Creio eu que todos viram os atos de vandalismo que foram perpetrados pela galera de vermelho, neste fim de semana; atos esses que foram realizados com as mais elevadas e fofas intenções. Por isso, por conta da fofura, pergunto, porque perguntar não ofende: esses atos, por acaso, foram considerados como sendo atos antidemocráticos? Por acaso, esses atos foram classificados como manifestações tipicamente fascistas de violência politizada? Não. Nada disso. Nada do que foi realizado nesse fim de semana foi considerado uma ameaça as sacrossantas instituições democráticas desse tristonho país.

No entendimento dos participantes, e dos seus apoiadores, tudo vale, e não há pena, se as pessoas envolvidas estiverem defendendo as pautas da agenda da panelinha vermelha que não tira a palavra “democracia” da boca pra nada. Talvez, nem pra isso que você está pensando. Nem pra isso.

Bem, paremos de pensar bestagens e sigamos em frente com o causo.

Já repararam, mas já repararam mesmo, que tudo que essa turma, que adora atirar [pacificamente] fogos de artifício em jornalistas, que acha lindo atear fogo [civicamente] em pneus nas ruas, que depreda [com alteridade] o patrimônio público e as propriedades privadas e, é claro, que defende assassinos em série [empaticamente] como se esses fossem vítimas inermes da sociedade malvadona, usa o complemento “democrático” pra tudo? É claro que já. Não tem como não reparar.

Se eles jogam futebol com uma cabeça de cera idêntica à cabeça do presidente, ou declaram em alto e bom som que o tal do Adélio foi incompetente por não o ter matado, isso seria apenas e tão somente uma manifestação democrática de vanguarda estética. Só isso. Jamais seria a manifestação de um desejo irascível por poder.

E temos que achar essa absurdidade linda. Porque se dissermos o óbvio seremos rapidamente rotulados de você sabe o quê.

Não apenas isso. Se tais figuras, “democraticamente democráticas”, espalham calúnias contra sua pessoa, carimbando-o como sendo um suposto propagador de “discursos de ódio”, fascista, racista, machista, homofóbico e outros “istas” e “fóbicos” que não me ocorrem agora, isso seria apenas uma forma alternativa de expressão de uma resistência [democrática]. Jamais seria uma campanha de calúnia. Jamais.

E lembre-se: a turma do “ódio do bem” sempre é capaz de transubstanciar a mentira dita por eles mesmos em uma verdade checada e atestada por eles mesmos.

De mais a mais, tais leviandades jamais seriam vistas como sendo a preparação inconsequente e ardilosa para o desencadeamento de uma série de perseguições injustas contra pessoas que apenas cometeram o disparate de não concordar com a sanha totalitária que habita esses corações peludos, digo, impolutos.

Tire isso imediatamente de sua cabeça. Você deve ter lido, recentemente, o livro 1984 de George Orwell e está vendo coisas. Só pode.

Sim, eu sei que parece estranho, pra não dizer outra coisa, vermos essa galerinha que não tira as palavras empatia e alteridade da boca desumanizar tão vilmente a imagem das pessoas que simplesmente consideram que elas – as alminhas tolerantes e cheias de respeito à diversidade – provavelmente poder estar erradas. Parece, mas não é. Para a mentalidade orwelliana dessa gente, “sacumé”: “guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”.

Para elas, tudo é tolerável, tudo, desde que esteja devidamente de acordo com aquilo que elas defendem, principalmente, que o poder, em sua forma bruta e difusa, esteja todinho em suas mãos. Digo, nas mãos dos seus senhores que os manipulam descaradamente diante dos olhos de todos, menos dos deles, é claro. Eles lhes dão o regalo gentil de sentirem-se “criticamente críticos” ao mesmo tempo em que estão sendo servilmente instrumentalizados.

Aliás, mais cínico do que fazer tudo isso, é bater palmas diante de todos esses atos dantescos e, ao mesmo tempo, com toda candura, dizer que é uma pessoa profundamente preocupada com os rumos da democracia brasileira. Mais orwelliano que isso, impossível.

E o mais bonito nisso tudo é vermos incontáveis doutos, e muitíssimos togados, rasgando as vestes, indignados, quando estão diante de um perigosíssimo meme que critica atitudes de pessoas que não podem, de jeito maneira, serem criticadas, porque elas seriam, no entendimento delas, a própria democracia encarnada; porém, mais do que depressa, silenciam sua verve indignante, quando as pessoas “certas”, que estão lavorando em favor da “agenda política corretíssima”, pintam o sete com labaredas “progressistas” e realizam agressões e depredações “constitucionais” pelas ruas.

Sim, todos nós percebemos que tais manifestações estão profundamente erradas. Todos. Se bobear, até os seus autores e defensores. O problema é que essa montoeira de desatinos, maliciosamente orquestrados, é profundamente coerente em sua alucinação totalitária, tornado seus artífices cegos para seus atos e deixando todos os demais impotentes diante do absurdo que está sendo encenado diante dos olhos de toda a nação.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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