Fotos: Nara Coelho/Fatos do Iguaçu

Evento histórico marca o pioneirismo da Subseção na defesa dos direitos femininos e acende alerta sobre a “Machosfera” e o avanço do ódio digital contra mulheres na região.

Por Nara Coelho – Portal Fatos do Iguaçu


GUARAPUAVA – Em uma noite marcada por dados alarmantes e um forte apelo à união institucional, a OAB Subseção de Guarapuava realizou, em 24 de março, o I Fórum da Mulher. Com o tema “Enfrentamento à Violência, Igualdade de Gênero e Políticas Públicas”, o evento reuniu mais de 150 pessoas, incluindo autoridades do Judiciário, Legislativo de três municípios (Guarapuava, Pinhão e Reserva do Iguaçu) e representantes da sociedade civil.

A abertura foi conduzida pela presidente da Subseção, Hamidy Omar Safadi Kassmays, que destacou o caráter pioneiro da gestão: Guarapuava é a primeira das 49 subseções do Paraná a contar com uma Diretoria de Mulheres Advogadas. “Este fórum transcende a advocacia. É o caminho do aperfeiçoamento da rede de proteção”, afirmou a presidente.

Diretoria da OAB Guarapuava e convidadas

O Peso da Pedra: A Realidade do Feminicídio

A pesquisadora e Dra. Ana Claudia Silva Abreu trouxe à tona a gravidade estrutural do problema. Utilizando a metáfora do “Mito de Sísifo” — o personagem condenado a rolar uma pedra montanha acima apenas para vê-la cair novamente —, ela descreveu o sentimento de quem atua na área.

“A pedra está cada vez mais pesada e a colina mais íngreme. No Brasil, temos um feminicídio a cada seis horas e uma denúncia de estupro a cada seis minutos”, alertou Ana Claudia.

A pesquisadora criticou a “patologização” da violência, argumentando que o discurso de que o agressor estava “louco” serve apenas para desresponsabilizá-lo. “A violência é estrutural. Ela está nas piadas, nas relações e na naturalização da subordinação”, concluiu, lançando um desafio aos homens presentes sobre a renúncia de privilégios para combater o sistema.

A Ameaça Digital: Redpill e a “Machosfera”

Um dos momentos mais impactantes do Fórum foi a exposição da Promotora de Justiça Dunia Serpa Rampazzo. Ela detalhou o avanço de comunidades digitais misóginas, conhecidas coletivamente como Machosfera, que ganharam força no pós-pandemia.

A promotora explicou termos que circulam entre jovens e adolescentes, como:

  • Redpill: Grupos que pregam a inferiorização e o ressentimento contra mulheres.

  • Incels: Homens que disseminam ódio por se sentirem rejeitados.

  • MGTOW: Movimento que defende o afastamento total do convívio social com mulheres.

Dunia apresentou casos recentes e brutais de 2026, como o estupro coletivo em Copacabana e o feminicídio de uma policial, onde os agressores utilizavam lemas desses movimentos. Em Guarapuava, um caso de 2023 chocou a plateia: um homem tentou obrigar o próprio filho, de apenas 4 anos, a bater na mãe, afirmando que “era assim que se tratava mulher”.

Liderança Feminina e a Rede de Proteção

A presidente da ACIG, Maria Inês Guiné, trouxe uma perspectiva de 40 anos de militância. Ela celebrou o fato de o fórum ocorrer sob uma gestão feminina na OAB e na Associação Comercial. “É o olhar da mulher que tem a visão sistêmica. Precisamos nos apropriar da nossa liderança e passar isso para as nossas meninas”, destacou.

A Patrulha Maria da Penha e o NUMAPE (Núcleo Maria da Penha) também estiveram presentes, detalhando como funciona o acolhimento prático às vítimas.

A Dra. Ashlei Beatriz Durant de Almeida, presidente da Comissão da Mulher Advogada e organizadora do evento, reforçou que o objetivo principal foi compartilhar o funcionamento da rede de enfrentamento. “Queremos dizer que todas estamos unidas. Este é apenas o primeiro de muitos fóruns”.

Encaminhamentos Políticos

O fórum não se limitou ao debate. Foi discutida a urgência da aprovação de projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional para criminalizar a misoginia e responsabilizar plataformas digitais que monetizam discursos de ódio. A expectativa é que, após os episódios de violência no início de 2026, o Senado vote em regime de urgência a tipificação do crime de misoginia.

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