Ao ler o titulo desse texto, você imaginou de quem se tratava? De um religioso, ou até um Santo Católico? De um Anjo Divino enviado dos Céus? Imagina só a importância de alguém conhecido como “salvador das mães”? Bem, trata-se de um homem de carne e osso, um médico. Mas e se eu te contar que esse homem foi colocado num manicômio, considerada louco, humilhado? Ignaz Philipp Semmelweis foi um médico húngaro, nascido na cidade de Buda, Reino da Hungria, em 1 de julho de 1818. Ele é considerado o pioneiro nas técnicas antissépticas na medicina. Quando o Dr. Semmelweis (lê-se “semelvais”) viveu, os hospitais não eram nada parecidos com os de hoje. Pacientes ficavam deitados em lençóis molhados e sujos, cheios de fungos e vermes. Cheiro de urina, vômito, fezes, sangue e outros fluidos corporais.

O fedor era tão forte, que a equipe quase sempre caminhava com lenços pressionados contra o nariz. E os profissionais médicos, também não tinham muito cuidado higiênico. Raramente lavavam as mãos ou os instrumentos de trabalho, e o cheiro que exalavam, chamado de “fedor tradicional do hospital”, até soava como elogio na época. Salas de cirurgia, consultórios e quartos de internamento sujos e mal cheirosos, as mesas revelavam traços dos corpos que passaram por ali antes. No chão, serragem para absorver o sangue que escorria. Tinha até um profissional, que chegava a ganhar tanto quanto um médico, cuja função era caçar insetos, baratas, piolhos, pulgas, percevejos e outros visitantes indesejados das camas e quartos. Era muito mais seguro ser tratado em casa do que ser internado naqueles tempos.

          Toda essa situação imunda causava problemas para todos os doentes, mas especialmente para as mães, logo após o parto. A “febre do parto”, ou infecção pós parto era comum, pois ao serem atendidas nestes lugares fétidos, imundos, e por pessoas que sequer lavavam as mãos, as mulheres adoeciam, e morriam. Semmelweis observou um colega que morreu após se infectar durante a dissecação de um cadáver, e viu que os sintomas eram muito parecidos com os que as mulheres que contraiam a infecção pós parto. No século XIX, não se falava em bactérias e germes, e havia baixo conhecimento de como se dava a transmissão de doenças, acreditava-se que as doenças se espalhavam por meio das nuvens de um vapor venenoso, onde partículas de matéria em decomposição chamadas ‘miasmas’ eram jogadas no ar. Ele, ao contrário, rapidamente concluiu que os médicos levavam a contaminação de um lado para o outro, e que a chave para se diminuir a mortalidade, estava na limpeza.

           Semmelweis passou então a propor que os colegas médicos lavassem as mãos e os instrumentos antes dos atendimentos, com hipoclorito de cálcio. Higiene na medicina é algo que para nós parece óbvio, mas ele foi atacado, ridicularizado. Sua teoria era ignorada, rejeitada, e ele foi demitido do hospital por razões políticas e assediado pela comunidade médica em Viena, sendo finalmente forçado a se mudar para Budapeste. A partir de 1861, ele começou a sofrer de depressão, e foi levado por um colega um asilo de doentes mentais em Viena. Disseram que ele visitaria um novo instituto médico. Mas quando percebeu o que estava acontecendo e tentou sair, foi espancado severamente, e colocado numa camisa de força.

Acabou preso cela escura, e morreu duas semanas depois, aos 47 anos de idade, por causa de um ferimento em sua mão, que gangrenou. Anos após sua morte, Louis Pasteur desenvolveu a teoria microbiana das doenças, oferecendo uma explicação teórica para as descobertas de Semmelweis. Sua teoria, como sabemos, estava certa, e hoje muitas vidas são salvas graças aos rigorosos protocolos de assepsia e limpeza que profissionais de saúde devem seguir.

           Em tempos de pandemia como este, muitas pessoas insistem em atacar a ciência, os médicos, os especialistas. Por questões políticas, econômicas, ou de pura ignorância, as pessoas que tentam salvar vidas, nem sempre são ouvidas, e seus ensinamentos são atacados e ridicularizados. A história do Dr. Semmelweis nos deixa essa lição, a de se respeitar e valorizar o saber científico, o poder do conhecimento para se salvar vidas.

José Carlos Correia Filho – professor de História

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