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O PREÇO DA BONITEZA

Tudo é passageiro nessa vida, tudo, menos a estupidez humana. Ela veio pra ficar e, com ela, temos nos guiado pelos rincões desse mundão desde priscas eras e, ao que tudo indica, continuaremos a fiar nosso passo com suas dicas.

Mas é claro que todos nós, cada um no seu quadrado, julga que aqueles que ousam discordar de nossas convicções furadas seriam uns tapados de marca maior, pois, como o zarolho do Sartre nos ensina – e ele nos ensina alguma coisa – os irracionais seriam sempre os outros, nunca nossa pessoinha.

Cremos que o inferno jamais poderia ter suas raízes firmadas em nossas luminosas ideias. Cremos nisso porque nossa soberba nos cega de tal maneira que, mesmo estando tateando no meio do tártaro dos ideais e das ideologias – sem saber exatamente para onde estamos indo – continuamos estupidamente sem saber para onde ir, crentes de que nossa triste condição é responsabilidade única e exclusiva de terceiros, nunca nossa [um cadinho, talvez].

Por imaginarmos que a responsabilidade – logo, a culpa – seria sempre dos outros, restringimos a amplitude do nosso horizonte aos limites espinhosos da crítica da razão curta. Aliás, como nos ensina Eça de Queiroz, nós apenas começamos a, de fato, nos tornarmos um idiota devidamente documentado quando atingimos a idade de razão. Antes disso não.

Nos recusamos, insistentemente, a perscrutar as raízes profundas dos problemas que hoje nos atormentam e, é claro, não estamos nem um pouco dispostos a especular sobre as resoluções que poderiam ser tomadas por nós no momento presente e, muito menos, paramos para considerar os cenários possíveis, alvissareiros ou não, que podemos desenhar em longo prazo.

Preferimos, como preferimos, ter sempre diante de nossos olhos, e ao alcance de nossas mãos, uma resposta rápida, com efeitos agradáveis em curto prazo, porque não sabemos aguardar. Não aprendemos a plantar e esperar e, ao que tudo indica, não estamos dispostos a aprender, porque aprender dói, como bem nos ensina o livro do Eclesiástico.

Não sabemos plantar pinheiros. Sabemos apenas semear ervas-daninha. Essa é uma triste verdade.

Não é à toa que a nossa sociedade encontra-se chafurdando na lama. E estamos nessa situação porque não sabemos dizer para nós mesmos as palavras mágicas certas quando nos defrontamos com uma situação problema, palavras as quais seriam: “eu não sei”.

Não. Não queremos, de jeito maneira, dizemos isso para nós mesmos. Sempre imaginamos que temos a resposta para os problemas que nunca realmente analisamos; problemas os quais nós apenas demos uma lambida “criticamente crítica”. Apenas isso e olhe lá.

Abre parêntese: e não ousamos dizer tais palavrinhas porque isso iria implicar em nos atirarmos num ermo de solidão, porque aprender é sempre um ato solitário, mesmo que estejamos imersos nas turbulências de uma multidão. Aliás, como nos ensina o professor Olavo de Carvalho, somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer. Fecha parêntese.

Com isso não estou dizendo que não realizamos nada de bom. Não. O que digo é que, frequentemente, não procuramos compreender os problemas com um mínimo de profundidade e, principalmente, não nos indagamos quais poderiam ser as prováveis consequências das nossas decisões, que hoje tomamos, num futuro não muito distante.

Esperamos, muitas vezes, que uma solução seja, do nada, por alguém, providenciada; sem que jamais tenhamos cogitado a possibilidade de procurarmos agir de uma forma minimamente previdente.

E se não fazemos isso, infelizmente, não sabemos claramente o quanto nos custou o ontem e, é claro, não fazemos a melhor ideia do valor do amanhã.

Detalhe importante: as decisões que nos parecem, muitas vezes, as mais racionais, frequentemente são as mais atabalhoadas. As que parecem ser as mais generosas terminam sendo as mais cruéis. Aliás, todas as grandes tragédias que cobriram a humanidade com sangue e lágrimas foram realizadas em nome de elevadíssimos ideais e lustrosas utopias e, todas, foram e são fruto da razão humana presunçosamente esclarecida, pretensamente esclarecedora, com sua artificiosa boniteza.

Pois é, mas tudo na vida tem um custo, inclusive a boniteza. Principalmente ela. E se não levarmos isso em conta, não poderemos lamentar os dias sombrios que nos aguardam.

E não tenhamos medo do naufrágio de nossas ilusões porque, como nos ensina Machado de Assis, alguma coisa sempre escapa ao naufrágio das ilusões. E essa coisa é a verdade. Verdade que, frequentemente, não queremos ver e, por isso, continuamos diuturnamente a afagar nossos grilhões ideológicos.

Enfim, poderíamos, neste ínterim, listar incontáveis exemplos históricos de grande monta, porém, creio que seria muito mais frutífero se, cada um de nós, procura-se elencar os casos contabilizáveis de equívocos que, sim, foram realizados por nós e, se possível for, podemos também, ao final, tomar posse e consciência deles e, quem sabe, crescermos em espírito e verdade com esses tropeços, que são nossos, inteiramente nossos.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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Naor Coelho

Naor Coelho, administrador de empresa, jornalista e o diretor responsável pelo Fatos do Iguaçu

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