Há alguma coisa de profundamente bonita em entrar numa seção eleitoral e apertar os números de uma urna. Talvez por ser um gesto tão comum hoje, a gente esqueça o tamanho dele. Chegamos, mostramos um documento, escolhemos nossos representantes e vamos embora. Parece simples. Parece óbvio. Parece um direito que sempre esteve ali. Não esteve.
No Brasil, o voto feminino só foi reconhecido nacionalmente em 1932, depois de décadas de mobilização de mulheres que se recusaram a aceitar que decisões sobre o país fossem tomadas sem elas. São apenas 94 anos separando as mulheres brasileiras de uma época em que participar formalmente da escolha dos rumos do país não era um direito garantido. Talvez seja por isso que votar ainda me provoque alguma alegria. Não necessariamente pelo que acontece depois, mas pelo gesto em si e pela consciência de que houve mulheres antes de mim que precisaram reivindicar aquilo que hoje faço em poucos minutos.
E talvez seja justamente aí que more o perigo: quando uma conquista passa a fazer parte da rotina, começamos a acreditar que ela é permanente. Simone de Beauvoir deixou um alerta que continua desconfortavelmente atual: basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres voltem a ser questionados. A frase incomoda porque destrói uma ideia confortável de progresso. Gostamos de imaginar a história como uma linha reta: conquistamos um direito, avançamos para o próximo e nunca mais precisamos olhar para trás. Mas direitos não funcionam assim.
Aquilo que uma geração conquistou pode ser colocado em discussão pela seguinte. O que parecia consenso pode deixar de ser, e propostas que pareceriam impensáveis em determinado momento podem voltar ao debate público com outra linguagem, outra embalagem e novos defensores. Por isso, conhecer a história das mulheres não deveria servir apenas para comemorar conquistas passadas. Deveria servir para reconhecer o que está em jogo no presente.
Há uma diferença enorme entre receber uma herança e compreender quanto ela custou. Talvez nossa geração tenha crescido cercada por direitos conquistados por mulheres que vieram antes de nós e, justamente por isso, tenha recebido também uma responsabilidade: não confundir conquista com garantia eterna.
Eu gosto de votar porque sei que durante muito tempo uma mulher não poderia fazer o que faço. Gosto de pensar no voto não apenas como uma obrigação ou como um número apertado diante de uma urna, mas como um direito construído por mulheres que exigiram ser ouvidas. Por isso, votar também pode ser uma forma de lembrar que nossa participação importa.
Que a gente não trate esse direito como algo banal. Que vote, acompanhe, questione, cobre e ocupe os espaços de decisão que tantas mulheres precisaram lutar para alcançar. Há muita coisa na política capaz de provocar frustração, raiva e descrença, mas abrir mão da nossa voz nunca deveria ser a resposta. Exercer o direito ao voto continua sendo uma das formas mais bonitas de dizer que estamos aqui — e que queremos participar das decisões sobre o mundo em que vivemos.









