
A gralha-azul semeia o futuro sem saber: enterra o pinhão, segue a vida e, quando não volta, nasce araucária. Assim foi com Zeneida de Mattos. Veio de Pitanga, plantou raízes em Pinhão como professora de Língua Portuguesa e Literatura e, junto dos filhos João Thomas e Letícia, floresceu empresária. À frente do Supermercado JM, família e time afirmam em coro: “Não trocamos Pinhão por nenhum outro lugar.”
Hoje o JM está entranhado no cotidiano pinhãoense: pioneiro nas entregas gratuitas, vitrine para a agricultura familiar e empregador de mais de 40 colaboradores. A conversa com Zeneida e os filhos revela uma jornada de luta, persistência, união e gratidão — uma história típica das boas sementes que o Pinhão acolhe e ajuda a crescer.
Do quadro-negro às gôndolas
“A sala de aula era pequena pra mim”, admite Zeneida, sem desmerecer o magistério que a formou. “Eu gostava de criar, inovar, fazer diferente.” A experiência anterior como gerente de supermercado em Pitanga acendeu a coragem de empreender em Pinhão. “Percebi que como empresária eu seria mais realizada e poderia fazer mais bem às pessoas. Tenho paixão pelos clientes.”
A decisão cobrou preço: “No fim de 1996 o nosso financeiro foi lá embaixo. Pensei que não íamos sobreviver”, lembra. Mas a família se enlaçou ao projeto. “Sempre tivemos uma equipe familiar de sustentação, e depois fomos formando time com gente de Pinhão.” Daí brotou um vínculo afetivo que moldou o negócio: “O cliente opta por entrar no JM. Isso precisa ser valorizado todos os dias.”

“Prefiro arriscar no que amo do que ficar no que é só comodismo e segurança.”
Inovação à moda da casa
O JM cresceu apostando em serviço e qualidade.
- Entregas gratuitas: quando cobrar era regra, o JM contrariou a lógica e incorporou o serviço ao custo, facilitando a vida de quem mais precisa. Hoje, as entregas são pulverizadas: caminhonete e moto saem logo após a compra — nada de receber às cinco da tarde o que se comprou de manhã.
- Carne de procedência: desde o início dos anos 2000, o JM integrou o movimento que originou a Cooper Aliança, priorizando carne de alta qualidade. “O cliente prefere pagar um pouco mais por algo superior”, resume Zeneida.
- Padaria de produção própria: pão e bolos frescos, não congelados. A fornada sai no tempo certinho para o café.
- Vitrine da agricultura familiar: da AFATRUP à COOAFAPI, o JM abriu espaço para produtos locais e mantém a ponte direta campo–cidade.
ASucessão: quando os filhos viram tronco
A transição foi natural e vivida no chão da loja.
Letícia cresceu entre o pacote e o caixa. Formou-se em Administração e, “às vezes meio na marra”, assumiu compras e setores — hoje, viaja para negociar e abastece a seção de utilidades com olhar de quem conhece o corredor e o consumidor.
João Thomas, contador, assumiu a contabilidade e a burocracia. “Tínhamos inspiração e base. A escolha ficou mais tranquila”, diz.
A pandemia apressou o relógio da sucessão. “Foi um consenso a mãe se afastar por um tempo”, relatam. A empresa amadureceu decisões; Zeneida dedicou metade do seu tempo a projetos sociais e, ao voltar, encontrou o JM andando com as próprias pernas.

“A gente cresceu dentro do mercado. A mãe sempre ensinou — e continua ensinando.”

“Com equipe boa e inspiração em casa, a gente amadureceu para tocar o negócio.”
Cultura de equipe e clima de família
“Temos colaboradores com 20 anos de casa”, conta Zeneida. O cuidado passou na prova mais dura: ninguém do JM morreu na pandemia, graças ao acompanhamento próximo dos casos e à reorganização interna. O ambiente — “onde todo mundo é mais amigo” — virou marca. O saudoso Toninho, marido de Zeneida, segue lembrado nos corredores: “O Tony brincava com a gente”, contam clientes.
A estratégia, agora, é qualidade com empresa enxuta. “Não quisemos virar rede. Preferimos focar no que sabemos fazer bem e manter entre 40 e 50 colaboradores”, explica Zeneida.
A cidade que acolhe — e dança
“Pinhão me adotou. Nunca me senti discriminada por ter vindo de fora”, diz Zeneida. Para Letícia e João Thomas, Pinhão é lar: “Nunca pensamos em ir embora.”
Mudou muito em 30 anos? “É outra cidade”, concordam. Onde hoje está o JM, era mato. O comércio se modernizou; entidades como a Associação Comercial e movimentos da agricultura familiar ganharam força. E festa continua sendo a cara do pinhãoense: “Povo acolhedor, humilde, que gosta de dançar.”
O que ainda falta?
A família elenca três pontos:
- Vilas mais cuidadas — políticas públicas menos polarizadas e mais integradas;
- Interior com infraestrutura — estrada boa e logística que mantém o comércio vivo;
- Regularização fundiária — documento na mão para atrair investimento e crédito: “A grande revolução seria acertar as terras”, defende Zeneida.
Devolver o que Pinhão deu
Com a operação mais redonda, Zeneida mergulhou em frentes comunitárias: catadores de recicláveis, hortas da Invernadinha, grupo de costura. “Mais de 50% do meu tempo vai para esses projetos”, conta. Parte do lucro do JM vira insumo social: “Aquele barracão de reciclagem? Eu destinei uma parte daqui pra lá.”
“É o meu jeito de agradecer por tudo que Pinhão nos deu.”
30 anos adiante

Para os próximos 30 anos, a família deseja crescimento com propósito — no JM e em Pinhão.
- Para a cidade: “Pinhão tem tudo para ser polo microrregional”, diz Zeneida. “Que se modernize sem perder alma, resolva os problemas sociais e avance na regularização fundiária.”
- Para o JM: seguir inovando no serviço, priorizando a qualidade e abrindo espaço ao produtor local — com o sorriso de quem entra e sai feliz.
LINHA DO TEMPO — JM
- 1996 (28 de março) – Nasce a Comercial JM na AFATRUP.
- Anos 2000 – Engajamento no movimento que originou a Cooper Aliança; foco em carne de procedência.
- 2010–2019 – Padaria própria e ampliação de fornecedores locais.
- 2020–2021 – Pandemia acelera a sucessão e a modernização das entregas.
- Hoje – Mais de 40 empregos, entrega gratuita e ágil, vitrine da agricultura familia
JM EM NÚMEROS
- +40 colaboradores
- Entregas gratuitas (moto e caminhonete)
- Padaria de produção própria (pães e bolos frescos)
- Carne de alta qualidade (parcerias com produtores locais)
- Espaço fixo para agricultura familiar (AFATRUP/COOAFAPI)
Como a gralha-azul, Zeneida enterrou um sonho no chão de Pinhão. O que nasceu foi empresa, empregos, serviços e cuidado — uma araucária de copa larga, onde muita gente encontra sombra e pão quentinho. E a família resume: “Evoluir sempre, sem sair de casa.”
Reportagem publicada originalmente na edição impressa comemorativa aos 61 anos de emancipação política do município de Pinhão – PR.




