Mutirão para cobrir as salas de aula atingidas pelo temporal na Escola do acampamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu. Fotos: Danielson Postinguer e Thiarles França
Por Ione Rodrigues Correia Woynaroski
Fechamos o ano com o sentimento de que é a solidariedade e a ação coletiva que nos farão sobreviver nesta era de crises e desastres. A pandemia de covid-19 e o tornado que atingiu recentemente o Paraná nos ensinam que não existe saúde humana sem um planeta saudável e não teremos um planeta saudável sem solidariedade e ação coletiva permanente.
Logo que o tornado atingiu o Rio Bonito do Iguaçu voluntários dos municípios vizinhos chegaram, outros nos dias seguintes, dois dias depois da tragédia as ruas já estavam limpas, casas já haviam sido cobertas, a grande rede de solidariedade se construiu para amparar aqueles que perderam tudo, materialmente falando e ainda aqueles que estavam feridos, abalados emocionalmente ou que perderam entes queridos.
Infelizmente a história humana mostra que somos mais solidários e propensos a ação coletiva em momentos de tragédia e risco de morte. O surgimento de comunidades cooperativas como resposta às crises fazem parte de estratégias humanas primitivas para sobreviver, somos capazes de cooperar até mesmo com grupos rivais para sobreviver, no entanto, a maioria de nós não consegue manter essas atitudes em tempos de paz e normalidade. Essa estratégia de sobrevivência permanece em nós e pode ser observada até os dias de hoje nas nossas sociedades, principalmente no modo de fazer política. Grupos rivais se unem para vencer e depois rompem quando já alcançaram seus objetivos.
No entanto, existem grupos de pessoas que são capazes de aprender com as crises e transformam esses laços nascidos em emergenciais em ações criativas e colaborativas. Essas pessoas especiais, conseguem reelaborar o passado, refletem o presente e mudam o futuro, utilizando-se de poucos recursos e de tecnologias acessíveis para inovar e agir diferente. Quando várias dessas pessoas se conectam surgem as redes de colaboração, uma demonstração de evolução intelectual extraordinária, ao conseguir reprimir os instintos primitivos que herdamos do mundo animal e manter diálogo com grupos que pensam diferente, criam laços de solidariedade mesmo em tempos de paz.
Esses grupos são capazes de continuar se organizando para enfrentar os próximos desafios, com menos erros, mais força e com menos perdas materiais e humanas. Um exemplo é o Sistema Único de Saúde (SUS), ele existe porque no
passado vários grupos, que historicamente estavam distantes em termos sociais, financeiros, intelectuais e políticos, se uniram em prol de um objetivo comum. Lutar por liberdade, igualdade e saúde para todos. Iniciando um movimento coletivo de reforma sanitária, promovendo a participação popular e com essas atitudes e mudança de pensamento conquistaram um sistema de saúde público para todo o povo brasileiro.
Hoje não vivemos mais em um período ditatorial, nesta era somos atingidos com frequência por vírus e desastres naturais. As desigualdades sociais ainda persistem e viver no campo e proteger o que resta de florestas e nascentes de água está cada vez mais difícil. É fato que não alcançaremos um planeta saudável se não houver a união de forças que historicamente rivalizam em ideias, políticas e ações.
No Paraná, por exemplo, o Movimento Sem Terra (MST) foi historicamente estigmatizado pela sua luta por reforma agrária.
Mas se olharmos de perto, em momentos de grandes desastres, esses grupos normalmente deslegitimados, atuam de forma organizada ao lado do Estado e instituições consideradas legítimas. No mesmo dia do tornado, o MST iniciou
ações de solidariedade no Rio Bonito do Iguaçu e no Assentamento Nova Geração em Guarapuava e outros municípios do Paraná, auxiliando na produção de alimentação, organização de doações, doando mais de 26 toneladas de alimentos, na limpeza e reconstrução de moradias atingidas pelo tornado. A ideia da Cozinha Solidária já foi uma ação coletiva exitosa nas enchentes do Rio Grande do Sul, somando-se ao poder público e outras organizações da sociedade civil para enfrentar tragédias.

Preparação de marmitas nas cozinhas solidárias para as famílias atingidas. Foto: Thiarles França. Por Setor de Comunicação e Cultura do MST no PR
Gabriel, nutricionista e morador de Curitiba, coordenador da cozinha do MST no Assentamento 8 de Junho, chegou como voluntário e explicou que as ações de solidariedade são coordenadas e que várias forças de vários estados chegaram para atuar na região. Um coletivo de 20 mulheres produz 3 mil marmitas por dia, além das refeições para as equipes. Aprender como essas organizações funcionam é essencial para pensar as políticas públicas em tempos extremos como o que o mundo globalizado vivência hoje. Para Gabriel a alimentação é um dos pilares do
movimento, uma das diretrizes é pensar o alimento saudável para as populações.
Não podemos esquecer que este é também um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pactuados pelas Nações Unidas em 2015, acabar com a fome com alimentos saudáveis, pensando em preservar a saúde humana, o meio ambiente e as nascentes de água.
Mesmo com a comunicação ruim devido a destruição das redes de comunicação, os movimentos sociais conseguem se organizar e criar redes colaborativas eficazes, o que nos faz questionar “quando começaremos a usar o conhecimento em agricultura familiar e saúde tradicional popular e a organização dos movimentos populares para criar redes permanentes para pensar a saúde do meio ambiente, tão necessário para a sobrevivência humana neste planeta, ao invés de combatê-los?”
Ou ainda, quando as lideranças sociais e comunitárias serão definitivamente incluídas nos espaços de pesquisa, nas universidades e nas instituições públicas para pensar as políticas públicas contemporâneas necessárias? Já existem pequenas iniciativas, mas estas ainda se mostram incipientes.
Para Jonas, da direção estadual do MST, apenas com a união da classe trabalhadora e dos movimentos sociais será possível pensar as políticas públicas necessárias para esta era de incertezas e catástrofes naturais. Jonas explica que as ações de solidariedade do movimento não são assistencialismo, são ações organizadas do movimento da reforma agrária e da classe trabalhadora. A organicidade já existe, tanto no estado do Paraná, como a nível nacional. Neste
contexto de tragédia, a primeira ação é acolher as pessoas, alimentar e depois reconstruir as casas e infraestruturas coletivas, além de fortalecer as pessoas neste processo.
A saúde pública do município de Rio Bonito do Iguaçu, atuante desde o início da tragédia, recebeu apoio do governo do estado do Paraná e do governo federal.
No dia seguinte, o governo federal enviou equipes de apoio com representantes de ministérios, técnicos da defesa civil nacional e profissionais da Força Nacional do SUS.

União de todas as forças atuantes no desastre do Rio Bonito do Iguaçu: forças municipais, estaduais e federais
A Organização Não Governamental World Central Kitchen (Cozinha Central Mundial) chegou ao local para se somar à Cozinha Solidária do MST. Pessoas e representantes de instituições de todos os lugares, de perto e de longe rapidamente se organizaram para enviar ajuda. Instituições como a COOAFAPI e pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC) da Unicentro e Colaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS) da Fiocruz Brasília que estavam reunidos em evento no município de Pinhão se
organizaram e enviaram alimentos e refeições prontas, visto que, muitas pessoas haviam perdido tudo naquele momento.

O Diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri enviou equipes de apoio para os locais devastados e liberou um fundo de auxílio emergencial para a prefeitura e para a estruturação de postos de saúde temporários. Para Enio Verri, presidente da Itaipu, o mundo vive uma crise climática nunca vista antes, além da transição energética, o governo federal e a Itaipu vem incentivando as práticas colaborativas e de sustentabilidade para enfrentar essa nova realidade.

Diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri, acompanha trabalho de reconstrução
em Rio Bonito do Iguaçu. Foto: Alexandre Marchetti
A pandemia de covid-19 e o tornado em Rio Bonito do Iguaçu evidenciam que o Estado não consegue gerenciar grandes crises sanitárias sozinho, e que as comunidades apesar de conseguirem criar tecnologias sociais mais baratas, mais rápidas e muitas vezes mais efetivas que o Estado, elas não conseguem resolver tudo sozinhas por falta de recursos financeiros. A máquina do Estado e de instituições como universidades, centros de pesquisa e instituições privadas precisam se unir às lideranças das comunidades e movimentos sociais permanentemente. O ideal de “Todos pela Saúde, Saúde para Todos” lançado durante a pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) não é uma utopia, é uma questão de sobrevivência.
O tornado de mais de 300 km/h que destruiu a cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e atingiu o Assentamento Nova Geração em Guarapuava e outros municípios do Paraná no dia 7 de novembro, deixando vítimas fatais e mais de 800
feridos, sinaliza a necessidade de criar e manter redes de colaboração e solidariedade permanentes para elaborar estratégias de educação, prevenção e atuação em crises e desastres.
Se grupos de diferentes frentes conseguem sentar para pensar como trabalhar juntos em momentos de catástrofes, então é possível seguir com esses diálogos em tempos de normalidade e paz. A Saúde e, portanto a vida humana e
planetária, ultrapassa questões pessoais, religiosas e políticas, deve ser uma pauta de interesse de todos e deve servir de ponto unificador de todas as frentes que pensam no bem comum da sociedade. No futuro não haverá espaço para
instituições ou grupos políticos que colocam seus interesses acima da saúde humana e planetária. O tempo das ações egoístas, isoladas e fragmentadas está chegando ao fim.
É tempo de pensar de forma solidária e agir coletivamente. É tempo de investir nas comunidades tradicionais e periféricas, no pequeno agricultor, nas organizações sociais, são elas que mantêm vivas o que resta de florestas, que
protegem as fontes de água e cultivam conhecimentos milenares. São essas organizações resilientes que mantém a prática de solidariedade e ação conjunta o ano todo e em momentos de crise se unem a outros grupos e ficam gigantes.
Nesta época de Natal, que simboliza o renascimento das esperanças em igualdade, justiça e partilha de pão, é um momento propício para pensar sobre essas questões.
