Nem a guerra muda os realmente bons

Você conhece a história de Desmont Doss? Desmond Thomas Doss foi um militar estadunidense, que participou da Segunda Guerra Mundial, como soldado e socorrista do Exército dos Estados Unidos. Mais especificamente, lutou na Batalha de Okinawa, no Japão. Mas o que ele tem de especial? Simples: após ser selecionado para ir à Guerra, em abril de 1942, Doss se recusou a matar um soldado inimigo ou carregar uma arma em combate devido a sua fé. Ele era membro da Igreja Adventista do Sétimo dia, e tornou-se o que se chama de objecção de consciência, pois se negou a cumprir o que o Exército mandava, por sua consciência religiosa. Chegou até a passar por um tribunal, e foi aceito que fosse à guerra como socorrista. Foi humilhado pelos outros soldados, chamado de covarde pelo seu comandante, que disse que não o queria ao seu lado no campo de batalha caso ele não segurasse um fuzil. Soldados batiam nele, e jogavam seus sapatos contra Doss enquanto ele rezava, durante os treinamentos.

Só que lá, na guerra, ele se tornou um herói. Como Doss era contra armas, não possuía uma. Por consequência, corria desarmado em meio ao combate a fim de ajudar os feridos. O primeiro ato heróico foi quando um soldado, chamado Ralph Morgan foi ferido durante uma explosão, e teve suas pernas arrancadas. Um paramédico se recusou a ajudá-lo, mas Doss não. Ele voltou, resgatou o soldado, que acabou sobrevivendo. Porém, foi em 5 de maio de 1945 que Desmond se tornou o herói que inspira filmes, livros e textos mundo afora. Na batalha da Escarpa de Maeda, como ficou conhecido o terrível combate ocorrido em Okinawa (Japão), o exército japonês esperou até que toda a tropa dos Estados Unidos estivesse cruzando a planície para iniciar seu ataque, atirando e lançando morteiros contra os soldados. Os militares estadunidenses foram massacrados em poucos segundos. Ao cair da noite, os americanos precisavam se retirar, deixando os feridos para trás. Mas isso não impediu que Desmond voltasse ao local de batalha para salvar outros combatentes durante 12 horas. Ele pedia: “Deus, me ajuda a salvar mais um”. E assim, salvou, sozinho, desarmado, cansado, com fome, 75 soldados!

Obviamente, foi condecorado, tornou-se uma grande militar. Recebeu a Medalha de Honra (a única objecção de consciência a receber a mais alta honraria do Exército dos EUA). Foi premiado em várias oportunidades, recebido por presidentes, inspirou filmes como “Até o último homem”, de 2016. Numa entrevista antes de morrer (ele faleceu em 2006, aos 87 anos), ele manteve a modéstia e disse que não fez nada, “tudo foi feito por Deus”.

Esse homem, real, verdadeiro, e sua história também real, nos mostram que mesmo numa Guerra, nos piores momentos, podemos sim manter nossas opiniões, crenças, nossa forma de pensar e ver o mundo. Não é porque o mundo está se desmanchando em imbecilidade, violência, dor, morte, loucura, que você precisa ser igual. Veja: um herói de guerra sem armas, que não matou ninguém, que não deu um tiro sequer. Foi obrigado a ir para a guerra, e qualquer um pensaria: “já que estou aqui, tenho que me defender, e preciso de uma arma para isso”. Ele não, e acabou virando herói, foi aplaudido pelos que o criticavam e ridicularizavam. Olhares de admiração brotavam dos mesmos rostos que riam dele antes. Ele não precisou se tornar mais um soldado com os outros para isso. Ele tinha uma consciência de não matar, e não matou.

Hoje, muitos abandonam valores bons, a defesa dos mais pobres, dos fragilizados, das minorias, do respeito, da empatia, a fé, o reconhecimento, a razoabilidade nos julgamentos e ações. Pessoas começam a defender absurdos, ideias de maldade, violência, tortura, ódio, e semeiam desavenças e conflitos, apenas para ser como o que há hoje no mundo. Gente, não é porque estamos em meio a pessoas más, que precisamos ser maus. Se alguém é bom, pode e deve manter-se bom, mesmo em meio a toda a maldade do mundo. Acredito que essa história possa nos inspirar também, se estamos num mundo mau, se precisamos trabalhar ou conviver com pessoas más, se somos obrigados a ir a lugares esquisitos, se a vida nos leva a estar onde ocorre algo que não nos agrada, se uma liderança prega um absurdo, EU NÃO PRECISO ME TORNAR MAU PARA AGRADAR OS MAUS!

José Carlos Correia Filho – professor de História.

NR. O professor José Carlos  começa nesta quinta-feira uma série de artigos sobre pessoas desconhecidas, mas que fizeram coisas importantes na História. Acompanhe toda quinta-feira.

Naor Coelho

Naor Coelho, administrador de empresa, jornalista e o diretor responsável pelo Fatos do Iguaçu

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