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UM GIGANTE QUE NÃO QUER ACORDAR

Como começar do início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Assim indagava Clarice Lispector em “A hora da estrela”. E assim perguntamos nós quando estamos diante da musa da história. Por onde começar a contar um causo sendo que o começo do fio da meada é geralmente incerto e impreciso? Difícil responder e, por isso mesmo, é necessário que o façamos.

Frente a impossibilidade de encontrarmos com exatidão o começo do fio de Ariadne deixado por Teseu ao entrar no labirinto do monstro Minotauro, devemos procurar, primeiro, a planta baixa do labirinto que fora projetado por Dédalos.

Ou seja: antes de sairmos nos batendo pra lá e pra cá para encontrar o fio que nos conduzirá para a compreensão dos acontecimentos históricos que se apresentam aos nossos olhos cansados diante da formosura de uma infinidade de tortuosos corredores labirínticos, nós devemos primeiramente procurar mapear as ideias e correntes de opinião que influenciaram os agentes históricos que atuavam na quadra, alvissareira ou não, que está prendendo a nossa atenção e guiando nossa compreensão.

Se nós identificarmos com relativa clareza as ideias que pipocavam na moringa dos indivíduos em um determinado período, iremos ser capazes de desenhar com relativa segurança o horizonte de consciência que as pessoas dessa época possivelmente dispunham para planejar e realizar as ações que acabaram por dar um determinado tom nesse ou naquele período histórico.

No caso, tenho em mente, nesse momento, a quadra em que foi encenada a independência do nosso triste país. Se voltarmos nossas vistas para esse período da nossa história, iremos constatar que os autores que mais encantavam as mentes bem pensantes e atuantes desses idos eram Montesquieu, Rousseau, Voltaire, Jean Denis, Jean Baptiste Say, Nicolau Maquiavel, Gaetano Filangieri, John Locke, Adam Smith, Edmund Burke, Jeremy Bentham, Thomas Malthus, David Ricardo e, especialmente, Dominique de Fourt de Pradt [meu Deus, que parágrafo chato].

Autores esses que eram publicados – em fragmentos – nos jornais e panfletos que se multiplicavam nas ruas do Rio de Janeiro. Publicados, comentados, citados, referenciados e, tudo isso, junto e misturado, acabou criando o ambiente cultural que daria forma às lutas pela independência do Brasil.

É claro que as ideias bebidas desse manancial de autores, que eram lidos aqui nos trópicos, acabaram sendo interpretadas duma forma bem nossa e, é claro, foram sendo combinadas das maneiras mais inusitadas possíveis e pensáveis o que, por sua vez, acabou por dar uma feição singular para o processo de libertação da nossa pátria.

Dessas combinações todas, penso que uma que merece um destaque especial encontra-se representada na figura de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca dessa estrovenga verde e amarela.

Esse era uma figura, ao mesmo tempo, fortemente influenciada pela obra de Jean-Jacques Rousseau e pelos ensinamentos de Edmund Burke.

Vejam só como são as coisas aqui nessas terras de jabuticabas. Somente aqui no Brasil seria possível vermos o mentor intelectual da Revolução Francesa sendo costurado com o pai do conservadorismo – que também era um profundo crítico da revolução que abalou a França.

Claro que Bonifácio sofreu outras influências. Sem dúvida. Mas o que nos chama a atenção é essa combinação não muito usual para o contexto que ele viveu. Porém, penso que essa combinação, não muito ortodoxa, foi fruto de uma percepção clara da conjuntura em que ele estava imerso e que exigia uma solução distinta daquelas que se apresentavam [redondinhas] nos manuais políticos europeus.

Tínhamos características muito específicas que exigiam uma solução política que nos auxilia-se na façanha de nos tornarmos independentes sem cairmos em uma fragmentação política vil, liderada por caudilhos canalhas e, ao mesmo tempo, que não nos condenasse a uma guerra civil sem fim em misto com um conflito interminável com Portugal.

E ele estava muito atento para o que havia ocorrido, e que estava ocorrendo, na América Espanhola; ele estava ciente dos furdunços que agitavam o Velho Mundo, e sabia que os ventos da independência poderiam facilmente transformar-se numa grande tormenta. Por isso essa originalíssima combinação da inspiração revolucionária de Rousseau com a índole conservadora de Burke, devidamente costurada pelo temperamento de John Locke, era algo que fazia todo o sentido diante da realidade brasileira.

Bem, essa era a combinação que se fazia presente na cuca dele, mas, não nos esqueçamos que haviam outros atores em cena e que, além de muitos deles terem outras influências intelectuais, muitos tinham também outros interesses que destoavam muito daqueles que eram defendidos pelo velho Andrada e que, por isso mesmo, lhe valeu uma imensa legião de inimigos e desafetos.

Como ele não era um homem que procurava se ater às exterioridades que compõem a vida pública, nem de se subordinar aos figurinos políticos, nem era um caboclo que se deixava envolver pelas palavras aveludadas que compõem o dia a dia artificioso dos poderosos, era mais do que natural que esses desafetos e inimigos fossem engrossando suas fileiras; e isso, em definitivo, não o amedrontava.

Por isso, penso eu, ele era o homem certo para as lides políticas que estavam sendo acudidas pelas suas mãos, mesmo que praticamente todos dissessem o contrário. Aliás, porque todos diziam o contrário, ele era o homem certo.

Ele acreditava que o governante do império nascente deveria agir com autoridade, sem se ocultar à sombra do poder; que ele deveria procurar consolidar a unidade do Brasil e apaziguar os conflitos e choques entre os patriotas e dos patriotas com o império.

Patriotas esses que, em muitíssimos casos, ao contrário dele, se deixavam impressionar muito facilmente com as exterioridades da vida pública, com as delícias do sucesso imediato, com os modismos políticos e ideológicos, com a estética oca oferecida pelo status político. Por isso, muitas vezes, Bonifácio parecia muito mais com um jesuíta pregando entre antropófagos do que com um líder político de uma nação nascente.

Abre parêntese: Ele sabia, claramente, que uma revolução acaba trazendo sempre, em suas entranhas, os germes da contrarrevolução. Fecha parêntese.

Desafetos e inimigos que se digladiavam uns com os outros pelos mais variados motivos vis e por mil e um interesses mesquinhos, mas que entravam em comum acordo quando o assunto era afastá-lo da cena pública e limitar seu poder de influência sobre os rumos do Brasil. E tanto trabalharam para esse fim que conseguiram realizar o seu intento.

Enfim, há um velho amigo meu que, de forma jocosa, sempre me dizia que não devemos nos inquietar com as críticas e calúnias que muitas vezes são dirigidas a nós porque, dependendo de quem seja o autor dos impropérios, o insulto acaba sendo um baita elogio e, no caso dos desafetos de José Bonifácio, a única coisa que ele poderia esperar de seus antípodas era isso mesmo: calúnias e mais calúnias.

Quanto ao ambiente em que estava nascendo o nosso amado país, penso que este nos diz muito a respeito não apenas do processo de independência, mas de toda história dessa terra de desterrados. Um ambiente com muitas ideias e poucas soluções, com muitos interesses e poucos interessados, com muita afetação de virtude e com poucos que agem imbuídos por um genuíno afeto pelo povo e de forma virtuosa para com a nação.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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Naor Coelho

Naor Coelho, administrador de empresa, jornalista e o diretor responsável pelo Fatos do Iguaçu

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