Gerar é a essência do feminino e, na força do campo, é comum encontrar a coragem de olhar mais longe, aproveitar oportunidades e plantar sementes onde muitos já não acreditam. Foi assim com a Agroindústria Vale do Alecrim: da perseverança de Angelita Aparecida Freski Surkamp nasceu um projeto que transformou desânimo em orgulho, fazendo brotar queijos premiados e uma propriedade referência em sanidade e boas práticas no interior de Pinhão.

Localizada a 21 km da sede, no Vale do Alecrim, a propriedade da família Surkamp reúne trabalho, técnica e afeto. O marido, Carlos Rogério, as filhas Andressa Daniela (com o genro, Edson Guimarães), Caroline — agrônoma —  e a Anália, responsável pelo marketing da empresa, divulgação da página, Facebook, Instagram, formam a engrenagem que sustenta a produção diária e os novos voos. “Pensamos numa estrutura que a família desse conta”, conta Angelita. “Da ordenha ao plantio do alimento, tudo planejado para mão de obra familiar.”

A história com o queijo começou lá atrás, com a sogra, Carolina Surkamp, que fazia o colonial quando ainda não havia linha de coleta de leite na região. O tempo passou, o tanque a granel chegou, mas o incômodo persistia: “O laticínio manda no preço. A gente entrega 45 dias para receber e só sabe o valor no dia do pagamento. É uma venda no escuro.” Foi então que Angelita retomou a tradição — primeiro para consumo da família, depois para vizinhos e parentes, até conquistar o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) “dentro da cozinha”, já preparando a estrutura da futura queijaria.

Para Angelita, o futuro de Pinhão — “um município ainda menino” — passa por capacitação e empreendedorismo inclusivo.

A virada veio em 2015, com apoio técnico da Emater e um plano de reestruturação: renegociação de dívidas, correção de solo, barracão novo e gestão mais precisa. “Eu achava que não gostava nem de tirar leite. Deus me apontou o caminho. Hoje digo que somos produtores de 2015 para cá”, resume. O resultado apareceu no tanque: a entrega saltou de 28 para 800 litros, e a fábrica passou a transformar, de segunda a sexta, cerca de 250 litros por dia em quase 40 kg de queijo — algo em torno de 160 kg mensais, com equipamentos prontos para dobrar a capacidade para 500 litros quando o mercado pedir.

O reconhecimento também veio cedo. Em 20 de setembro de 2019, no Concurso Nacional de Queijos em Santa Catarina, a Vale do Alecrim conquistou medalha de ouro com um queijo curado de 20 a 30 dias. “Chamavam tantos mineiros… quando anunciaram meu nome eu não acreditei”, lembra Angelita. Em 2023, nova medalha de ouro, agora no Concurso Paraná, com um queijo aromatizado e defumado criado a partir de uma sugestão de cliente. Dois ouros e um impulso definitivo: “A gente passou a acreditar ainda mais no que estava fazendo.”

A ambição veio acompanhada de rigor sanitário. A propriedade buscou e conquistou, há quatro anos, a certificação como “livre” de brucelose e tuberculose — hoje, segundo Angelita, a única com esse status no município. O passo seguinte foi o SUSAF, o selo estadual que autoriza a venda em todo o Paraná. A jornada, iniciada no SIM, levou três anos de burocracia. “Eu fui insistente. É injusto ter um produto bom e sair sem selo, sem rótulo. Corremos atrás e conseguimos. Agora qualquer agroindústria animal de Pinhão tem um caminho mais fácil, a papelada já existe.”

Com o selo, a marca ganhou prateleiras e estrada: Casa de Queijos, Lactopuava e mercearias em Guarapuava; Supermercado Líder, em Bituruna; e, em Pinhão, Econômico, JM, Nosso Supermercado, Casa de Frios e Adega Sabor do Sul. Angelita também faz feira mensal em Guarapuava, via Abrasel nos Bairros, para manter o contato direto com o consumidor. A próxima fronteira tem nome e sobrenome: Selo Arte, que permitirá vender em todo o Brasil. “Quem achou que eu ia sossegar se enganou”, brinca. “Já estamos montando catálogos por região e conversando com um revendedor com acesso ao Litoral e a Santa Catarina.”

APROLEQ — Associação dos Produtores de Queijo e Derivados de Leite da Região Centro do Paraná

O projeto não caminha sozinho. Angelita integra a Aproleq, associação que une queijeiros da Região Centro do Paraná para trocar técnica e somar força — inclusive na busca pela Indicação Geográfica (IG) do “Queijo do Vale do Alecrim”. “Como a Canastra, queremos o reconhecimento do terroir: aroma e sabor que nascem deste lugar.”

A Vale do Alecrim também abriu as porteiras para a comunidade. A propriedade recebe grupos para café colonial e vivências — escolas, empreendedores e visitantes —, com atendimento agendado para 30 a 50 pessoas. “É mostrar aos jovens que dá para estudar, se especializar e viver bem no interior. Hoje ninguém fica isolado: tem internet, tem estrada, tem horizonte”, diz.

Para Angelita, o futuro de Pinhão — “um município ainda menino” — passa por capacitação e empreendedorismo inclusivo. “Faltam centros de especialidades. Quanto mais perto a formação, menor o custo para o agricultor.” E completa: “O pinhãoense está de parabéns pela garra. Nosso município é rico; basta acreditar, se capacitar e ir atrás.”

Entre prêmios, selos e metas, permanece a semente original: a força feminina que transforma chão batido em campo fértil. No Vale do Alecrim, a queijaria que nasceu da memória de uma avó, da coragem de uma nora e do trabalho de toda a família segue maturando histórias — firmes, aromáticas e, sobretudo, vencedoras.


Reportagem publicada originalmente na edição impressa comemorativa aos 61 anos de emancipação  política do município de  Pinhão – PR.


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