Cancela que dá entrada à Vila Residencial de Faxinal do Céu | Foto: Naor Coelho/Fatos do Iguaçu

Agoniza a Vila Residencial da Copel em Faxinal do Céu

Funcionários das terceirizadas dia-a-dia são demitidos e copelianos transferidos

Nara Coelho
POR NARA COELHO

A maior usina hidrelétrica da Copel, a Governador Bento Munhoz da Rocha Netto, com a capacidade de 1.676 MW de potência, teve sua obra iniciada em 1975, na época, muitas terras nativas e outras produtivas foram alagadas, muitas pessoas tiveram suas propriedades destruídas, cobertas pelas águas, já que para a usina acontecer era preciso fazer o lago.

A “mina de ouro” da Copel está localizada no rio Iguaçu, no município de Pinhão, na localidade de Faxinal do Céu.

A Visita

A equipe de reportagem do Fatos do Iguaçu esteve na segunda semana de fevereiro na Vila Residencial da Copel na localidade de Faxinal do Céu, no municipio de Pinhão/PR, o que se viu foi desolador, toda uma estrutura que foi construída ao longo de mais de 40 anos desde que a empresa chegou no municipio para explorar a energia elétrica sendo abandonada.

Quem conhece, ou melhor, conheceu a Vila no seu esplendor, com toda sua estrutura sendo utilizada e cuidada, sendo comparada a pontos turísticos europeus. Quem sentiu a alegria, a vibração e o encantamento de Faxinal do Céu, deve guardar muito bem na memória, porque, como diria minha mãe, “pelo andar da carruagem” serão só lembranças.

Pois hoje o clima é de desolação e abandono, por mais dificil que seja de acreditar toda a estrutura está dia-a-dia sendo descuidada e sorrateiramente, vagarosamente procurando não chamar a atenção  está sendo desativada e abandonada.

Quem ainda está lá

Desesperança e angústia é o que se nota nos rostos e falas das poucas pessoas que estão morando ou trabalhando na Vila.

Angústia devido às informações dadas de forma parcial pela empresa que diz, mas não diz. Informação que é dada de uma forma, falando sempre que é só até a pandemia passar, mas as ações mostrando que não, que é uma desativação, um desmonte. 

Dinheiro Público

É preciso lembrar que a Copel é uma empresa mista, ou seja, há nela e muito dinheiro público, e muito do dinheiro dos cidadãos foi investido na majestosa, bela e grandiosa Vila Residencial e que corre um sério risco de ser corroído pelo abandono e mato.

Terceirizados

Para manutenção da Vila, do Jardim Botânico e as estruturas criadas pelo governo do Estado e a empresa para receber pessoas para cursos como dois anfiteatros, para fornecimento de alimentação aos funcionários, a Copel contratava empresas terceirizadas como para mais uma diversidade de trabalhos.

Até o momento, por informações de pessoas que pedem quase que implorando que não as identifique, indicando que há uma pressão sobre elas, que já atingiu a faixa de mais de 100  funcionários demitidos.

Clima de angústia e incerteza

No dia da nossa visita à Vila nos encontramos com um funcionário terceirizado que nos contou que em setor que havia 18, hoje estavam em 3 e sabendo que a qualquer hora mais alguns serão demitidos. “Muito dificil trabalhar nessa incerteza, bem complicado, teve mais de 20 % de demissão no meu setor, a gente não sabe de nada, a gente fica esperando a bomba, eles só chegam e dizem, agora  vão ser demitidos tantos”.  

Copelianos

Os funcionários da empresa Copel são chamados de copelianos e o que se sabe via fontes não oficiais é que vários já foram transferidos, que alguns ainda estão morando em Faxinal do Céu porque devido à pandemia estão nesse momento realizando trabalho remoto.

Salas Comerciais

Na Vila sempre moraram os funcionários da Copel e das empresas terceirizadas, professores que lecionam na escola estadual e municipal, que por sinal, a construção de uma nova escola de altíssimo padrão de qualidade está finalizando e isso gerava indiretamente outros empregos na localidade de Santa Maria, que circunda a Vila Residencial e na própria Vila Residencial que tem um espaço comercial,  construído pela Copel para trazer facilidade e comodidade a quem ali morava, gerando uma diversidade de empregos diretos e indiretos.

 Salas Vazias

O que vimos no Centro Comercial foram salas vazias, hoje restam atuando lá quatro comércios e um consultório odontológico.

Moradores de mais de 15 anos

É preciso destacar que não estamos aqui falando de pessoas que trabalham hoje aqui, amanhã acolá, estamos falando de pessoas que constituíram suas vidas nesse espaço, que estão há 15, 25, 40 anos morando, vivendo e ganhando seu sagrado pão de cada dia e muitos gerando  outros empregos, como é o caso do dentista, Vinicius Wolski, que se criou na Vila, pois seu pai, Enoque Wolski, trabalhava na Eletrosul, e em 1992 veio morar em Faxinal do Céu.

Estudou e voltou

Vinicius Wolski: Estou indo embora | Foto: Naor Coelho/Fatos do Iguaçu

Vinicius saiu para estudar, se formou em odontologia, trabalhou na sede do municipio, mas sempre atendendo também na Vila Residencial, completando nesse ano 13 anos de atendimento.

Ele contou que nesse momento a situação na Vila está muito complicada, “Há muitos burburinhos pra lá e pra cá, ninguém sabe ao certo o que vai acontecer, qual é a verdadeira intenção da empresa, qual será o futuro desse lugar?”.  

“Estou indo embora

 Vinicius contou que as vezes até pensava em ir morar, em trabalhar em outro lugar, mas que ele gosta muito da região, só que dentro da atual situação, não teve escolha e até junho estará indo embora para o estado de São Paulo, “Eu analisei a situação e vi que aqui não tem motivo para continuarmos, sinto muito, pois gosto daqui, da região, apostei profissionalmente no desenvolvimento da região que pode ser alavancado pelo turismo, mas parece não ser essa a ideia das pessoas que decidem”.

Já se sente os reflexos

Vinicius contou que já se pode sentir na região as consequências das demissões, “Vários cargos já foram cortados, isso vem afetando de forma geral o comércio daqui e da região inteira. Eu tenho pacientes da sede do município, e tenho vários daqui, eu tenho o convênio da Copel, mas a maioria dos meus clientes são por atendimento particular, são os terceiros que dependem desse trabalho e estrutura, estão ligados a empregos diretos ou indiretos, ou estavam”.

Comerciantes

As salas comerciais são por contratos direto com a Copel, concedidas por licitações, os contratos são renovados anualmente por um prazo de cinco anos, segundo nos explicaram os comerciantes.

Os contratos não estão sendo renovados

Segundo informações que recebemos de alguns comerciantes, as salas têm término de contrato em datas diferentes, as salas que já estão vazias, os contratos venceram e a Copel explicou aos contratantes que não iria renovar naquele momento, iria esperar vencer todos para fazer uma única licitação.

É desalentador

A máxima do jornalismo é não se envolver com a reportagem, porém conversar com as pessoas que investiram suas vidas nesse local, que estão ali há mais de quatro décadas, algumas chegaram solteiras, casaram e constituíram família, deixou a equipe do Fatos bem triste, foi impossivel não se comover com o desalento que é visível na fala e feição das pessoas. “As demissões acontecem, o movimento só diminui, as informações são desencontradas, hoje o que temos é o que vocês estão vendo, uma Vila vazia, parada, isso nos angustia e não ter certeza do que vai acontecer é horrivel”.

Agora só energia

A empresa já deu declarações na impressa dizendo que agora a Copel só vai centrar seus objetivos na geração e distribuição de energia. Deixando a entender que vai se desfazer de tudo que ela considera supérfluo e que não gera lucro.

A pergunta que se faz necessário fazer é: “Como fica o compromisso social da Copel com a região que ela devastou e explora tirando do local muito lucro?”

FUNDERE

Já prevendo que na renovação da concessão federal que a Copel tem para exploração da Usina Bento Munhoz da Rocha, que vence em 2022 pudesse vir a causar uma situação parecida com a atual e buscando cumprir com o compromisso social da Copel com a região, um grupo de copelianos lutaram pela formação da Fundação Fundere, que foi aprovada, criada e constituída de fato para gestar todo esse patrimônio que mais do que da Copel é hoje um patrimônio social, de biodiversidade da fauna e flora, histórico e de geração de renda  dos moradores da região.

A proposta era que a Fundere usasse toda essa estrutura para alavancar o turismo na região mantendo e gerando novos empregos.

COPEL extingue a Fundere

O que se sabe por canais extraoficiais é que a Copel está extinguindo a Fundere, nossa equipe buscou conversar com a gerente que responde pela Vila de Faxinal do Céu e Segredo em Reserva do Iguaçu que vive a mesma situação, mas novamente ela não pôde nos atender pois estava em reunião. Foi entrado em contato com a assessoria de imprensa da Copel estamos no aguardo de um retorno.

As autoridades ?

Terminamos essa reportagem perguntando aos prefeitos, vereadores dos municípios de Pinhão e Reserva do Iguaçu, deputados estaduais e federais da região: qual é a posição de vocês sobre a situação? O desmonte da Vila e de todo o patrimônio que a constitui, o descuido com toda a grandiosa estrutura e a perca de centena de empregos vai acontecer sem nada ser feito?

Quando falamos em algo a ser feito é algo mais do que uma conversinha rápida com diretores da Copel que não trazem posições concretas da empresa e do próprio governo do Estado sobre essa situação.

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