Por Bruno Zampier

A mais famosa pintura de todos os tempos, é a imagem de uma mulher. Certamente existem pinturas e imagens famosas de Deus, dos santos ou de personagens históricas, mas foi a imagem de Mona Lisa que se tornou verdadeiro sinônimo de obra de arte. Foi pintada por Leonardo Da Vinci, o gênio italiano que ora é lembrado como grande artista, ora como grande inventor. Mas o que a torna tão especial?

Uma obra de arte, assim como um texto, é feita para ser interpretada. Mas há um abismo de diferença entre interpretar um texto, e interpretar uma pintura ou uma escultura. Porque para ler um texto e captar sua mensagem – ainda que superficialmente -, basta conhecer o idioma e as palavras que estão ali escritas. Com as artes plásticas não é assim. Não há palavras a serem lidas, mas apenas uma imagem.

Frequentemente uma imagem aparentemente banal ou comum como uma paisagem de campo, um cavalo ou uma pessoa. Para interpretá-la, será preciso recorrer à imaginação. Isso significa que uma pintura ou uma escultura, possui uma margem maior de interpretação do que um texto, como um mar aberto onde é possível, teoricamente, navegar para qualquer direção. Não é possível aplicar nessa interpretação o mesmo critério de “certo” e “errado” que aplicamos objetivamente para interpretar um texto científico ou um artigo de jornal. Uma obra de arte exige do observador um exercício de criatividade e imaginação.

O artista força o observador a isso. E, a menos que o observador possua uma imaginação produtiva, não verá nada naquela obra além da figura retratada: um campo, um cavalo ou uma pessoa. Isso significa que muito provavelmente, a interpretação de uma grande obra de arte diga mais sobre o intérprete do que sobre a própria obra. À medida que refletimos sobre a cena apresentada, somos obrigados a formular perguntas e tentar responde-las: o que é? Quem é? Por que está ali? Por que foi pintada assim e não de outro modo? Por que com essa roupa? Por que essa expressão no olhar?

A primeira característica de Mona Lisa que precisa ser destacada é o seu realismo. Na verdade estamos tão acostumados a vê-la nos lugares mais banais – impressa num cartão postal ou em um outdoor – que nos esquecemos de que se trata de uma pintura, feita por um homem com um pincel na mão. Mas este fascínio em torno de Mona Lisa só pode acontecer justamente porque, de tão realista, é possível esquecer que se trata de uma pintura. Basta compará-la com outras imagens de pessoas retratadas por outros artistas – ainda que grandes artistas – e perceberemos que nenhuma pintura – ou pouquíssimas delas – conseguem ser tão realistas.

Em geral, os retratos não conseguem transmitir a sensação de que estamos diante de uma pessoa viva. Na maioria das pinturas, por mais perfeitas que sejam, vemos a imagem de uma pessoa que mais parece um boneco, como uma natureza morta. Mona Lisa, por algum efeito misterioso, parece que a qualquer momento poderá piscar os olhos, ou erguer as mãos para aprumar o cabelo. E.H. Gombrich, um dos mais famosos críticos de arte, garante que, se uma simples fotocópia já é capaz de produzir essa sensação, diante do quadro original, exposto no Museu do Louvre em Paris, este efeito é deveras “sinistro”[1].

                Uma obra com tal efeito misterioso, só poderia ter sido criada por um gênio igualmente misterioso. Leonardo da Vinci nunca revelou a identidade de Mona Lisa, embora tenha deixado uma porção de escritos, anotações e inclusive diários. Nestes escritos, Da Vinci adotou uma técnica de escrita espelhada, escrevendo da direita para a esquerda, sem utilizar pontuação e ainda espalhava símbolos enigmáticos por todo o texto. As razões para tal empenho nunca foram esclarecidas. Teria ele algo a esconder?

Ao pintar Mona Lisa, o gênio renascentista também tratou de esconder as pinceladas. Não é possível perceber na imagem qualquer sinal de pincel. Isto porque adotou a técnica do sfumato, que executou com perfeição única. Trata-se de técnica usada para gerar suaves gradientes entre as tonalidades, utilizando-se de verniz de madeira que corrói levemente a tinta, fazendo com que as marcas do pincel desapareçam.

Isto não é suficiente, no entanto, para explicar o estranho realismo da imagem. O detalhe mais interessante talvez, esteja no modo como Leonardo utilizou-se das sombras no rosto de Mona Lisa para criar uma expressão enigmática e única. Gombrich explica:

Qualquer um que já tenha tentado desenhar ou esboçar um rosto sabe que o que chamamos de expressão reside basicamente em dois elementos: os cantos da boca e os cantos dos olhos. Ocorre que foram exatamente esses traços que Leonardo deixou deliberadamente indistintos, fazendo-os desvanecer numa sombra suave. É por isso que não temos como definir o real estado de espírito de Mona Lisa. Sua expressão parece simplesmente nos escapar. [2]

Enquanto os demais pintores buscavam atingir o mais perfeito realismo, esforçando-se por pintar todos os detalhes do rosto de uma pessoa, Leonardo da Vinci percebeu que ao invés de produzirem imagens realistas, eles acabavam criando imagens sólidas demais, como bonecos ou estátuas de pedra, sem a volatilidade  e a plasticidade de uma pessoa real. Ao invés de pintar todos os detalhes, Da Vinci deixou ao intérprete a tarefa de completar com sua imaginação os contornos dos olhos e da boca de Mona Lisa, justamente os pontos do rosto que definem a expressão. Por isso, é possível ver em seus lábios, ora um sorrisinho de deboche e ironia, ora um sorriso tímido que sugere o esforço de uma pessoa triste em parecer um pouco mais alegre.

E não é este justamente o mistério que encontramos em cada pessoa?

Quantas vezes não nos surpreendemos com pessoas que julgávamos felizes, de repente revelarem-se atormentadas por uma tristeza ou uma revolta? Quantas vezes não nos surpreendemos com pessoas que achávamos exemplo de virtude, quando na verdade eram movidas pelas mais mesquinhas ambiçoes? Ou ainda, quando descobrimos que aquela pessoa que julgávamos o pior dos seres, na verdade era alguém muito melhor do que nós mesmos…

Cada pessoa traz consigo um grande mistério. Frequentemente somos surpreendidos pelo comportamento ou pelas palavras, mesmo das pessoas mais íntimas. Toda tentativa de reduzir o outro a um conceito ou a uma palavra, evanesce como as pinceladas de Leonardo sob a técnica do sfumato. E no fim das contas, saímos convencidos de que tudo o que projetamos no outro – um sorriso de alegria? ou de ironia? ou de disfarçada tristeza? – na verdade não passava de um reflexo do nosso próprio estado de alma. Creio que ao retratar Mona Lisa com aquela enigmática expressão, Leonardo captou a essência humana concebida como um mistério.

Afinal, não seria de fato muita presunção querer compreender o outro, se frequentemente nos surpreendemos com nós mesmos? “Conhece-te a ti mesmo” dizia o oráculo dos antigos sábios gregos, dos quais o renascentista Leonardo era admirador e discípulo. Talvez seja este mesmo o conselho, mais do que um suposto sorriso, que emana há cinco séculos, dos lábios silenciosos – porém expressivos -, de Mona Lisa.


[1] GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2013, p. 226.

[2] GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2013, p. 228.

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