ABRINDO O BAÚ – Mulheres contam suas histórias

Dona Sancia ou tia Sancia

Reportagens publicadas na edição nº: 642 de 21 de março e  nº 643 de 28 de março de 2014

O Espaço Kallabary recebeu, aproximadamente, 450 mulheres na Noite Rosa. A festa, realizada dia 10 de março, homenageou a mulher pinhãoense pelo Dia Internacional da Mulher. A novidade da edição 2014 foi o espaço para que as mulheres do Município pudessem relatar, contar suas histórias.

Foram confeccionados pôsters com as histórias das 12 mulheres selecionadas, que foram apresentados durante o evento. Fatos do Iguaçu publicará cinco.

LINDAURA KITCKY DA ROCHA

“A história de vida de uma mulher que passou por dificuldades, dramas familiares e perdas, mas que mesmo assim nunca perdeu a fé em Deus e no ser humano, durante sua vida sempre estendeu a mão a quem precisava. Sua existência foi marcada pela generosidade com o próximo, e sua história de vida é um exemplo a ser seguido por todos nós”.

LINDAURA KITCKY DA ROCHA, nascida no dia 08 de setembro de 1931, filha de Miguel Kitcky e Laudelina da Rocha de Deus, família de 10 irmãos conhecida na região como a família de Miguel Polaco. Cresceu na roça, sempre ajudando seu pai. Aos 20 anos,  em 28 de maio de 1951, casou-se com João Rocha, com o qual constituiu uma família de sete filhos sendo esses, Neuri, Neura, Ana, José, Cleusi e Eroni.Do árduo trabalho da roça criou seus filhos, e viveu seu primeiro grande drama, quando sua filha Eroni aos 13 anos de adoeceu e veio a falecer. Lindaura vivia também o drama do alcoolismo, já que seu esposo bebia frequentemente, fazendo maus negócios vindo a prejudicar a prosperidade financeira da família. Seu esposo foi assassinado no Município de Chopinzinho em 1986, e algum tempo depois faleceu seu filho mais velho, momentos difíceis de dor, de perda, mas o drama vivido não abalava sua fé, nem tão pouco tirava o sorriso daquele rosto sereno de quem não deixava de acreditar na vida. Na dura luta pela sobrevivência chegou a morar em terras alheias, sempre batalhando, trabalhando pelo sustento da família. Numa data não especificada veio morar na Comunidade de Dois Irmãos,  sendo a primeira moradora do local.

 A Comunidade foi crescendo… os filhos foram se casando, netos chegando, família aumentando, novos moradores, novos tempos. Todos que ali chegavam já sabiam quem era a “Vó Lindaura”, carinhosamente chamada pelas pessoas que ali residem. Muito devota de Nossa senhora Aparecida, exercia um dom pouco valorizado hoje em dia, “Vó Lindaura” benzia as crianças fazia chás… cuidava, estendia a mão a quem dela precisava. Como legionária, Vó Lindaura participava ativamente da Igreja, a qual ajudou a construir, não por acaso tem o nome de seu saudoso pai, hoje conhecida como a igreja de São Miguel, na comunidade de Dois Irmãos, incentivou as pessoas a fazerem a reza no dia de São Miguel. Com a erguida do mastro e a dança de São Gonçalo, passou para sua geração essa tradição que é realizada todos os dias 29 de Setembro de cada ano.

“Vó Lindaura” não somente fundou essa comunidade, como modificou a vida das pessoas que moram aqui, com sua generosidade e simplicidade, fez desse nosso mundo um lugar melhor pra se viver… uma mulher alegre, que apesar de tantos dramas vividos, nunca, em momento algum reclamou da vida.

“Vó Lindaura”, a mulher da lavoura que tantas sementes plantou, a mais importante delas foi o exemplo que ela deixou…

Vó Lindaura faleceu no dia 18 de Fevereiro de 2013, deixando cinco filhos, dois genros, três noras, 16 netos, 11 bisnetos e um tataraneto.

ROSA FERREIRA GRUES

Dona Rosa veio de uma família do interior do Município, não teve estudo, com 22 anos se casou com um rapaz de origem alemã, teve duas filhas.  Lucia Grues e Bernadete Grues Kempf. Quando sua filha Bernadete estava com 5 meses e a Lucia com 1 ano e 5 meses, seu marido Antonio Grues, com 30 anos de idade cometeu suicídio.

Na época, dona Rosa tinha 24 anos, ficou bastante abalada com a morte, passou a ter pressão alta.  Nesse período, dona Rosa mudou para a casa de sua irmã, mas como sua filha Lucia era pequena e sua irmã também tinha uma  filha, e como toda criança, não se acertavam, Rosa começou a se  incomodar. Dona Rosa se obrigou a ir morar com seus pais, que a ajudaram criar suas duas filhas. Rosa, para ajudar a família, trabalhava na lavoura. Passaram 5 anos. Dona Rosa conheceu o Orival Dellê e se apaixonou, mas seu namoro não deu certo, Rosa sofreu muito com o rompimento do namoro.

Para esquecer de Orival, conheceu Roberto, com quem passou a conviver por 23 anos. Nesse período moravam na chácara, trabalhavam com marcenaria e ferraria. Em 2003, em pleno dia quando dona Rosa e seu Roberto estavam em casa foram assaltados por três homens que exigiram que seu marido lhes desse dinheiro, um dos assaltantes segurou-a e  apontou-lhe uma faca. Muito assustada, gritou para o seu marido que no momento estava tomando banho.

Seu Roberto teve que entregar sua carteira para que os assaltantes fossem embora. Depois desse fato, a família não quis mais morar no local e acabaram vindo morar na cidade. Dona Rosa ficou traumatizada, ao mudar para a cidade, seu Roberto começou a ficar angustiado por não fazer mais as atividades que fazia antes, a ansiedade começou aumentar, passou a fumar com muita frequência, que culminou em um problema grave de saúde, enfisema pulmonar. No dia 17/09/2010 seu Roberto acabou falecendo.

Rosa trabalhou como costureira e também de voluntaria na pastoral da criança. Hoje, Dona Rosa mora na cidade, próximo à casa da sua filha Lucia. Tem 5 netos – três meninas e dois meninos e um bisneto. Relata que não gosta de morar na cidade, que tem saudade da vida do interior. 

Agradece a Deus pela sua família e por ter dado forças para suportar e vencer todas as dificuldades que enfrentou.

LURDES LEONARDI ZEMBRUSKI

Meu nome é Lurdes Leonardi Zembruski, sou filha de Antonio João Leonardi e Josefina Antoneli Leonardi. Nasci em Bituruna, em 30 de maio de 1941. Fui casada com Achiles Zembruski, e sou mãe de 4 filhos: Paulo Sérgio, Marcelo, Vilmar e Elisa.    

   Quero relatar minha história e trajetória enquanto liderança comunitária na cidade de Pinhão. Cheguei no município em 1988, e assisti uma missa em 13 de junho celebrada pelo Padre Reonaldo, que recém tinha chegado à comunidade para implantar a  Pastoral da Criança. Como tinha experiência com esta pastoral, fui convidada juntamente com Lurdes, Marta e Nerci, para implantar a Pastoral da Criança em Pinhão. Aceitei o convite e por esta participação acabei me envolvendo com outras causas, organizei almoços que aconteciam na Paróquia e a Olívia e Aide me convidaram para participar do Movimento Popular de Mulheres na Afatrup, onde trabalhei com a documentação, orientação às mulheres, cozinha alternativa, ervas medicinais e neste tempo o movimento foi  duas vezes à Brasília, sendo que a primeira vez com o “Grito da Terra Brasil”, movimento pela preservação da natureza e regularização fundiária dos terrenos dos municípios, e a segunda vez em agosto de 1993 para reivindicar o salário maternidade das agricultoras.

Nesta segunda ida para Brasília, demoramos 43 horas para chegar e participaram do movimento cerca de 5000 pessoas, entre homens e mulheres de todo o país. Ficamos alojados em cerca de 500 pessoas dos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina no Estádio Mané Garrincha. No dia 02 de agosto fomos na sala dos Deputados Federais reivindicar para que votassem a favor do salário maternidade das agricultoras, ficávamos nos corredores aguardando e conversando com cada Deputado para convencê-los.

Quando chegamos na última sala, avistamos a sala do Presidente da República, Olívia, que estava junto, abriu a porta e entramos, lá vimos as faixas de todos os presidentes que haviam passado pelo poder até aquele momento. As mulheres que estavam comigo me desafiaram a sentar na cadeira do Presidente, pensando que eu não teria coragem, mas eu sentei e falei: “Um dia quero ver uma mulher governando o Brasil”.

No outro dia ficamos em frente ao Senado em fila, entre nós, havia sempre um cachorro e um soldado militar que acompanhava os manifestantes ao banheiro ou para tomar água. Dia 03 tivemos uma tarde de folga para caminhar e conhecer Brasília. No outro dia retornamos ao Congresso, entramos e fomos revistados, tendo que deixar tudo o que carregávamos.

Ficamos várias horas em um calor de 40°, quando Marta Suplicy tomou a palavra reivindicando o salário maternidade, a platéia gritou e se manifestou, e uma voz disse: “- Mantenham-se calados, senão vão ser expulsos”. Marta pediu pro Presidente da Câmara para manter a ordem, e este ordenou aos Deputados que quem fosse a favor era pra se manter calado e quem fosse contrário ao Projeto de Salário Maternidade para Agricultoras deveria se manifestar, sendo assim o projeto foi aceito por todos .

Na volta para o Paraná, ainda antes de sair de Goiás, estourou o parabrisa do ônibus do lado do motorista, ficamos 43 horas num ônibus sem nenhum conforto, 14h da tarde  chegamos no restaurante Manga Larga para almoçar e fizemos um lanche. Encontrei uma frase na parede do restaurante que me fez refletir e que me motivou: “Não cruze os braços porque o maior homem do mundo morreu de braços abertos” esta frase me fez pensar que valeu a pena o meu sofrimento pela luta a favor das agricultoras. Fiquei 8 dias fora de casa para ajudar nessa reivindicação.

Após a atuação na Afatrup, fui eleita no Conselho Tutelar na primeira equipe que atuou no município, por volta de 1994. Saindo do Conselho, fui convidada a participar da Secretaria de Assistência Social, onde permaneci por 7 anos e desenvolvi trabalhos com famílias carentes no interior, coordenei o Projeto Super Sopa, dei apoio ao Programa Comunidade Solidária, orientações sobre bloco de produtor e cursos de ervas medicinais, produtos de limpeza, cozinha alternativa, organização de hortas comunitárias com alunos das escolas (Procópio, Ceprohum, São Roque, Alecrim, Bugio, entre outras).

Neste mesmo período atuei como voluntária no Ceprohum, trabalho realizado com famílias carentes coordenado pela Igreja Católica. Trabalhei no Programa Leite das Crianças, atuei no Programa Morar Melhor com orientação às famílias. Trabalhei na organização de duas edições da Festa do Pinhão.

Atuo nos trabalhos da igreja, sou catequista desde os 12 anos, sou Ministra da Eucaristia há 25 anos, atuo na pastoral do Dízimo e realizo trabalhos no Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Neste ano de 2014 pretendo retomar o trabalho comunitário na comunidade Vila Caldas através do Grupo de Convivência para Idosos em parceria com o CRAS.

DONA SANCIA

Dona Sancia ou tia Sancia, como é carinhosamente chamada, devido às condições de vida e as dificuldades da época poderia ter uma história igual a de tantas outras, mas, o seu dom de mulher, sua força de vontade que não deixou e fez de sua história não a melhor, mas sim um exemplo, com certeza nos mostrando que podemos ser cada vez melhor.

            Sua história começa com ela ainda criança, com um acontecimento que marcou profundamente sua vida e que poderia ter gerado revolta e indignação com o mundo.

            Por volta de três a quatro anos, a vida tirou o que lhe era mais precioso, sua mãe, que diante de tantas dificuldades e a doença que enfrentou, não conseguiu suportar e acabou tirando a própria vida, deixando ela e seus irmãos ainda pequenos sob os cuidados do pai.

            Seu pai tendo dificuldade em criá-los resolveu entregá-la aos cuidados de sua madrinha para que esta pudesse criá-la e educá-la da melhor forma possível. Com a madrinha Izabel, permaneceu até os 10 anos de idade, porém, depois de acostumada com a vida que tinha, novamente teve que voltar a residir com seu pai e com isso venho o sofrimento de ter que se adaptar a uma nova vida e rotina diferente da que estava, principalmente pelo fato de ter que se reintegrar à família.

             Sua madrasta era uma boa pessoa, que a ensinou a trabalhar, cuidar dos afazeres domésticos, das atividades da roça, principalmente para produzir o seu próprio sustento. Seu pai, uma pessoa de bom caráter, soube passar bons exemplos para os filhos e assim seguiu até a vida adulta.

            Por volta de 1930 a 1940, aos 18 anos, conheceu seu primo Gusto, que servia ao governo de Getúlio Vargas, que na época estava em guerra. Devido a esse fato, suas visitas eram esporádicas, nessas idas e vindas conheceu Dona Sancia, a qual ele tratou casamento com seu pai, demorando apenas alguns meses para se casar.

            Deste casamento, tiveram sete filhos vivos, todos nascidos com o auxílio de uma parteira chamada Dona Trindade e com sua comadre Ciniana. Ainda teve outros filhos que vieram a falecer devido a uma grave doença denominada Bouba, que a atingiu assim como seus filhos.

            Sua vida com seu marido foi tranqüila, os dois trabalharam muito e seus filhos nunca passaram por dificuldades. Esforçaram-se o máximo que podiam para dar a seus filhos tudo o que não tiveram, principalmente estudo.

            Naquela época não existiam professores pagos pelo município, somente professores particulares. Ela então trabalhava como doméstica para poder pagar os estudos de seus filhos.

        Seus filhos mais velhos percorriam 16 Km à cavalo, saindo cedo de casa e retornando somente à tarde todos os dias para estudar . Os mais novos, graças a seu esforço, conseguiram estudar mais próximos da família, pois sua filha mais velha já havia se formado e era a primeira professora da localidade de São Roque.

            E foi assim que viveu sua vida, passando o que tinha de melhor para seus filhos. Seu esposo faleceu quando tinha 82 anos e mesmo assim perdendo seu companheiro de vida, continuou lutando com um sorriso como porta de entrada para enfrentar todas as dificuldades.

            Há 15 anos sofreu um AVC, que a deixou em coma durante uma semana. Porém, a vida lhe reservou outra surpresa e há três anos sofreu outro AVC e por mais uma vez decidiu continuar lutando. Recentemente, no mês de novembro, sofreu outro AVC e já está bem novamente.

            Apesar de todos esses acontecimentos a Dona Sancia continua costurando, varrendo o terreiro, lavando a louça, sendo independente com seus 98 anos.

         MARIA SALETE MARTINS FERREIRA, divorciada, natural de Francisco Beltrão. Atualmente com 58 anos, tem 5 filhos e 5 netos, reside com duas filhas, 1 neto e o genro.

Com 14 anos saiu de casa fugindo das investidas de seu tio, que por várias vezes tentou abusar dela sexualmente. Foi para Curitiba para trabalhar, depois de algum tempo, encontrou um namorado e engravidou aos 17 anos.  Foi abandonada pelo mesmo, uma senhora a levou para trabalhar em um restaurante, mas, por estar grávida não pôde continuar trabalhando. A mesma pessoa a levou para residir com uma irmã, que durante o período que  trabalhava, deixava sua residência fechada e  Maria Salete ficava na rua, muitas vezes tendo que pedir comida na vizinhança, para descansar, deitava no meio do mato para conseguir um pouco de sombra. Na casa dessa senhora só se alimentava durante a noite e ainda com comida insuficiente para matar a fome de uma gestante. Passado algum tempo, conheceu um rapaz que a levou até a residência de sua mãe, no Município de Francisco Beltrão, para onde desejava ir, mas não tinha condições financeiras e nem conhecimento para ir sozinha.

 Aos 22 anos veio para o município de Pinhão, casou-se e residiu na Localidade de Guarapuavinha. Em certa ocasião, acidentou-se quando iria no aniversário do esposo de sua prima, colidiu com um veículo e ficou presa nas ferragens, um ferro entrelaçou em sua barriga  e  um motorista que  passava no momento, removeu o ferro com canivete, foi internada.

Seu esposo lhe mandava carta para retornar para casa, pensando que a mesma o abandonara. Passado algum tempo, seu esposo começou a trai-la, ficou agressivo com ela e seus filhos,  abandonando-os para morar com a outra.

Trabalhou em uma sorveteria, onde via muitas crianças se deliciando com sorvetes. Aos 25 anos foi residir em Águas do Verê para trabalhar em um restaurante. Um certo dia, retornando para Pinhão para visitar suas duas filhas, que havia deixado para trabalhar, descobriu que o pai havia colocado as meninas no orfanato de Colônia Samambaia. Voltou para Verê chegando lá ficou nervosa, teve desmaios, não se alimentava corretamente, chorava todo momento.

Quando foi um belo dia, recebeu uma ligação de Pinhão avisando que havia passado no concurso e que tinha que assumir sua vaga.  Voltou para Pinhão, começou a trabalhar e conseguiu tiras suas filhas do orfanato, conseguiu que o pai pagasse pensão. Dividia a pensão com a avó paterna das crianças, visto que a mesma cuidava da filha mais nova. Aos 22 anos a filha mais nova e o filho de 25 foram para Santa Catarina, o rapaz ficou 8 anos lá.

Em certa ocasião, sua filha ligou de Santa Catarina, comentando que o irmão estava internado e não tinha quarto no hospital, que ele estava com uma dor forte na cabeça e foi diagnosticado com meningite. Trouxeram-no para Pinhão, seu ex-esposo levou-o para casa, passou muito mal novamente, levaram-no para hospital de Guarapuava, ficou na UTI. Os Familiares voltaram para casa, pois não podiam ficar na UTI, mal chegaram em casa, o hospital ligou para retornarem, o pai ainda consegui lhe ver, mas às 16:30 seu filho faleceu. O chão sumur de seus pés, pensou que entraria em depressão, pelo sofrimento pela falta de seu amado filho. Porém, em uma noite sonhou com o filho, no sonho, ele passou a mão em seu cabelo e disse: Mãe não chore, estou bem. Apesar de todo sofrimento e tristeza pela falta de seu filho, concluiu que não adiantava chorar, pois teria sido a vontade de Deus. 

Atualmente reside em casa própria agradece a Deus todos os dias por sua vida e por suas vitórias.

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