Há uma cena da história da filosofia que aprecio muito, cena essa que noutras ocasiões utilizei para ilustrar minhas escrevinhadas. Refiro-me ao encontro de Alexandre, o Grande, com Diógenes, o Cínico. Isso mesmo! Refiro-me àquela cena onde o Imperador diz ao filósofo que daria qualquer coisa que ele desejasse e, Diógenes, laconicamente, diz ao filho de Felipe: “Beleza. Quero que você sai da frente do sol. Sua sombra está me atrapalhando, seu mané”.

Gosto dessa imagem por inúmeras razões. Ela, em várias ocasiões, me propiciou inúmeras reflexões. Reflexões essas que me fizeram um bem danado. De todas elas, há uma que gostaria de destacar através dessas linhas tortas. Então, vem comigo…

De certa forma, a imagem de Alexandre e Diógenes, retratados nessa anedota, somos nós. Essas personagens representariam duas inclinações que habitam a nossa alma. Inclinações essas que tensionam o nosso ser a tomar uma e outra direção em nossa vida. Direções acertadas, caminhos equivocados, todas elas veredas humanamente vividas.

O primeiro, é a imagem escarrada de nossa soberba. Senhores de nós mesmos, de nossas conquistas pessoais, profissionais e sabe lá do que mais, nós nos ufanamos sem fazer a menor cerimônia diante do espelho e, é claro, dissimulamos modéstia diante dos outros, porque não pega muito bem nos gabar publicamente.

O segundo, seria o retrato de nosso possível impulso para contemplar a verdade. Impulso esse que nos bastaria se não fosse a nossa soberba que insiste em desviar o nosso olhar daquilo que é fundamental. Bah! E como gostamos de um desvio.

Diógenes estava a banhar-se na luz do sol, contemplando a obra do criador. Alexandre estava de costas para o sol, orgulhoso de suas obras, como se tudo dependesse das suas ações.

O sol, como todos sabemos, é um símbolo universal da verdade – o olho que tudo vê, o olhar que a tudo ilumina – que se derrama caudalosamente sobre toda a realidade e, dessa forma, alumia nossa inteligência adentrando as janelas de nossa alma, permitindo que possamos, desse modo, conhecer o mundo que nos rodeia, conhecendo-nos.

Se nos deixarmos ser banhados pela luz vivificante da verdade, podemos nos tornar alguém e nos transfigurar na pessoa que realmente devemos ser. Agora, se viramos nossas costas para a verdade, passamos a viver num simulacro de humanidade onde, com o tempo, naufragamos num emaranhado de enganos e auto enganos desconexos que acabam se tornando a nossa personalidade e, assim desse jeitão, terminamos nos perdendo de nós mesmo, em nós mesmo.

Mudemos um pouco de assunto, sem sair do rumo traçado até aqui. Vejam só: Alexandre curtia pra caramba a Ilíada e a Odisseia de Homero, segundo nos contam os anais da história e, dizia-se, que ele gostava de pensar que era uma espécie de novo Aquiles, ou algo similar. Enfim, ele se acha phoda pra caramba. Muito mais do que ele realmente era. E, por matutar assim, podemos dizer que a ira de Aquiles, que não era miúda, acabou, de alguma forma, encontrando abrigo na soberba de Alexandre, que não era pouca.

Quem dera se ele tivesse com seus olhos voltados para a verdade. Se tivesse, lembraria da conversa que Odisseu teve com Aquiles no Ades, na Odisseia, quando esse disse ao astuto rei de Ítaca que, se ele pudesse voltar à vida, preferiria trocentas vezes levar uma vida simples, como um modesto e anônimo camponês com sua família, do que uma vida coberta de glórias como a que ele teve.

Aí, vem-nos à mente a figura de Diógenes, que era chamado de “o cão”, por viver como um e não se importar nem um pouco com isso. E, imagino eu, que ele anteviu em Alexandre o destino do amado herói homérico.

Da mesma forma que Alexandre, nós, muitíssimas vezes, acabamos por amealhar muito saber, porque sabemos que o dito cujo se bem usado é poder. Porém, como nos ensina Will Durant, somente a sabedoria liberta, porque ela, a sabedoria, apenas floresce do nosso encontro pessoal com a verdade.

E, como todos sabemos, a Verdade se fez carne e habitou entre nós, carregou nossos erros, faltas e pecados sobre o madeiro da cruz, junto com as dores da flagelação para ver se nós, ao contrário de Alexandre, o Grande, nos tornemos pequenos e voltemos nossa face para a luz que se derrama sobre nós todo santo dia e, feito a um cão, sentemo-nos junto ao chão para admirarmos a criação que não foi feita por nossas mãos.

Sim, penso que nenhum de nós deseja ser um conquistador tal qual o imperador macedônico, entretanto, muitas vezes, agimos como tal nas cercanias de nossa vida com nossas conquistas pequeninas. Agora, se pararmos de agir feito abestados que somos e tomarmos tenência, teremos em nossas mãos a oportunidade de crescer em espírito e verdade, se aprendermos a ser pequeninos e deixarmos, de vez, de sermos assim tão mesquinhos.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

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