Adoção: perfil idealizado x mundo real

A história de adoção tardia e de uma criança soropositiva na novela da Rede Globo acaba com um final feliz, mas na vida real são mínimas as chances

Enquanto casais tentam das mais variadas formas conceber um filho biológico, milhares de crianças aptas para adoção estão espalhadas em Instituições de Abrigo e Casas Lares pelo país. Isso sem contabilizar as muitas que aguardam uma decisão da Justiça sobre o destino de suas vidas. O contra-senso é ainda maior quando se analisa as preferências dos adotantes: recém-nascido, branco, sem problemas de saúde e do sexo feminino.

O perfil desejado pelos pretensos pais nada tem a ver com as crianças que estão na fila de espera. A maioria é menino, adolescente e grupo de dois a três irmãos. Especialistas da área garantem que nenhum destes menores possuem problemas de comportamento, apenas familiares. “Infelizmente por uma questão cultural o brasileiro não se interessa em adoção tardia (crianças mais velhas). O que já não acontece com os casais estrangeiros que tem um outro tipo de preferência: grupo de irmãos, problemas de saúde e de origem racial negra”.

A velada discriminação dos brasileiros é por pura falta de preparação. Os casais que se inscrevem para uma possível adoção não têm um motivo definido sobre o assunto, estão juntos há pouco tempo, dois a três anos, são jovens, menos de 30 anos, e a situação econômica indefinida. Segundo estudos, a paternidade e a maternidade não estão ligadas a idade, quando o casal está bem preparado o sucesso da adoção independe se a criança é recém-nascida ou mais velha. Os casais estrangeiros, por sua vez, possuem uma relação conjugal estável, são economicamente definidos e mais maduros, geralmente acima de 40 anos.

ADOÇÃO TARDIA

Os estrangeiros sabem realmente o que querem. Geralmente são pais com problemas de fertilidade que já tentaram cientificamente de tudo para ter um filho biológico e não conseguiram. O que na maioria das vezes não acontece com os brasileiros, que acham que não podem ter filhos e não tem isso muito claro. Essa realidade, porém, deve mudar. Para isso, a Corregedoria-geral de Justiça está organizando palestras e debates em todos os municípios do Estado. E o tema principal do encontro é a adoção tardia.

A maioria dos meninos e meninas que moram nos abrigos passam a infância e adolescência nestas instituições. A idade limite de permanência neste locais é 18 anos. A lei, porém, estabelece que os abrigos são apenas provisórios. Mas a realidade é bem diferente. Até em relação a condições físicas dos locais a questão é problemática.

O diagnóstico revelado por profissionais ao visitar abrigos é assustador. Descrevem locais em condições precárias de funcionamento e os denominam como “depósito de adolescentes que lá chegaram ainda crianças, e que por razões de descaso dos setores de competência, hoje se encontram como adultos jovens sem qualquer direcionamento ou perspectiva de reinserção ao meio social”.

Segundo dados, algumas instituições atendem exclusivamente meninos na faixa etária de 0 a 18 anos. E atualmente 58% dos internos têm entre 15 e 19 anos e estão abrigados há mais de sete anos.

REJEIÇÃO

Além da idade ser um empecilho na fila da adoção, ser negro e doente são mais dois itens de rejeição. Atualmente, a novela das sete “Totalmente Demais” está tratando do assunto. Depois de descobrir que é estéril, Carolina (Juliana Paes) tenta adotar uma criança, mas, no meio do processo, a jornalista descobre que o menino é soropositivo. A informação é dada pela assistente social: “- Preciso te falar a verdade, Carolina. O Gabriel é um menino lindo, inteligente, adorável, mas nunca foi adotado por um motivo. Ele é portador do HIV”. Carolina fica chocada e a funcionária do orfanato explica que preferiu omitir tudo: “- Eu não quis te falar antes porque estava cansada de ver o Gabriel ser rejeitado por causa disso. Meninos já são menos adotados que meninas, negros menos que brancos, na idade dele então… Eu arrisquei meu emprego, mas não me arrependo. Eu não escrevi essa informação na ficha do Gabriel para não acabar com as poucas chances que ele tinha de conseguir um lar.”. Depois disso, a mulher pergunta se Carolina gostaria de continuar com a adoção. A jornalista responderá que sim: “- Ele é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. O que eu mais quero é que ele seja meu filho.”.

A história de adoção tardia e de uma criança soropositiva na novela da Rede Globo acaba com um final feliz, mas na vida real são mínimas as chances de um criança com esse perfil. Promotora estima que menos de 1%das crianças e adolescentes soropositivos consigam um novo lar.

MEDO

O medo de perder um filho em pouco tempo ou os cuidados e medicamentos necessários aos soropositivos faz com que muitas pessoas ignorem a possibilidade da adoção de uma criança portadora do vírus HIV. Esse medo, porém, impede a vivência de uma bela lição de vida, como definem os pais que deixaram de lado o preconceito.

Órfãos da Aids ou abandonados pela família biológica ainda recém-nascidos, crianças e adolescentes com HIV crescem em abrigos que dispõem de estrutura necessária para atender ao público. A criação de espaços específicos para os soropositivos não se justifica pelo preconceito ou a preocupação em deixá-los com outras crianças, mas pela infraestrutura _ medicamentos, equipe técnica preparada e outros , que oferecem.

Em Curitiba duas instituições abrigam 50 crianças e adolescentes, que vivem em uma grande família. São elas a Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav) e a Associação Curitibana dos Órfãos da Aids (Acoa). “Não os preparamos para a adoção. Proporcionamos uma vida com qualidade, saúde. A adoção é consequência”, afirma a coordenadora da Apav, Maria Rita Teixeira. Nos dois abrigos foram contabilizadas, nos últimos 15 anos, pouco mais de 30 adoções.

PINHÃO

A psicóloga Jolly Danúbia de Oliveira, do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Pinhão, afirma que, realmente, a maior dificuldade na adoção está no perfil esperado pelos adotantes.

“O que causa morosidade no andamento da fila são os perfis escolhidos. No Pinhão a maioria pretende abaixo de quatro anos, sendo a preferência de abaixo de três em quase todo o País. Enquanto nas instituições existem crianças de cinco anos até adolescentes de 17 esperando um lar, uma família ou mesmo um padrinho afetivo. Por isso muitas vezes a conta não fecha, a escolha dos casais é por crianças recém nascidas até três anos e o número é muito maior que o número de crianças disponíveis. Assim, é necessário trabalhar e informar sobre a adoção tardia que visa desmistificar as rotulações e antipatias que os adotantes possuem para esse perfil”, frisa a psicóloga.

Segundo informações, em Pinhão a busca pela adoção legal é baixa. Mas, apesar do número ser baixo, há pinhãoenses na fila de espera por um filho. “Eles são inseridos no cadastro nacional, podendo ser chamados para qualquer local”, explica Jolly Danúbia de Oliveira.

 

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