianças precisavam levantar cedo a fim de dar conta de todo o trabalho, mas também lembro que no meio da tarde tínhamos uma hora de muita conversa e risadas quando todo mundo sentava à roda de chimarrão  e diga-se de passagem que a erva-mate era produzida ali, pela família, nesses momentos as pessoas conversavam olhavam nos olhos e sentiam prazer da companhia umas das outras, depois do café da tarde todos voltavam a seus afazeres e trabalhávamos até o início da noite, lembro-me de que os vizinhos e parentes mais distantes costumavam nos visitar vez ou outra e a conversa ficava ainda mais animada, minha vó sempre fazia um café simples mas muito gostoso, por que havia amor e amizade envolvidos.

Não havia, riqueza, a tecnologia se limitava a TV por satélite e ao rádio, havia muito trabalho, mas não faltava relacionamentos sinceros e também respeito à rotina de trabalho e privacidade de cada um.

                Hoje vivemos transitando entre dois extremos, o primeiro é a superexposição e a falta de privacidade gerada pela tecnologia o segundo é a solidão e a supervalorização da individualidade, e sinto dizer que somos deficientes em ambos.

                Não usamos as redes socais para compartilhar informações importantes, mensagens de tolerância, paz, respeito e o amor da Jesus, pelo contrário gastamos tempo dando alfinetadas em nossos colegas, parentes e vizinhos, entramos em discussões desnecessárias e ofendemos nosso próximo. Não usamos nosso telefone ou WhatsApp para oferecer um café e uma boa conversa, também não os usamos para perguntar se a pessoa em questão está disponível para nos receber, afinal quase todo mundo tem uma agenda cheia, mas poucos tem respeito pela agenda alheia, por outro lado, gostamos que as pessoas estejam disponíveis para nossas “urgências” ou para nossa falta do que fazer a qualquer momento.      

Confesso que pensei que a vida humana ficaria mais fácil e a rotina menos pesada, com o advento da tecnologia e da era das redes sociais, mas pelo contrário, não temos mais tempo para as coisas que importam (Deus, família, igreja, nossa saúde e amigos), vivemos correndo de um lado para o outro, ou então, correndo nossos olhos em uma tela, postamos mensagens, fotos, “textão” de protesto, mas não olhamos nos olhos, condicionamos nossa rotina a coisas que nos rendam “likes”, também somos assediados o tempo todo, por todo mundo, de maneira que não há mais respeito pelo horário de descanso, almoço, hora de acordar ou de dormir de ninguém, se estamos on-line, subentende-se que estamos disponíveis o tempo todo, fato este que nos adoece.

                Sendo assim, cada vez mais estudos científicos nas áreas da medicina e da psicologia, comprovam que o mal do século são a depressão e a ansiedade, ambos agravados terrivelmente pelo ritmo de vida que levamos, também cresce a cada ano, o número de pessoas diagnosticadas com a síndrome de Burnout, segundo Trigo (2007), esta síndrome é caracterizada pelo esgotamento causado pelo trabalho e sua rotina extenuante.

                Hoje, não temos tempo para comer direito, fazer exercícios, ler um bom livro, tomar chimarrão com amigos e familiares ou ir à igreja, sem consultar as redes socais a cada minuto, não sem, parecer um morto-vivo, alheio ao entorno.

                Hoje não precisamos mais ir ao banco e perder uma ou duas horas para ser atendido, podemos ir e voltar da cidade vizinha em poucas horas, temos máquinas para fazer mais rápido e melhor todo tipo de trabalho, no entanto, continuamos sem tempo e com problemas de saúde gerados pela rotina cruel que nos é imposta, ou que impomos a nós mesmos. Às vezes me pego lembrando do passado e pensando, que éramos mais livres e vivíamos muito melhor e mais intensamente, apesar de que tínhamos menos e éramos mais simples.

                Apesar da nostalgia nos dizer que vivíamos melhor, não temos como voltar atrás, seria loucura desperdiçar as vantagens do século XXI, seria ingenuidade querer viver como antigamente, mas podemos nos disciplinar de maneira que tenhamos controle sobre nossas vidas, nossas emoções afim de ter melhor qualidade de vida, a bíblia por sua vez nos traz algumas noções de como podemos fazer isso.

                1° estabelecendo prioridades (Deus, família, saúde, trabalho) em Mateus 6:33 vemos que se Deus está em primeiro lugar em nossas vidas tudo “se ajeita”, já em I Timóteo 5:8 somos alertados que devemos cuidar e estarmos atentos a nossa família “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente”.
                2° estabelecendo rotinas (horário para acordar, comer, se exercitar, trabalhar e descansar), doa a quem doer, inclusive a nós mesmos. O autor de Eclesiastes, no capítulo 3:1-8, diz que tudo tem seu tempo, Deuteronômio 5:13-15 e Êxodo 20: 9-11, trazem um ritmo de trabalho e descanso para nossas vidas, sendo assim quando administramos bem nosso tempo, não vivemos correndo sem metas, muito menos lutando batalhas desnecessárias.

3° não seja autossuficiente, Jesus é nosso suficiente salvador, Ele nos diz em Mateus 11:28-30 “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”, logo não precisamos sofrer sozinhos, pois Jesus nos oferece descanso Nele. Já em Gálatas 6:2 somos exortados a ajudarmo-nos mutuamente, “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”.     4° Contentamento, tenha um olhar otimista, seja grato por ter pessoas que se importam com você, por ter um trabalho, onde morar, o que comer, pela saúde e até mesmo pela falta dela, se isso trouxer a você crescimento, o apóstolo Paulo nos dá um exemplo a ser seguido ao escrever: “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece ” (Filipenses 4:11-13).

Logo, se tivermos Deus como nossa prioridade e colocarmos as demais coisas em seus devidos lugares, se entregarmos nossas cargas aos pés da cruz e ajudarmo-nos uns aos outros, se soubermos ver as bênçãos de Deus até nas pequenas coisas, certamente teremos uma vida mais saudável e mais significativa, sem abrirmos mão da individualidade e da privacidade, tão almejadas por muitos, mas inalcançáveis para maioria, que não atingiu a liberdade de ficar INDISPONÍVEL para o mundo e totalmente DISPONÍVEL para Deus.

*Mestre em Geografia, Membro da Igreja Presbiteriana de Pinhão          

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