Um dos personagens mais intrigantes da história são os bobos da corte. Figuras que, com suas roupas extravagantes, faziam reis, nobres e populares rirem às pampas quando se pronunciavam e, é claro, quando faziam suas piruetas mil nas praças ou no meio dos salões, diante de uma majestade qualquer.

O riso é libertador, é um santo remédio, como todos sabemos. Aliás, como nos ensina Ariano Suassuna, quem gosta de tristeza é o diabo. Por isso, esse negócio de ficarmos fazendo cara feia para tudo e para todos, além de fazer proliferar rugas e pés de galinha na cara da gente, faz um mal danado para nossa alma.

Mas voltemos aos bobos. Esses personagens, tão bem retratados por Diego Velázquez, não tinham apenas o papel de fazer os outros rirem e se descontraírem. Não. Por serem tidos como bobos, estes estavam autorizados a dizer todas as verdades na cara de todos sem correr o risco de sofrer uma punição real, ou uma repreenção social.

Aliás, como nos ensina o dito popular, brincando, todos nós sempre dizemos verdades que não teríamos coragem – ou o disparate – de dizer com ares de seriedade.

Atualmente, não mais temos entre nós os bobos da corte. Esses personagens acabaram se perdendo nas brumas da história. Entretanto, podemos dizer que os comediantes, de um modo geral, cumprem um papel similar ao desses personagens em nossa época, porém, ao contrário de seus ancestrais que atuaram no medievo, esses hoje não contam com a licença para dizer toda e qualquer verdade. Nananinanão.

Na realidade, a cada dia que passa, os profissionais do riso estão sendo cada vez mais melindrados pelas hordas politicamente corretas que não suportam ouvir um gracejo que toque, mesmo que de leve, em seus caprichos criticamente críticos e [depre]civicamente inflamados. E quando isso ocorre é um verdadeiro Deus nos acuda.

Recentemente, o comediante Léo Lins, após um assédio feroz perpetrado contra sua pessoa, e de sua esposa, gravou um vídeo onde nos lembrou o óbvio ululante: que uma das funções do humor é justamente a de tocar em certos temas desconfortáveis para a sociedade e, em meio a ironias e gracejos, levar as pessoas, por meio de uma catarse, a refletir sobre certos assuntos, tão delicados quanto controvertidos.

Nos esquecemos, infelizmente, que o patriarca da filosofia, o nosso velho Sócrates, tinha como principal ferramenta de seu labor filosófico, a ironia. É impossível ler os diálogos de Platão e não imaginar Sócrates como um tremendo tirador de onda que, com seus subterfúgios dialéticos, recursos poéticos e alavancas retóricas, ironicamente desmontava as poses de superioridade afetada de seus contemporâneos.

Tal desmonte levava alguns a refletirem sobre sua porca vida e se emendarem; já outros, ficavam pau da vida, putiados mesmo com o velho, o que os levou a armarem uma intriga sem par para que o pobre Sócrates fosse publicamente cancelado diante dos olhos de uma multidão atiçada por Mileto.

E, é claro, que essa cambada fez isso sem perder a sua posse de ateniense esclarecido, de forma similar a essa turba toda que faz aquela encenação de indignação ferida diante de uma verdade dita com bom humor.

As almas criticamente caprichosas se esquecem que, como nos ensina Émile-Auguste Chartier (Alain), o humor é sempre generoso, seja ele ácido ou infantil, porque sempre dá mais do que recebe. Sempre. Já as pirraças politicamente corretas, invariavelmente, são mesquinhas e tacanhas, de alfa a ômega, porque sempre exigem algo que elas jamais poderão oferecer.

E lembremos de um detalhe importante, que não pode ser varrido para debaixo do tapete da vida: somente os medíocres não são capazes de rir de si mesmos. Apenas as almas adoentadas, envenenadas até o tutano pela soberba se veem impedidas de rirem de suas fraquezas, de suas baixezas, enfim, de sua condição humana.

Não é à toa que tais figuras sejam tão inflamadas diante de qualquer banalidade.

Lembro-me de uma polêmica que, certa feita, foi fomentada por conta de um episódio de “Os Simpsons”, aquele desenho animado de gente amarela; episódio esse que retrata a vinda de Homer Simpson e sua família, de dedos estranhos, aqui para o Brasil e, como todo episódio dessa série de animação, o escárnio foi geral. Ninguém foi perdoado. Ninguém.

Na época, houveram muitas almas fevosas que ficaram indignadas com a animação, considerando-a um insulto à brasilidade. O que tais alminhas impolutas esqueceram de lembrar é que “Os Simpsons”, antes de qualquer coisa, são uma tremenda sátira dos costumes da sociedade americana.

Até ali, todos nós riamos deles com eles, mas, naquele momento, frente àquele episódio em particular, não queríamos rir com eles de nós mesmos.

Enfim, fico imaginando o que Sócrates faria diante de uma polêmica tosca como essa. Imagino o que ele diria para essa turba, toda inflamada, com seus cancelamentos sem fim. Seria divertido vê-lo refletir sobre o assunto. Imagino que não ficaria pedra sobre pedra.

Também, muitas vezes, fico imaginando o que a galerinha criticamente crítica, com sua nulidade protagonista, faria com Sócrates se ele vivesse hoje e, ironicamente, fizesse o que ele fazia na Atenas de antanho. Aliás, nesse caso, não seria preciso muito esforço imaginativo, tendo em vista a incapacidade de rir de nós mesmos que é cultivado por muitos círculos e panelinhas do mundo contemporâneo, não é mesmo?

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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