Quando chega o fim do dia, vemo-nos todos com aquela cara de ônibus lotado, cansados, ansiosos para chegarmos em nosso canto e sermos acolhidos no aconchego do nosso lar e, nele estando, não queremos saber que mais nada aporrinhe a nossa fatigada cumbuca pensante.

Bem que queremos isso, mas não tem jeito, quando nos damos conta, lá estamos nós nos apoquentando com algo. Algumas vezes, esse algo que nos rói, realmente pode ser corrigido e melhorado por uma ação deliberada por nós, porém, na maioria das vezes, nos incomodamos com perrengues que, definitivamente, não são movidos nem mesmo um milímetro para diante com nossas elucubrações cerebrinas.

De todos esses trens fuçados, há um que, realmente, pode ter seu curso mudando com nossas matutadas. Esse trem seria a tal da educação. Não digo isso a respeito da educação nacional, do sistema de ensino, nem mesmo sobre o curso que a dita cuja tenha tomado no âmbito municipal. Nada disso. Refiro-me simplesmente a correção da educação adquirida por nós no correr de nossa porca vida, estejamos nós na flor da idade ou próximos do crepúsculo da nossa jornada.

Se estamos de acordo com esse ponto, penso que devemos lembrar algo que, infelizmente, praticamente desapareceu do nosso horizonte de percepção, devido a profunda desorientação que impera no mundo atual: o fato de que o ato de educar é uma obra de misericórdia. Um ato de compaixão.

Quando procuramos, por exemplo, conhecer a origem da palavra aluno, descobrimos que a mesma significa “desprovido de luz”. Esse termo era utilizado, em priscas Eras, para se referir às crianças que haviam sido desmamadas e que estariam aptas a serem alimentadas com algo mais substancial. Logo, o infante desprovido de luz, seria aquele que estaria apto a receber a luz da orientação e do esclarecimento para poder ascender à plenitude humana que, nada mais seria, do que a tal da maturidade e, contribuir com essa obra é, definitivamente, um ato de misericórdia.

E é muito, muito importante que lembremos que essa caminhada é lenta e gradativa, pois, da mesma forma que não oferecemos a uma criança recém desmamada uma costela assada, nós não deveríamos apresentar a um infante certas informações que, em sua meninice, lhe seriam indigestas, para dizer o mínimo.

Dito de outra forma, antes de procurarmos conhecer e ensinar as grandes verdades, é necessário que, primeiramente, procuremos conhecer as pequenas verdades. Aliás, nós encontramos tais orientações claramente expressas por São Paulo em suas epístolas (1Coríntios III, 1-3; Hebreus V, 12-14).

Tendo isso em vista, compreende-se que a virtude fundamental para o aprendizado de qualquer coisa é a humildade, que nos auxilia na edificação de um sólido senso de realidade e na lapidação de um consistente senso das proporções, como nos ensina Hugo de São Vitor.

Resumindo: sem humildade, não há amadurecimento. Não tem lesco-lesco.

E como todos nós sabemos muito bem, e fazemos questão de esquecer, todo ser humano nasce com seu coração turvado pela soberba, que nos leva a crer que somos autossuficientes, que temos uma luz própria [incompreendida por todos], ignorando olimpicamente quem nós somos de fato.

Não é à toa que o contrário de aluno – aquele que é desprovido de luz e que está apto a começar a ser alimentado com manjares mais substanciosos para crescer em espírito e verdade – é Lúcifer, o portador da luz, o autossuficiente que, desde o princípio, nega a verdade.  Por isso, a diferença que há entre um e outro é de fundamental importância para compreendermos o lúgubre fosso em que nos encontramos atualmente.

Bem provavelmente, o amigo leitor já deve ter ouvido aqui e acolá que o termo aluno seria uma expressão [supostamente] pejorativa, por afirmar que o infante não tem luz própria. Infelizmente, não apenas ouvi como li incontáveis vezes esse dito luciferino.

Uma afirmação aparentemente inocente, que externa uma epidérmica preocupação com a pessoa do infante, mas que, de forma velada, procura instilar na alma juvenil uma soberba sem par, como se essa fosse uma virtude singular, apresentada com inúmeros nomes pomposos, como “protagonismo juvenil” – que levaria as tenras almas a excelsa “construção do conhecimento crítico” – e não como o vil vício que é, que leva a degradação do senso das proporções e a mutilação do senso da realidade.

Enfim, não é à toa, nem por acaso, que a indisciplina, a displicência, a irresponsabilidade e a falta de noção imperam no cenário educacional contemporâneo, deixando todos desorientados, com aquela cara de ônibus lotado.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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