DAMARES E O ESTADO LAICO – PARTE 2 – O Nome da Rosa é só o começo

Por Bruno Zampier

O último artigo que publiquei foi causa de escândalo para alguns leitores. Houve quem se revoltasse por acreditar que o artigo tinha por objetivo a defesa irrestrita da ministra Damares. Outros, com a agressividade de quem revida um ataque pessoal, apontaram supostas distorções históricas, coroando seus pareceres com adjetivos nada enobrecedores. Houve quem desse carteirada com seu diploma de História, no objetivo de causar alguma intimidação. Creio ser relativamente inútil estender um debate nessas condições.

Por isto, neste novo artigo, não pretendo elaborar respostas pormenorizadas aos argumentos apresentados. Já forneci aos críticos uma pequena bibliografia onde poderão descobrir pelo menos duas coisas: primeiro, que meus argumentos não são opiniões inventadas na minha imaginação, mas são fruto do estudo de algumas obras de grandes intelectuais, entre filósofos e historiadores; segundo: eu não sei onde os ilustres críticos obtiveram seus diplomas, mas creio que um professor titular do Departamento de História da Universidade de Harvard, um dos maiores sociólogos do século XX e uma historiadora integrante da Academia Francesa de Letras talvez tenham um trunfo considerável nas mãos, caso a disputa se desenrole na base da carteirada. 

A grande tragédia de muitos estudantes universitários brasileiros – principalmente nas universidades federais – é a crença ingênua de que certos posicionamentos na interpretação da História, na teoria filosófica e na ideologia política são pontos pacíficos e já resolvidos, e que qualquer divergência de opinião é prova de ignorância. Sei bem qual é a surpresa ao descobrir que muito daquilo que é repassado na escola e nas universidades como a última palavra em conhecimento, na verdade é só a casca do ovo.

Eu também já estive lá, eu já fui um deles. É por isso que, inspirado naqueles adesivos colado na parte traseira dos veículos de Auto-Escola (“Não buzine, eu sou você ontem”), preferi não estender a porfia. Mas, esta crença ingênua na interpretação da História e das ideologias, por exemplo, sedimenta no coração dos jovens algumas idéias que acabam por moldar suas vidas inteiras, o que, creio eu, merece alguma atenção. Todo mundo já as ouviu, seja na escola ou na TV. Tomadas em seu conjunto, elas formam uma verdadeira cosmovisão, ou seja, uma explicação geral do mundo e da forma mais adequada como devemos nos conduzir durante a vida. Façamos uma pequena lista para esclarecer a que me refiro.

Por exemplo, a idéia de que a Idade Média foi a “Idade das Trevas”; a idéia de que a Igreja Católica foi a culpada por essa “Idade das Trevas”; a idéia de que a Revolução Francesa nos libertou do grande mal da monarquia; a idéia de que nazismo e fascismo são movimentos da “extrema direita”; a idéia de que o capitalismo é causa da pobreza; a idéia de que o socialismo é a forma de governo mais “humanitária” ou até mesmo a crença de que Cristo era uma espécie de socialista.

Responder a cada uma dessas opiniões encalacradas no coração de jovens emotivos seria como tentar derrubar as muralhas de Jericó ao toque de trombetas: dependeríamos de um milagre. Melhor começar a rezar do que a argumentar. Convencer-se de que as ponderações necessárias a cada um desses posicionamentos são tão numerosas a ponto de exigirem uma nova opinião sobre estes assuntos requer alguns bons anos de estudo e muita revisão bibliográfica.

É todo um conjunto complexo de conceitos, portanto, que faz da inofensiva senhora Damares, aos olhos de muitos, uma perigosa inimiga da sociedade. É justamente a vastidão e complexidade dessas idéias que lhes confere uma certeza absoluta de que compreendem uma realidade muito sutil, não compreendida pelas massas incautas. Paradoxalmente, são eles quem sopram forte as trombetas do apocalipse quando a ministra fecha os olhos em oração, em pleno exercício de atividade pública na estrutura do Estado.

Na verdade, é bem fácil compreender o pavor que uma possível violação ao Estado laico desperta na imaginação de tantos jovens brasileiros: logo lhes vem à mente, coisas como Inquisição, masmorras, intolerância, torturas, elitismo, ódio ao conhecimento, fanatismo religioso, opressão contra os mais fracos, guerras religiosas sem sentido e mais uma constelação inteira de ignomínias. Se desfazer o mito nada honroso que paira sobre a religião é tarefa hercúlea demais para um texto de poucas linhas, por outro lado, descrever o seu início e seu fim, tomando por base minha experiência pessoal, talvez seja bem mais fácil.

Pois aquilo que aprendi na escola – o desprezo e até o ódio à Igreja e à tudo que ela ensina e representa – é também ensinado nos quatro cantos do país, como me dei conta nos últimos anos. E nessa tarefa de revisão das bases das minhas crenças da juventude, lembrei-me de um trabalho solicitado por minha professora de História, quando eu estava lá pela sétima série.

O trabalho consistia em assistir e fazer um resumo do filme O Nome da Rosa, baseado no livro homônimo do intelectual italiano Umberto Eco. Esta lembrança me veio à tona após acessar por acaso, na semana passada, alguns canais de literatura no Youtube que tratam do romance de Eco, e observar nos comentários, os agradecimentos de estudantes que ali encontraram um bom resumo para seus trabalhos escolares. Sim, sei por mim mesmo que O Nome da Rosa é exigido como trabalho escolar há 25 anos, pelo menos. E o Youtube agora vem a provar que esse expediente ocorre em todo o Brasil. 

Na época, com uns treze ou quatorze anos, acostumado a assistir Rambo e Exterminador do Futuro, O Nome da Rosa me pareceu um filme difícil de compreender e enfadonho até as raias do insuportável. Nada de explosões e efeitos especiais. Mas fui até o fim e a idéia geral ficou bem gravada na minha memória: a Igreja era um antro de hipocrisias e mentiras, autoritária e ultra-fanática. Isto ficou ainda mais claro após as explicações na aula sobre Idade Média que consideravam o filme a sua melhor ilustração.

O Nome da Rosa basicamente trata da história fictícia de um mosteiro medieval beneditino (a história se passa em 1327) onde assassinatos cruéis e misteriosos estão acontecendo. Sete monges são mortos em sete dias, um deles afogado dentro de um barril de sangue de porco, o que mexe com a imaginação dos monges. Acreditam que estão diante de sinais do apocalipse. Para investigar os crimes é designado William de Baskerville (no filme, interpretado por Sean Connery), um monge dotado de talentos a lá Sherlock Holmes. O enredo tem aí o seu atrativo de investigação policial hollywoodiana. Baskerville chega acompanhado de seu jovem aprendiz, Adso Von Melk.

No desenrolar da trama, Baskerville e Adso vão percebendo que os crimes são motivados pelo fato de que a biblioteca do mosteiro, uma das maiores da Europa, esconde obras de Aristóteles e outros filósofos, cuja leitura seria proibida. O motivo é dos mais bizarros: a Igreja via no riso uma forma de degradação do homem e assim, o capítulo II da Poética de Aristóteles que trataria da comédia tornava-se uma obra proibida. Justamente porque Aristóteles era respeitado como grande filósofo, o seu elogio à comédia seria uma afronta às crenças religiosas. Daí que os livros não só eram mantidos em uma ala secreta, mas também tinham as suas margens inferiores envenenadas, de forma que, qualquer um que molhasse a língua para repassar as folhas ao lê-los, acabava morrendo.

Além dessa caricatura da Igreja contra o conhecimento, o enredo também apresenta um detalhe sórdido: vivendo no conforto do mosteiro, os monges nada se importam com a população miserável e faminta que reside ao redor. Pior: Baskerville e Adso descobrem que uma moça muito pobre prostitui-se dentro do mosteiro, em troca de pão seco. Adso acaba seduzido e tem uma relação sexual com ela, sem nunca descobrir sequer o seu nome, “o nome da rosa”. Ao final do filme e do livro, tudo o que resta ao espectador é um ódio à Igreja: Adso, o jovem ingênuo que adentrava na Igreja confessa seu amor àquela jovem. Mas é um amor que nunca será vivido, e o sentimento de frustração é imenso. Ele passará sua vida convivendo na hipocrisia dos mosteiros, onde o conhecimento é censurado, onde se vive no conforto enquanto os miseráveis perecem na fome e na doença, onde os fanáticos religiosos oprimem e deturpam a verdade.

Este é, pois, o enredo que marca o início do estudante brasileiro na alfabetização em história, fundando o imaginário onde mais tarde a universidade erigirá as colunas de um conhecimento mais técnico, com a leitura de historiadores e filósofos completamente hostis à Igreja, como Eric Hobsbawn e Michel Foucault. O Nome da Rosa é só o be-a-bá, mas já condensa tudo o que muitos estudantes brasileiros acreditarão por toda sua vida em matéria de religião, esteja ele na sétima séria ou tenha um pós-doutorado na USP.

Um pouco de estudo sobre a Poética de Aristóteles já seria suficiente para esclarecer que o romance de Eco tem por base um equívoco histórico boboca, inacessível para estudantes do ensino médio, mas útil para um enredo hollywoodiano, e que nada possui de verossimilhança com a realidade histórica, como pensam até mesmo alguns dos professores de história: no enredo, os monges escondem a segunda parte da Poética de Aristóteles, que trata da comédia. Ocorre que na Idade Média a Poética sequer era conhecida na Europa, pois só foi redescoberta em plena era moderna.  Certamente Eco, um grande estudioso da Idade Média, estava ciente da enganação, mas deixou o enredo assim mesmo, ao que tudo indica, de propósito.

Ao sedimentar este sentimento contra a Igreja, o estudante estará para sempre vacinado contra qualquer ponderação aos demais argumentos apresentados em O Nome da Rosa. Até porque ao longo da vida, tais idéias serão confirmadas por outros filmes, novelas da Rede Globo e historiadores como Hobsbawn.

Grande foi a minha surpresa, mais de 15 anos depois do ensino médio e muitas bobagens ditas por aí contra a religião, quando descobri algumas coisas relevantes e que deveriam entrar em linha de conta, antes de confirmar minhas opiniões: por exemplo, o fato de que ao inventar o sistema universitário, fundar centenas de universidades e escolas em toda a Europa e alfabetizar o povo ignorante da Idade Média, fornecendo o conhecimento e os locais de estudo onde a ciência moderna seria elaborada, talvez a Igreja não fosse a inimiga do conhecimento como retratada por Eco e seus discípulos.

Que ao fundar os hospitais e os orfanatos, dando para isso a própria vida de muitos de seus membros, talvez a Igreja se importasse mais com os pobres do que imaginam seus inimigos. Que ao reconhecer a autoridade de mulheres a governarem povos inteiros como rainhas, ao conceder títulos de doutoras a tantas outras, ao conceder a mulheres o direito de alfabetizar os jovens, talvez a Igreja tenha dado um tratamento diferente às mulheres do que a prostituição imposta pelos frades dominicanos no fantasioso e mequetrefe romance de Eco. Sim, a esquerda agnóstica moderna não foi a primeira colocar uma mulher no comando de uma nação.

Talvez a leitura de vidas de pessoas reais da Idade Média, como Santa Catarina de Siena e São Francisco de Assis pudesse iluminar a visão obscura que a ficção plantou no imaginário popular, com aparência de estudo científico. Talvez a história sobre a fundação das universidades, sobre as invasões islâmicas que motivaram as Cruzadas e a Inquisição, pudesse esclarecer o que é que a Igreja já fez por nós. Uma revisão deste porte é algo difícil. Requer bastante estudo e paciência. Pior: exige que confessemos que fomos enganados por muito tempo, o que pode ser bastante embaraçoso.

 Esta é a luz que precisamos no nosso tempo: a descoberta de que uma boa oração não é uma ameaça à sociedade, mas o resgate de uma prática que, em outros tempos, muito mais duros do que o nosso, foi capaz de impulsionar atos inigualáveis de compaixão, amor ao próximo e bravura na defesa dos inocentes. Também foi capaz de criar obras de arte que, até hoje expostas, causam admiração e alegria até nos jovens aprendizes de William de Baskerville.

Que ironia descobrir que no fim das contas, à semelhança do jovem ingênuo Adso, fomos iludidos por uma história que nos contaram, e por causa dela, deixamos de viver um grande amor. O amor à oração e à Igreja, bem como à tudo que ela fez e faz até hoje, bem longe dos bancos das universidades. E se a ironia é pouca, citemos um certo africano que um dia fez esta mesma descoberta: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus.”[1]

Até quando acreditarão em Adso, um personagem fictício, e ignorarão Santo Agostinho, uma pessoa de verdade? Procurem, de fato há uma imensa e misteriosa biblioteca secreta, mas não são os monges que a escondem de vocês.


[1] Santo Agostinho foi declarado santo e doutor da Igreja há mais de mil anos, bem antes que os movimentos estudantis modernos se declarassem inventores da luta contra a discriminação.  

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