Fotos: Naor Coelho/Fatos do Iguaçu
Por Nara Coelho – Portal Fatos do Iguaçu
GUARAPUAVA – PR — O Portal Fatos do Iguaçu esteve na manhã desta quarta-feira, 12 de novembro de 2025, no Assentamento Nova Geração, no distrito de Entre Rios, Guarapuava-PR, quatro dias após a devastação causada por um tornado. Com ventos que chegaram próximos de 250 Km/h na sexta-feira, 8 de novembro, a tragédia deixou um rastro de destruição e histórias dramáticas de sobrevivência. Moradores que perderam o patrimônio de uma vida compartilharam a dor da perda e a luta pela reconstrução.
A Dor da Perda em Segundos e o Drama Pessoal
A velocidade e a violência do tornado foram unânimes nos relatos. Os moradores descreveram a experiência como aterrorizante e instantânea.
Adriano: 20 Anos, Luto Duplo e o Roubo das Memórias

Para Adriano, a perda foi incalculável. Ele estava na cidade e só conseguiu chegar ao assentamento na madrugada, encontrando uma destruição inacreditável: “Pegou o galpão, o aprisco, as duas casas que tinha ali. Levou bastante dos materiais embora.” O que foi construído em mais de 20 anos, “em poucos segundos foi perdido tudo.”
No entanto, o drama de Adriano foi agravado por uma tragédia humana. A área já era marcada pela dor da perda, pois seu irmão havia falecido no sítio há poucos meses.
“Ainda a perda da lembrança, né? Tinha muita coisa ali, que faz também 4 meses e pouco que eu perdi o meu irmão… E o pessoal [os saqueadores] levaram tudo, o pessoal não tinha nem deixado nem a memória dele, dos dois.”
Adriano relata que a esposa de seu pai retornou à propriedade após o tornado para saquear o que restou, levando todos os bens, incluindo os objetos pessoais do irmão falecido. “É triste ver a pessoa não respeitar a memória dos outros,” desabafa.
Luciano Evangelista: Salvos Pela Fé

Luciano Evangelista, de 66 anos e 16 anos no assentamento, teve quatro casas, paiol, chiqueiro e garagem “totalmente destruídos”. Ele e mais oito familiares estavam na propriedade no momento da tragédia.
“O que aconteceu não era para sobrar nada. Então, Deus poupou a nossa vida. Graças a Deus,” desabafa Luciano.
Ele descreve o fenômeno como algo jamais visto em sua vida, confirmando a velocidade devastadora: “Esse tornado, quando ele passou ali em 300 por hora, ficou interredor da minha casa… Foi muito rápido, não é questão de segundos.”
Adair Hoffman: O Grito Pelo Filho e a Batalha pela Vida

O depoimento mais dramático veio de Adair Hoffman, que estava em casa com a esposa e o filho quando o tornado atingiu. “Não sei se durou um minuto todo esse processo,” conta.
Adair e a esposa foram jogados pelo vento a cerca de 30 metros de distância. Seu filho ficou preso sob um freezer que caiu. Mesmo ferido, Adair rastejou para salvar o filho. “O meu piá não conseguiu sair, porque um freezer veio e caiu em cima dele… Eu tive força, fui lá e consegui tirar ele.” Sua esposa, encontrada ensanguentada e com costelas fraturadas, sobreviveu. “Somos vivos aqui por Deus. Só isso,” afirma Adair, que perdeu tudo (maquinário, barracão, chiqueiro e animais) e agora vive de favor.
Prejuízos, Solidariedade e Críticas
Nilson Ponsoni: Perda da Criação e Mulher em Depressão

Nilson Ponsoni, fundador do assentamento, relatou perdas materiais significativas, incluindo duas cabeças de gado e um prejuízo estimado em R$ 8 mil. “Cobrimentos de uma casa, não sobrou nada.”
Ele descreveu a velocidade da passagem do tornado: “Não é questão de segundos. É um assopro. Não dá tempo de você nem levantar do banco.” A telha da casa onde estava com o filho foi engavetada, fazendo chover dentro da residência. No entanto, o impacto emocional é o mais difícil: “A mulher caiu em depressão, já atacou mais ainda. Tá feio, eu não sei como é que elas vão sobreviver… A ideia dela não é de ficar aí.”
Cleide de Oliveira Rodrigues: A Horta Devastada e o Socorro Imediato

Cleide de Oliveira Rodrigues teve sua casa destelhada, mas priorizou o socorro aos vizinhos. “Você quer saber os outros como é que estão… Deixe que molhe.” Ela e a família socorreram um vizinho que ficou gravemente ferido.
Seu maior prejuízo foi no sustento da família: “O meu meio de sobrevivência está tudo destruído, que é a minha horta.” O cotachamento e as estruturas de hortaliça e uva foram totalmente destruídos. “Não tive nem coragem de ir lá ver as minhas coisas,” lamenta, agradecendo a força-tarefa da comunidade e do MST que a ajudou a cobrir a casa rapidamente.
Indignação e a Cobrança ao INCRA
Todos os moradores expressaram gratidão pelo apoio do Governo Municipal e da comunidade do assentamento. No entanto, a atuação do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), por ser uma área federal, foi duramente criticada.
“O INCRA é só nome. Não resolve. Só promessa e mentira para nós,” disparou Nilson Ponsoni.
Adriano, cuja família é posseira (ocupante não regulamentada), espera que o órgão ajude a todos, independentemente da formalidade: “Agora não faz diferença, né? Estamos todos juntos aqui, né?” Cleide de Oliveira Rodrigues também cobra providências do superintendente do INCRA, presente no dia da reportagem: “Não só ficar hoje aqui na conversa e depois some nunca mais.” A expectativa é que, com a avaliação das estruturas por órgãos externos e a presença federal, venham recursos para reconstruir as casas e o futuro no assentamento.



