UMA TEORIA DE BOLSO

Numa porta entreaberta havia uma calça pendurada e dela um bolso se sobressaindo, enquanto na cama modestamente arrumada, jazia um corpo preguiçoso onde o cérebro se enfezava.

Olhando para a etiqueta presa naquele bolso, a criatura então se punha a refletir. Ali, se construiu uma estranha conversa. O cérebro falando ao bolso sobre duas línguas que se deviam à constituição característica de seus dois hemisférios.

Sabia-se difícil[i] administrar essas duas perspectivas a partir de uma só cabeça, mas, atento às contradições o cérebro buscava evidenciar, por exemplo, o que havia de bom no LE MONDE, dos franceses, ao mesmo tempo em que lia o THE ECONOMIST, de língua inglesa.

Bolso não entendendo o que cérebro lhe demonstrava, permanecia muito seguro de sua velha opinião, a de que o cérebro deveria ser lobotomizado. Quando se lembrava das palavras de um jornal frances, “la campagne présidentielle risque de se radicaliser dans un pays qui semble avoir perdu le contrôle de son destin[ii]”(LE MONDE), o bolso vociferaria, “esquerdistas, gaysistas, tem que acabá cum isso daí!” – enquanto que o cérebro tentava explicar objetivamente suas posições.

Quando a linguagem cerebral se voltava para um jornal de linha liberal, “Street crime is rising, too. Seven Brazilian cities feature in the world’s 20 most violent[iii]”(THE ECONOMIST), eles seguiam concordando exaltados. Mas, quando finalmente o cérebro citou, ainda que numa perspectiva liberal, “’Messiah’, promises salvation; in fact, he is a menace to Brazil and to Latin America[iv]”(THE ECONOMIST), Bolso perdeu de vez as estribeiras e caiu da porta. Seguiu-se um silencio aterrador entre eles.

Carlos de Jesus Lima – Professor de Filosofia e Ciências Sociais

E-mail: sentidofocado@gmail.com


[i] Posições sociopolitológicas são complexas, constituem-se também de modos circunstanciais e intercambiáveis, ao serem reduzidas a apenas duas antíteses – que se instrumentalizam: uma como arma; outra como alvo; – são inúmeros os dissabores para todo o mundo.

[ii] “a campanha presidencial,  risco de se radicalizar em um país que parece ter perdido o controle de seu destino”.
[iii] “O crime de rua está aumentando. Sete cidades brasileiras aparecem nos 20 mais violentos do mundo”.
[iv] “‘Messias’, promessa de salvação; de fato, ele é uma ameaça para o Brasil e para a América Latina”.

Deixe uma resposta

WhatsApp chat
%d blogueiros gostam disto: