Terça-feira, 13 de outubro de 2026
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Uma infância toda publicada

Mariana Huller, colunista do Portal Fatos do Iguaçu, com cabelos longos e ondulados, usando óculos, blusa de gola alta em tom terracota e cachecol marrom, diante de uma parede clara.

Ontem foi Dia das Crianças. Entre presentes, fotografias, brincadeiras e aquela nostalgia quase inevitável da nossa própria infância, uma coisa me chamou atenção: existe uma geração inteira que, antes mesmo de aprender a falar, já tem uma história nas redes sociais.

A primeira ultrassonografia foi publicada. O chá revelação virou vídeo. O nascimento ganhou álbum. Vieram a primeira papinha, os primeiros passos, a primeira palavra, o primeiro dia de escola, a birra engraçada, o tombo, o medo, o presente de aniversário. Quando essa criança tiver idade suficiente para criar o próprio perfil, talvez descubra que boa parte da sua vida já estava na internet antes mesmo de ela entender o que a internet era.

E isso deveria nos causar pelo menos algum desconforto.

Não porque registrar a infância seja algo novo. Nossos pais também fizeram isso. Existem caixas cheias de fotografias, fitas de vídeo, álbuns de aniversário e imagens constrangedoras que provavelmente preferíamos que ninguém visse. A diferença é que essas fotografias costumavam ficar dentro de casa. Eram mostradas para parentes, amigos próximos, talvez para algum namorado futuro durante um almoço de família particularmente cruel.

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Agora, uma fotografia pode chegar a centenas ou milhares de desconhecidos.

Criamos uma cultura em que compartilhar parece quase uma consequência automática de viver. Se algo bonito acontece, fotografamos. Se fotografamos, publicamos. E pouco paramos para pensar se aquela memória pertence apenas a nós.

Porque talvez esse seja o ponto mais complicado quando falamos de crianças: a história também é delas.

Uma criança pequena não consegue compreender completamente o que significa ter uma imagem publicada, muito menos imaginar que aquele vídeo engraçado pode continuar circulando quando ela tiver 15, 20 ou 30 anos. Não consegue avaliar exposição, permanência digital ou privacidade. Somos nós, adultos, que fazemos essa escolha por ela.

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E nem toda exposição precisa ser extrema para merecer reflexão. Não estou falando apenas das famílias que transformam os filhos em influenciadores ou fazem da rotina das crianças um negócio. Estou falando também de algo muito mais cotidiano: aquele vídeo da criança chorando que parece engraçado, a foto sem roupa durante o banho, a história constrangedora contada para centenas de seguidores, a intimidade transformada em entretenimento porque “é só para os amigos”.

Talvez valha inverter a pergunta.

Em vez de pensar apenas “eu quero publicar isso?”, poderíamos perguntar: “essa criança gostaria que isso estivesse publicado daqui a dez anos?”

É impossível saber a resposta. Justamente por isso, algum cuidado parece razoável.

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Depois de mais um Dia das Crianças cheio de fotos, homenagens e registros, talvez também exista espaço para lembrar de um direito menos visível: o direito de construir a própria identidade, escolher o que mostrar de si e decidir quais partes da própria história devem permanecer privadas.

Toda criança merece ter histórias engraçadas, fases estranhas, tombos, choros e fotografias vergonhosas.

Só não sei se todas elas precisam estar no Instagram.

Editoria Mariana Huller
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