O problema é o ranho alheio, não o meu

Historicamente, e isso com fatos, a chamada “direita” sempre usou de um velho artifício: colocar uma “iminente ameaça comunista” como justificativa para dar início a golpes e ditaduras.  Vejamos só dois exemplos: 1937, o Plano Cohen (falso), falava sobre tal ameaça, e por conta disso, Getúlio Vargas iniciou uma ditadura, que depois seria combatida por seus próprios apoiadores.

Em 1964, em virtude do pânico gerado nos mais abonados pelas Reformas de Base de Jango, que diziam ser comunista, começava o Regime Militar. E eu sei que houve até uma tal “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” apoiando tal evento.

Ou seja, colocam até Deus, família, e outros temas sensíveis ao povo em seus discursos, num ato de covardia e apelação, para convencer as pessoas de seus delírios. Depois acabaram indo para as ruas de novo na Marcha dos 100 mil (1968), contra a ditadura, mas já era tarde demais.

Então, só com base nisso, apesar de ter mais exemplos, quem mesmo que gosta de rotular seus adversários? Aliás, quem gosta de misturar Deus, Família e outros temas de forte impacto para as pessoas? Isso é meio covarde, misturar temas tão caros para ganhar votos e apoio na política, essa é minha opinião.

Quem gosta de chamar de “comunistas, petistas, esquerdistas” e outras alcunhas, qualquer um que se levante contra um sistema político que exclui, cujas regras não garantem os direitos efetivos de negros, mulheres, indígenas, do público LGBT? Quem gosta de “assustar” as pessoas com os “bichos papões comunistas”, quando surge qualquer debate ou política que dê um pouquinho de dignidade aos mais pobres, aos excluídos?

Olha aqui, lutar por direitos das minorias, falar abertamente sobre os escândalos dos privilégios dados a políticos e magistrados, denunciar abusos de autoridade, não votar no candidato da moda, não é necessariamente ser comunista, petista ou esquerdista, marxista. É questão de democracia, é simplesmente pensar diferente, é questão de consciência.

Mas isso vem sendo demonizado, com a aplicação de alcunhas maldosas também. Marxistas? Fala-se muito nisso, mas já leram as obras do autor? Quem tem por profissão ensinar tal conteúdo, o faz? Duvido. Então, antes de choramingar por se incomodar com o ranho que escorre do nariz alheio, que tal dar uma espiada no espelho para ver se o nosso ranho já não nos invadiu a boca?

Olha, o dia em que o dicionário disser quer ser a favor de políticas sociais e inclusivas, que lutar pelos negros, índios, pobres, LGBTs, e pelos direitos das mulheres é ser “esquerdista, marxista e tal, pode ter certeza, eu ficarei orgulhos em ser chamado dessas palavras. Mas por enquanto, essa correlação só existe na mente doentia de gente anacrônica, que ainda vive a Guerra Fria.

Termino com a frase do brilhante filósofo Aristóteles: A turbulência dos demagogos derruba os governos democráticos.  Falam muito desses tais “comunistas” tomando o poder no Brasil.

Mas até agora, na História, só vi mesmo governos democráticos derrubados por quem espalha essa mentira para convencer o povo de que será bom para ele perder seus direitos.

José Carlos Correia Filho – professor de História

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