Nesta semana, uma conhecida terminou um tapete de crochê. Quando mostrou o resultado, logo veio a sugestão: “Você devia fazer para vender”. Imagino que fosse um elogio, uma forma de dizer que o trabalho tinha ficado bonito, mas fiquei pensando em como a gente chega depressa a essa conclusão. Entre admirar algo que alguém fez e sugerir que aquilo vire uma fonte de renda, quase não existe intervalo.
Se você faz um bolo gostoso, precisa aceitar encomendas. Se gosta de fotografar, deveria cobrar pelos ensaios. Se borda, pinta ou faz crochê, já pode abrir uma lojinha no Instagram. Parece que descobrir uma habilidade vem acompanhado de uma tarefa: descobrir também como ganhar dinheiro com ela.
E eu entendo. Com tanta conta para pagar, é difícil olhar para a possibilidade de uma renda extra sem fazer alguns cálculos, vender algo feito pelas próprias mãos pode ser uma escolha boa, necessária e até prazerosa. O que me chama a atenção é a rapidez com que essa possibilidade vira o destino esperado de qualquer coisa que fazemos bem.
A internet tem uma participação nisso. Você começa procurando uma receita ou um tutorial para aprender os primeiros pontos. Daqui a pouco, está diante de alguém ensinando a precificar seu trabalho, conquistar clientes e transformar aquela atividade em um negócio. Antes mesmo de decidir se gosta de fazer, já encontra orientações sobre como vender.
Só que existe uma diferença entre terminar um tapete porque deu vontade e precisar terminar cinco porque há pessoas esperando a entrega.
No primeiro, você pode desmanchar um pedaço, testar outra cor, deixar tudo guardado por duas semanas. Pode fazer devagar. Pode até descobrir, no meio do caminho, que não quer continuar. Quando entram as encomendas, entram também os prazos, os custos, as mensagens para responder e as expectativas de outras pessoas. A atividade pode continuar sendo boa, mas passa a ocupar outro lugar na vida.
Talvez parte da graça de ter um hobby esteja justamente nessa liberdade. Passar uma tarde tentando aprender alguma coisa sem precisar demonstrar que o tempo foi bem investido. Fazer algo torto e guardar mesmo assim. Gostar de uma atividade sem ter a menor intenção de se tornar excelente nela.
Aliás, acho que estamos ficando sem espaço até para isso: sermos “mais ou menos” em alguma coisa. Se começamos a correr, surge uma meta. Se gostamos de ler, aparece o número de livros que deveríamos terminar no ano. Se aprendemos um trabalho manual, alguém pergunta quanto vamos cobrar. Sempre parece haver um próximo passo que tornaria aquela experiência mais válida.
E, quando percebemos, estamos administrando também aquilo que procuramos para sair um pouco da rotina.
Fico pensando se, ao dizer “você devia vender”, às vezes não colocamos uma pequena obrigação dentro de um elogio. A pessoa queria mostrar o que fez. Nós já oferecemos um plano para o que ela deveria fazer depois. Talvez ela só esperasse ouvir que ficou bonito.
Não sei se aquela conhecida vai vender tapetes. Pode ser que queira, e que goste. Mas espero que também possa continuar fazendo apenas quando tiver vontade, escolhendo as cores de acordo com a própria casa e levando o tempo que levar.
Ela terminou um tapete. Talvez já tivesse feito tudo o que queria.










