M.Selva

XXIV. A volta para casa

Na sala de reuniões, depois de ouvirem os termos de Liam, Rebecca e as três outras pessoas ficaram maravilhadas. Elas estavam ali para fechar um acordo comum de exploração de rotas de viagens interestelares, tendo Sedna como entreposto ou como posto avançado. A possibilidade de Sedna também ser o centro nervoso de viagens envolvendo três buracos de minhoca deixou todos boquiabertos, inclusive as duas ahis que acompanham o grupo.

O acordo foi fechado sem delongas e os cinco humanos se encaminharam para a sala de jantar, onde seria a celebração oficial do acordo. A expectativa de era a de encontrarem Sasha e o Antipodiano lá, pois Liam havia comentado sobre como viajaram pelo buraco de minhoca a bordo de Sasha em modo N e de como o Antipodiano criou os três buracos de minhoca. Mas nenhum dos dois apareceu no jantar, mais uma vez Liam se prontificou a justificar o possível motivo. Rebecca sustentou cada umas das palavras do filho.

Os dois homens e a mulher que negociaram o acordo com Rebecca ficaram desapontados com a atitude de Sasha e do Antipodiano, mas em poucos minutos já estavam gargalhando alto com os lucros que projetavam alcançar em tempo recorde. Os buracos de minhoca se mostraram bônus inesperados e, independente do risco em explorá-los, foram recebidos como bilhetes premiados para uma fortuna fácil – isso, pelo menos segundo o modo de pensar dos três negociantes.

O jantar seguiu adiante com comidas de origem terráquea e iguarias de outros lugares do sistema solar, inclusive o primeiro uísque sintético produzido em Sedna, bebida cuja produção e comercialização só era permitida em certos cantões solarianos. Algo contrastante, porém, era a inquietação de Liam pelo fato de Sasha não estar ali, assim como o Antipodiano. Liam se projetou para se levantar duas ou três vezes e, então, ir procurá-los, mas o olhar inquisidor de Rebecca fê-lo quedar-se inerte.

Núbia, a proprietária de uma das maiores corporações solarianas, olhava para Liam com certo interesse; o que não passou despercebido por Rebecca. Ele, de frente para Núbia e de costas para a porta de vidro que dava acesso à sala de jantar, ficou bastante confuso quando ela, olhando fixa para a porta, apenas apontou o dedo, não conseguindo esboçar uma palavra sequer.

Todos olharam na direção apontada por Núbia, menos Liam, que por um momento pensara ser o problema; pois tinha a opinião de que Núbia era excêntrica. Em um segundo, Rebecca e os dois homens saíram correndo pela porta dos fundos; Núbia continuava paralisada. Então Liam percebeu que o problema não era com ele. Assim, olhou para trás e soltou o grito: Nooocaaapiiiiiiii!!!.

Deu um salto e, tal como os outros, também saiu correndo, mas na direção oposta, rumo à luz azul neon que entrava pela porta. Alguns segundos depois retornou ofegante; porém, Núbia continuava parada com o dedo indicador apontando para a porta de entrada. Liam chamou uma AHI e a ordenou que levasse Núbia para a entrada do primeiro buraco de minhoca e o aguardassem lá. Assim que a AHI saiu com Núbia, ele instruiu de modo semelhante outra AHI para que encontrasse Rebecca e os dois homens e, igualmente, os levasse para a entrada do buraco de minhoca.

Enquanto Liam falava, uma explosão acontece. Ele cai no chão desacordado, em função dos choques elétricos que levara. A AHI suporta os choques, mas fica sem saber o que fazer; hesita por alguns segundos, porém sai em disparada atrás de Rebecca e seus parceiros de negócios. Minutos depois, Liam recobra o juízo; não há luz, toda a energia de Sedna parece ter sido dissipada.

Contudo, a luz azul neon se torna ainda mais e mais espessa, a ponto de Liam não enxergar um palmo à sua frente e ter que chamar uma AHI para socorrê-lo. Nenhuma AHI aparece, Liam fica desorientado. Tenta se manter sóbrio e finge estar no escuro, como gostava de brincar quando criança.

A luz azul neon continua espessa, mas agora descarregada eletricamente. Liam pensa o pior; todavia, sabe que a prioridade no momento é salvar a própria vida. Às apalpadelas, segue para o ponto de encontro determinado por ele próprio. Também sabe, ou sente, que Sasha estará lá…. “Ela sempre foi muito perspicaz, com certeza já deve estar nos aguardando na entrada do primeiro buraco de minhoca”, pensava ele.

Sasha, entretanto, a poucos metros do epicentro da explosão, sente mais forte que todos a sua intensidade. O impacto não a destrói, pois ela já estava correndo e, por isso, se distanciando dos aposentos do Antipodiano, para onde estava se dirigindo quando percebeu o que estava para acontecer.

A onda de choque, no entanto, alcançou-a pelas costas no exato momento em que ela se preparava para mudar de corredor, iniciando portanto o movimento do corpo para fazer uma curva. A força da onda a arremessa contra uma parede, na qual ela como que resvala e desliza por pelo menos uns duzentos metros.

Nesse corredor, o impacto foi mínimo, apenas uma fração da onda que prosseguiu no corredor principal, em que Sasha estava antes; contudo, agora Sasha era quem estava mais longe da entrada do primeiro buraco de minhoca. Para chegar lá, pelo caminho mais rápido, ela deveria voltar e passar pelos seus aposentos e pelos de Nocapi – os quais, a essa altura, estavam destruídos. Se prosseguir pelo corredor em que está, ela terá de dar uma volta por praticamente toda a estação construída por Rebecca.

Sem saber de nada disso, Liam chega ao primeiro buraco de minhoca – que leva a Oásis Prime. O lugar está ermo, ele fica sem saber se os outros já foram para casa ou se estão impossibilitados de prosseguir por algum motivo. Mais uma vez, não sabe o que fazer; então se senta, encolhe os joelhos, os trás até a cabeça e abraça as pernas, encostando a cabeça nos joelhos e fechando os olhos.

A imagem do Antipodiano vem à sua mente; de súbito, sobrevém-lhe uma ideia. Liam se levanta, esfrega os olhos e, deveras inseguro, segue rumo ao quarto de Nocapi. No caminho, percebe que o sistema de autossustentação de Sedna conseguiu reverter o colapso que, em situações como essa, seria sem volta. Um fio de esperança soprou-lhe a espinha, pouco a pouco a energia elétrica foi restabelecida, a luz azul neon também foi se dissipando, até não restar mais sinal algum. Porém, ao chegar aos aposentos do Antipodiano, ficou estarrecido: o aposento simplesmente havia desaparecido e, com ele, o próprio Antipodiano.

Com certeza, o epicentro da explosão foi o quarto do Antipodiano. A explosão destruiu todo o aposento e parte do de Sasha, cuja cama – ou reparador – também havia desaparecido. Liam sentiu-se mal, na verdade culpado, por não ter saído do jantar quando sentira que Sasha estava em perigo, começou a resmungar e falar coisas ininteligíveis consigo mesmo. Como os dois aposentos eram separados por uma parede natural – de rocha nativa – de pelo menos dois metros de espessura, Liam começou a imaginar que o que ocorreu ali poderia não ter sido, de fato, uma explosão e sim algo distinto.

Todavia, como há evidências de uma explosão, essa tem que ser interpretada como um evento secundário de um fenômeno muitas vezes maior; do contrário, Sedna – ou pelo menos as instalações de Rebecca – não teria sobrevivido. Pensando nisso, Liam voltou-se em direção ao recém destruído quarto de Nocapi. Uma espécie de túnel se formara no percurso dos condutores da energia planetária. Liam se perguntou: “Caramba! Será que eu realmente estou vivo? O que é exatamente isso?”.

Apesar da temperatura extremamente alta no túnel, que mais parecia uma fornalha e, àquela altura, permanecia completamente escuro, Liam prosseguiu. Notou algo diferente, se aproximou, percebeu uma espécie de espelho d’água, na vertical, imenso, de cor vermelho intensa, amarronzada, com traços azul neon, um roxo profundo e terroso, tal como berinjela escuro ou ameixa, porém, de certo modo, completamente translúcido.

“Não pode mais haver lugar para dúvidas”, pensou Liam, querendo encostar no espelho d’água vertical, mas extremamente temeroso. Só pode ser mais um buraco de minhoca, dessa vez exageradamente grande, umas cinquenta vezes o tamanho do último. “Se o primeiro e menor leva de Oásis Prime a Sedna e o segundo a algum lugar que suporta a destruição do dispositivo de Master 1, onde esse novo levará?”, perguntou-se Liam, sem levar em conta o buraco de minhoca construído na enseada de Oásis Prime…. O rapaz estava assaz excitado e excessivamente tentado a atravessar…

Liam, porém, se afastou. Caminhou de costas, para longe da entrada do buraco de minhoca, por uns 40 metros. A cada passo, meio sem querer, porque algo triste, deixava escapar um sorriso. Até que se rendeu, abriu os braços, como que em agradecimento, virou-se e seguiu em frente…

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