WINTERSHOW: Em 2019, atenção especial para o uso de tecnologia e inovação no campo

Fotos: Rodrigo Disnei

O maior evento técnico-científico do Brasil voltado a cereais de inverno, também deu destaque ao cultivo do trigo e apresentou uma nova cultivar de cevada

Por Andréa A. Alves

O WinterShow é um evento realizado desde 2004 pela Cooperativa Agrária e pela Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (Fapa), que aborda a tecnologia de toda a cadeia produtiva dos cereais de inverno, da pesquisa à agroindustrialização. Nos campos da Fapa, na Colônia Vitória, em Entre Rios, Guarapuava, todo ano traz inovações e as tendências do setor.

Este ano, na sua 16º edição, demonstrou novamente os motivos pelos quais é considerado o maior evento relativo a cereais de inverno do país nos dias 15, 16 e 17 de outubro. O evento gratuito e aberto ao público contou com o patrocínio da Oro Agri, Banco do Brasil, Sicredi e Caixa Econômica Federal. Também do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), Gigamix, Rocha Terminais Portuários e Logística e Sindicato Rural de Guarapuava.

O foco principal do WinterShow é trazer um evento técnico que atraia a cada ano mais cooperados, técnicos, produtores da região, pesquisadores, pessoas do comércio, do agronegócio, estudantes.

A abertura do evento contou com a presença do Cônsul Geral da Alemanha em São Paulo, Axel Zeidler. E a edição apresentou seis áreas de pesquisa aplicada, três palestrantes convidados, dinâmica de máquinas, balcão de negócios, a Estação Open Innovation, recorde de público e expositores, desafio de tratores, cantinho doce, nova cultivar de cevada, lançamento da Campanha Plante Trigo e as palavras mais ouvidas no WinterShow 2019 foram inovação e tecnologia.

O coordenador da Fapa, Márcio Mourão, afirmou que trouxeram uma edição reformulada em termos de tecnologia em toda a cadeia, que vai desde a parte do campo com novas cultivares até novas metodologias de produção, sempre visando agregar valor para o produtor rural e para o cooperado da Agrária.

“Estamos também trazendo a inovação, o caráter da digitalização na agricultura, ajudando não só na gestão da propriedade, mas, também, no manejo de pragas e doenças que têm esse apelo de sustentabilidade da cadeia produtiva”, observou Márcio Mourão.

INOVAÇÃO E FUTURO DOS NEGÓCIOS

Com atenção especial à relação entre o campo e o processo de modernização, no segundo dia de evento, palestra com o empresário, investidor-anjo e professor pela FGV, Arthur Igreja, que falou sobre a “Inovação Disruptiva e o Futuro dos Negócios”.

Deixou claro para os produtores rurais que o mercado que pertencem, sem dúvida nenhuma, irá crescer. Afirmou que existem apenas dois países no mundo capazes de crescer ainda mais, os Estados Unidos e o Brasil. “O nosso país está com tudo, só precisamos de infraestrutura, logística, um governo que não atrapalhe, coisas que não são difíceis. Mas o potencial de mercado é colossal”.

O palestrante deu algumas pistas de como será a vida em um futuro recente no campo, onde o desafio será a produtividade. Disse que a briga será mais além, que será fazer muito mais na mesma propriedade rural. “A produtividade com a edição genética terá um salto. Nos grandes eventos em outros países já estão falando em colheita uma vez por mês em 10 a 15 anos. A dúvida se vai precisar expandir fortemente fronteira agrícola cai por terra. A briga será fazer muito mais na mesma proporção de terra”, frisou.

De acordo com Arthur Igreja, hoje já aparecem algumas tendências, alguns países estão apostando em áreas diferentes, como os Estados Unidos em alimentos orgânicos e frescos.

Ele citou, também, a Holanda. Segundo Arthur Igreja, quando pegamos valor agregado vendido por ano, os holandeses dominam as exportações agrícolas. Mesmo tendo um território um pouco menor que o Estado do Sergipe, conseguem exportam mais valores que o Brasil, porque produzem produtos em uma cadeia verticalizada e geram alto valor agregado. “Eles conseguem ter o PIB agrícola comparado com o do Brasil”.

O palestrante deu vários exemplos e discutiu situações que se transformaram com o passar do tempo, apresentando ao público presente do WinterShow um panorama sobre o processo de revolução tecnológica. Citou a necessidade de aliar a uso de aparelhos e equipamentos de última geração à experiência e conhecimento humanos para a execução das atividades agrícolas. Mas, mesmo com toda a tecnologia, afirmou que o ser humano continuará sendo insubstituível no mercado.

IMPACTO DAS INOVAÇÕES

A discussão sobre a inovação continuou no período da tarde. No estande comandado pelo Ecossistema de Inovação de Guarapuava, movimento capitaneado pelo Sebrae, formado por empresas, instituições do poder público, faculdades e universidades locais, foi realizado um debate sobre o impacto das inovações no cenário agrícola, que contou com a presença do secretário municipal de Indústria e Comércio, Sandro Abdanur, do prefeito municipal Cesar Silvestri Filho e do diretor presidente da Cooperativa Agrária, Jorge Karl.

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

No terceiro dia do evento, o público presente acompanhou a palestra com o empreendedor serial, investidor-anjo, mentor de startups e autor de 60 Dias em Harvard, Allan Costa, que falou sobre a “Transformação Digital e o Futuro do Agronegócio”. Ele explicou que transformação nada mais é que fazer uma coisa diferente. Mas, que as transformações são aceleradas e que o tipo que tecnologia que se precisa é a barata, acessível, simples, disponível e que todo mundo usa.

O palestrante falou sobre inovação nos processos produtivos, nos modelos de negócios, nos hábitos do dia a dia e sobre valor. “Hoje o valor não está mais nos ativos, mas, sim, nas possibilidades de conexão. Deve ser feito de uma maneira melhor aquilo que já é feito”.

Allan Costa afirmou que a agricultura será cada vez mais baseada em dados e em precisão e que o agricultor tem que entender que a tecnologia é uma oportunidade. “Está se tornando cada vez mais barata e está acessível para qualquer tamanho de propriedade e qualquer tipo de produção. E não há muita alternativa, se ele não for por este caminho vai perder competitividade”.

TECNOLOGIA NO CULTIVO

Na estação de Cevada, o painel tratava da tecnologia no cultivo da cultura. “Tratamos de variedades de cultivares, de controle de produção dessa lavoura no campo, com toda a tecnologia aplicada na cultura da cevada para se obter uma boa rentabilidade, uma boa produtividade e, principalmente, produzir cevada com qualidade. De nada resolve para a indústria se a cevada não tem qualidade. A cevada precisa atingir uns parâmetros de qualidade para que, no momento adequado, seja malteada produzindo um malte de qualidade, caso contrário, essa qualidade do malte será prejudicada por conta do manejo inadequado no campo, que resulta em uma cevada de qualidade inferior”, explicou o pesquisador da Fapa, Noemir Antoniazzi.

Ele, também, falou sobre a cevada produzida em Guarapuava. Afirmou que com o desenvolvimento de novas variedades, mais adaptadas ao sistema de cultivo e associada ao sistema de cultivo empregado para a cultura no campo, hoje a cevada produzida aqui na região de Guarapuava e na região de abrangência da Cooperativa é tão boa quanto a cerveja importada. “Nós conseguimos com a cevada nacional partir para a produção de outros maltes especiais devido a boa qualidade da cevada produzida aqui na região”, destacou o pesquisador.

OPEN INNOVATION

Seguindo a linha de inovação, além do Balcão de Negócios, a edição apresentou a Estação Open Innovation. Um espaço onde empresas ligadas ao agronegócio apresentaram soluções tecnológicas para o produtor e visitante.

 Mostraram as principais novidades tecnológicas que têm alguma conexão com o trabalho agrícola. Grandes empresas apresentaram importantes melhorias recentes de equipamentos. Conhecimento para os produtores poderem embasar melhor suas decisões”, explicou Marcio Mourão.

Como a agricultura é o setor que passa por inovação, a feira é uma boa oportunidade para que as empresas mostrem ao público estas novidades. Para o produtor rural e engenheiro agrônomo da Cooperativa Agrária, Otavino Rovani, as novidades do WinterShor 2019 foram muitas.

“Vimos as novas cultivares. É uma evolução e temos muito a ganhar. Nos acrescenta como produtor e técnico estas novidades. As tecnologias estão aí para nos ajudar. Muito sucesso esta edição e chamou atenção, também, dos meus colegas de profissão, dos produtores, empresários e estudantes”.

RECORDE

A edição 2019 bateu o recorde para o primeiro dia desde que o WinterShow foi criado. Dia 15, cerca de 1.100 pessoas passaram pelos campos da Fapa. Registrando o maior público em 16 edições, reunindo quase 5 mil pessoas.

Aumento, também, no número de expositores. Vinte e quatro porcento em comparação à edição anterior, com quase 90 estandes de empresas e instituições ligadas ao agronegócio e à inovação.

Para o coordenador  Marcio Mourão, os números refletem o interesse dos cooperados e demais produtores rurais de se atualizarem sobre as melhores técnicas para rentabilizar as culturas de inverno. “Todas as novidades agregaram trazendo mais participação para evento. Recorde de expositores e de visitantes, porque entenderam a proposta do evento”.

NOVIDADES

Além da tradicional dinâmica de máquinas, uma das novidades na programação foi o Bremswagen – Desafio de Tratores. Uma competição em uma pista de 100 metros onde os participantes têm direito a três tentativas por carga. Venceu quem conseguiu guiar o trator pela maior metragem.

Outra novidade da edição 2019 foi o Süsse Ecke, o Cantinho Doce. Os visitantes puderam conhecer e provar as delícias da culinária suábia, como as tradicionais tortas Dobosch e Hilmmelstort.

PESQUISAS

As palestras simultâneas da Fapa, que divulgam as principais pesquisas da fundação, foram realizadas nos dois primeiros dias de evento. O público pode escolher entre participar das estações de trigo, fertilidade do solo e herbologia, cevada e entomologia e fitopatologia.

Na estação Fertilidade do Solo e Herbologia foi apresentado o “Efeito do gesso na produtividade das culturas”, pela pesquisadora da Fapa, Sandra Mara Vieira Fontoura. De acordo com ela, trouxeram resultados de uma pesquisa que desenvolvem há vários anos e, também, resultados do Brasil como um todo. “Mostramos o efeito desse insumo no rendimento de grãos das culturas e associado a isso, também, a importância da aplicação de calcário, que é um insumo em que é usado para correção do solo”.

Na estação Entomologia e Fitopatologia foram apresentadas duas pesquisas. Uma delas o “Impacto de doenças em cereais de inverno”, pelos pesquisadores Dauri José Tessmann, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e Heraldo Rosa Feksa e Cristiane Gonçalves Gardiano, da Fapa. A outra, “Fatores a serem considerados para um manejo adequado de pragas em cereais de inverno”, pelo pesquisador Alfred Stoetzer, da Fapa.

A pesquisa “Manejo de plantas daninhas no sistema cereais de inverno/soja” estava na estação Fertilidade do Solo e Herbologia e foi apresentada por Vitor Spader e Everton Ivan Makuch, da Fapa.

Na estação Cevada, o “Manejo da cultura da cevada cervejeira para altas produtividades”, apresentada pelos pesquisadores Noemir Antoniazzi e Eduardo Stefani Pagliosa, da Fapa.

E, na estação Trigo, o “Retorno econômico da rotação de culturas com cereais de inverno”, foi apresentado pelo pesquisador Juliano Luiz Almeida, da Fapa.

TRIGO

Com papel estratégico no sistema de produção agrícola, o trigo também teve atenção especial no WinterShow 2019. No primeiro dia do evento foi realizado o Painel: “trigo: sua importância e seus desafios”, conduzido pelo pesquisador da Fapa, Juliano Almeida, que contou com a presença dos pesquisadores Claudio Kapp Junior, da Fundação ABC, e Vladirene Macedo Vieira, da Embrapa.

Como o cereal traz inúmeros benefícios agronômicos e econômicos onde está inserido, além da pesquisa, do painel, foi lançada a Campanha Plante Trigo.

Apesar do Paraná ser o maior produtor de trigo do país, observa-se uma redução no plantio na região Centro-Sul do Estado nos últimos anos. E para buscar reverter esta situação, visando o equilíbrio agronômico, a Cooperativa Agrária lançou a campanha com o objetivo do produtor voltar a plantar trigo como antes, em uma proporção de 25% ou 33%.

Além disso, contemplaria de forma integral a estratégia da Cooperativa Agrária para a industrialização dos produtos, a exemplo da farinha de trigo, através do moinho, da cevada com a maltaria, do milho com a fábrica de grits e flakes e da soja com a indústria de óleo de soja.

De acordo com o coordenador  Márcio Mourão, o lançamento da Campanha Plante Trigo foi justamente pela importância da cultura não só para Guarapuava e região, mas, para o Paraná. “Estamos com esta campanha para mostrar a cadeia do trigo, para entender o custo de se produzir o trigo e aonde que a gente consegue agregar rentabilidade para o produtor”.

Para o produtor rural, Otavino Rovani, a campanha é um incentivo para uma região que tem muito potencial. “É uma cultura importante porque nos traz rentabilidade. E dentro da rotação de culturas e dentro de um programa de melhorias de custos é muito importante, porque faz parte de um sistema, trigo/soja, aveia/milho ou aveia/soja”.

Otavino Rovani é triticultor desde 1985 e conta que o cultivo do trigo é no final de junho e início de julho. “É a época mais recomendada para a região, porque conseguimos fugir das geadas que podem ocorrer em setembro”.

Silvino Caus, engenheiro agrônomo da Cooperativa Agrária, também afirmou que a cultura é muito importante para o sistema de produção, porque além de trazer uma economia em termos de resultado econômico interessante, também produz a palha para o sistema. “A gente trabalha no sistema de plantio direto, por isso que se torna muito importante para rotação de cultura principalmente”.

Embora possua relevância junto à indústria, o cultivo do cereal não é suficiente para suprir a demanda nacional. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra 2019/2020 produzirá 5,4 milhões de toneladas de trigo, aquém das 11 milhões que são consumidas anualmente no Brasil. O Paraná é o maior produtor do país, respondendo por aproximadamente 50% do volume colhido. Apesar disso, nota-se uma diminuição do plantio na região centro-sul do Estado.

Ele já foi muito mais cultivado há anos na região, mas devido a muitos entraves na questão política, na questão econômica e no preço do produto, reduziu o seu plantio, é o que explicou Silvino Caus.

Temos vários estudos em termos de custos que a gente mostra ao produtor confirmando que é viável se plantar o trigo por várias razões. Nós aqui na Cooperativa Agrária temos uma política muito bem definida e isso faz com que o nosso agricultor, nosso produtor rural da região, consiga plantar visando o lucro, porque ninguém planta alguma coisa se não tem lucro. A Agrária tem a indústria que produz produtos derivados, assim consegue remunerar o produtor a ponto dele se beneficiar com o cultivo”, frisou Silvino Caus.

NOVA CULTIVAR DE CEVADA

Na Estação de Cevada, além de falar sobre o manejo para altas produtividades, foi apresentada ao público a Imperatriz, a nova cultivar de cevada. Por mais de 10 anos, o programa de melhoramento da Fapa trabalhou para o desenvolvimento de uma nova variedade que respondesse aos anseios dos cooperados da Agrária no que diz respeito à produtividade e atendesse as particularidades exigidas pela indústria para a fabricação de um bom malte.

“A Imperatriz foi conseguida graças a um programa próprio de melhoramento de cevada em 2009, aí iniciamos com os cruzamentos. Em 2010 foram feitas várias gerações de inverno e de verão, plantando duas gerações por ano. Isso permitiu acelerar seu processo em 10 anos e já estamos com a variedade no campo, caso contrário precisaria de 12 a 15 anos”, comentou o pesquisador da Fapa, Noemir Antoniazzi, que está feliz e realizado com o lançamento.

A Imperatriz é a primeira cultivar genuinamente da Agrária. “Ela é fruto do nosso trabalho aqui com cruzamento, seleção, avaliação e desenvolvimento”, comemorou o pesquisador. O nome foi escolhido em homenagem aos 50 anos do Colégio Imperatriz.

De acordo com Noemir Antoniazzi, a nova cultivar tem um apelo bem interessante com relação a sanidade. Uma variedade que tem menos doenças e por conta dessa tolerância genética é possível cultivar com menos aplicação de fungicida. “Então temos aí uma economia, uma menor poluição do ambiente e produzindo uma cevada com alta produtividade e boa qualidade de malte para indústria de cervejas”, destacou.

Algumas lavouras estão na fase de multiplicação de sementes. O pesquisador explicou que é um processo que faz parte do desenvolvimento de uma variedade. “Temos uma área plantada este ano. Para o ano que vem teremos um volume maior de sementes e poderá ser plantada uma área maior e, possivelmente, estará à disposição dos produtores que queiram fazer uso dela e, também, para a área comercial e para a produção de malte”.

COLHEITAS DA VIDA

Para encerrar o WinterShow 2019, a palestra “Gratidão: o ciclo constante de plantios e colheitas da vida. Como identificar o caminho certo?”, com Leo Chaves, famoso pela dupla com o irmão Vitor. Leo também é palestrante, escritor e recentemente lançou-se em carreira solo.

Em suas palestras fala sobre inúmeros temas que envolvem motivação e educação sempre aliados a música, criando uma esfera intimista e penetrante, que instiga os participantes a tomar outras decisões e buscar por novas oportunidades.

Convidado para encerrar o evento, o músico-conferencista Leo Chaves falou sobre a relevância de participar de um evento importante para o agronegócio e, disse, que ficou lisonjeado em estar de frente para este público, dos produtores rurais, que sustentam o país.

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