Você trocaria férias na Suíça, a oportunidade de esquiar na neve, tranquilamente, e divertir-se muito, para ir a um país invadido por nazistas? Então, a história de hoje é sobre um britânico que fez essa escolha, em 1939: escolheu deixar de lado as férias programadas, para dedicar-se ao serviço humanitário. Era final de 1938, quando Nicholas Winton, nascido em 1909 em Hampstead (Londres), e filho de alemães judeus que haviam se mudado para Londres em 1907, decidiu que iria até a cidade de Praga, na Checoslováquia (hoje República Tcheca), para se juntar ao amigo Martin Blake.

Esta dedicava-se a serviços humanitários voltados aos judeus, num momento histórico anterior ao início da Segunda Guerra Mundial, quando as tropas de Adolf Hitler, porém, já colocavam em prática os terríveis planos de invasão e dominação de vários territórios na região. Os judeus eram duramente perseguidos pelas tropas nazistas, e muitos já estavam sendo transferidos para campos de concentração, onde seriam usados em trabalhos forçados, experimentos médicos bizarros, e finalmente eliminados.

Ao chegar em Praga, hospedou-se no Sroubek Hotel, na Wenceslas Square, mas percebeu algo que o inquietou: não havia planos específicos para salvar as vidas das crianças. Sua reação foi rápida, pois percebia que a situação no continente se deteriorava, e a Guerra era questão de tempo. Winton optou por criar a própria organização humanitária para ajudar as crianças judias que corriam risco com nazistas, e buscou contatos com autoridades da Inglaterra. Através da atuação de organizações de Londres, obteve a permissão para que refugiados menores de 17 anos entrassem no Reino Unido, além de garantias financeiras e de abrigo para os refugiados.

Muitas famílias de judeus começaram a procura-lo no hotel, para tentar incluir seus filhos na lista que os colocaria fora do alcance nazista. Nicholas Winton trabalhou duro durante aproximadamente nove meses, numa tentativa desesperada de retirar da região mais de 600 crianças. Ao final de seus esforços, 669 crianças foram retiradas, e assim salvas das garras dos soldados nazistas. Um último trem com mais 250 crianças estava programado para partir em setembro de 1939, mas não deu tempo: os nazistas invadiram a Polônia e houve a declaração de Guerra. O trem não partiu, e nunca mais se soube o destino das crianças.  

Mas o trabalho de Winton frutificou nas crianças salvas: acredita-se que existam, hoje em dia, mais de 5.000 crianças das chamadas “crianças de Winton” que seriam descendentes das crianças que Winton salvou. A modéstia foi outra marca registrada de nosso homenageado de hoje: Ele guardou seu feito como segredo por mais 50 anos. A história só foi a público quando sua esposa, Grete, descobriu no sótão de sua casa uma pasta que continha a lista das crianças salvas e cartas para os pais delas. Lá estavam os nomes de seus pais e os nomes e endereços das famílias que levaram-nos.

Várias destas crianças foram encontradas por meio destas cartas e informações.  Em 1988, o mundo tomou conhecimento do seu trabalho: durante um episódio do programa de televisão da BBC That’s Life!, Winton foi convidado como um membro da plateia. Em um ponto, recados de Winton foram mostrados, e suas realizações explicadas. A apresentadora do programa, Esther Rantzen, perguntou se alguém na plateia devia a sua vida a Winton e, em caso afirmativo, ficar de pé. Mais de vinte pessoas ao redor de Winton se levantaram e o aplaudiram.

Esse momento emocionante pode ser visto em gravações de vídeo, disponíveis no YouTube (https://youtu.be/6_nFuJAF5F0). Nicholas Winton é daquelas pessoas que descobrem rapidamente sua missão na vida, e a cumprem de forma grandiosa, mas totalmente em silêncio e sem alarde. Em 1983, foi nomeado membro da Ordem do Império Britânico;  em 2002, elevado a cavaleiro pela rainha Elizabeth II em reconhecimento ao seu trabalho no salvamento das crianças, entre outras premiações e reconhecimentos.

Tenho me esforçado em levar até os amigos leitores estas histórias, para que nos inspiremos. Vivemos sim tempos controversos, onde ter consciência humanitária, ser bom, buscar o combate aos preconceitos, à violência, ao racismo, à discriminação, é colocado com algo de cunho político. Há pessoas que tentam transformar tudo em um embate politiqueiro sem sentido, tudo vira munição para uma guerra polarizada, tudo é “coisa de esquerda ou de direita”.

Mas podemos sim ser superiores a isso, e exemplos de pessoas ao longo da História nos mostram que pessoas que só pensam em politizar as coisas, semeiam conflitos. E outras pessoas preferem fazer algo prático em prol dos que precisam, e semeiam bondade, paz, fraternidade. Tomemos consciência sim do nosso papel no mundo!

José Carlos Correia Filho – professor de História

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