M.Selva

XXV. Confissões cruzadas, 2. O tempo do espelho 1

 

Caro Richard

Recebi sua carta de 17 de julho último e confesso que fiquei muito surpreendido com o conteúdo inusitado. Eis aí a mais clara demonstração de sua concepção de verdade, a qual eu atreveria dizer que não é necessariamente pragmática, mas antes ficção. Não fique bravo comigo, sei que você encontrará aplicações à altura para esse novo conceito de verdade.

Embora de áreas diferentes, somos ambos amantes da verdade, sim, você daquela a que chamam pragmática e eu da que sobressai na Poética de Aristóteles, precisamente quando na expectação de uma tragédia, sobrevém-nos a catarse. Essa mesma catarse que a psicanálise, pelo menos em seus inícios, tornou o cerne de seu procedimento de cura e assim a legitimou como o resultado adequado do encontro com a verdade, a assim chamada verdade do Inconsciente e, portanto, o que nos sobrevém quando apreendemos o sentido do sintoma. Sei que você está mais próximo da psicanálise do que eu, mas por que não aceitar esse ponto, guiando-se assim para a redescoberta de si mesmo, para além e aquém de sua pura e simples redescrição? Não me leve a mal, mas aqui está o centro da problemática levantada por você.

Você é o filósofo e eu o literato, mas você se deu o direito de fazer uma antropologia descritiva dos estados neurais e eu assumi a verve semiótica da interpretação dos limites do que se pode interpretar. O problema principal é o seguinte, quando você escreve sobre o Antipodiano do modo como escreveu, você o torna um existente real, se não do seu, ou do nosso, tempo, pelo menos de um tempo futuro, ao qual, nos dias de hoje, não conseguimos ter acesso algum. Mas, se a verdade é uma ficção, por que, por seu turno, a ficção não pode se mostrar ou, antes, realizar-se em sua verdade? Note que você criou uma verdade como ficção cuja verificação se deu justamente por um dos entes ficcionais que suportam a referida verdade, ou você conseguiria explicar o misterioso telefonema de outra forma?

No fragmento citado, seu interlocutor começa com a descrição de um estado neural – em verdade, dois estados neurais – em virtude da verificação do fato de que “suas proposições” não eram tautológicas. Para ele, por conseguinte, a verificação consistiria em uma descrição de tautologias; o que condiz com o fato de ele próprio ser uma ficção, não no sentido de algo que pura e simplesmente não existe, mas no sentido de algo que não existe na realidade exterior. Em vista disso, ele necessita descrever tudo o que se lhe aparece e o faz da forma a mais exterior possível, numa épica fuga de si mesmo (supondo que, mesmo sem o saber, ele possuísse algum lado interior) ou numa frenética busca de um Si exterior que não existe ou que jamais existirá. O que há de mais exterior senão a tautologia ela mesma?

“Tudo o que existe é real e tudo o que é real é tautologia”, diz-nos ele. Percebe que, assim, ele não está senão realizando a própria concepção de verdade do autor de A filosofia e o espelho da natureza?

 

[Continua…]


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